Victor Lobo: da cave ao Laboratório
Quarta, 23 de Novembro de 2011
por Acabra .Net
Ao final de 51 anos de carreira na química, o investigador recebe um prémio da Academia de Ciências Russa. “Tenho feito o melhor possível”, garante. Por Filipe Furtado
Nos 51 anos como professor e investigador de química, Victor Lobo construiu um nome de relevo na área das ciências, na Universidade de Coimbra. Como mais recente premiar do seu percurso, o investigador recebeu o prémio Nicolai M. Emanuel atribuído pela Academia de Ciência Russa, pelo seu trabalho na solução de um problema de difusão em polímeros.
O professor catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) viu despertar a vocação científica numa cave, quando ainda andava no primeiro ou segundo ano de liceu (atuais quinto e sexto anos), não tem a certeza. Aos poucos, construía um pequeno laboratório improvisado com o material que o tio trazia da unidade de apoio médico-cirúrgico onde trabalhava.
Aos 16, vive a que acha ser a melhor experiência da sua vida: um ano a estudar nos Estados Unidos da América, em 1956, integrado no American Field Servive. Partiu em viagem da Bélgica, ainda de barco, rumo à primeira “vivência numa sociedade democrática” e “altamente eficiente”, lembra Victor Lobo.
Prémios e publicações
Nas largas décadas que dedica à química é possível enumerar outros tantos momentos marcantes, como o doutoramento pela Universidade de Cambridge, em 1971; quando passa a professor catedrático em 1981; ou a medalha de ouro na 15ª Exibição de Invenções e Novas Técnicas de Genebra, com uma célula desenvolvida para medir a difusão de coeficientes; e ainda, a mais recente, a distinção pela Academia Russa de Ciências, com a qual se “sente muito satisfeito”. Contudo, a Rússia não lhe é estranha, e o prémio vem de uma colaboração protagonizada desde 1980, quando o mesmo começou por resolver um problema de difusão de polímeros, em conjunto com Arthur Valente. Este trabalho “resultou num processo de determinar Dodecil Sulfato de Sódio em águas”, aplicável em estações de tratamento de águas residuais, para o controlo de poluição, explica o professor jubilado.
No trabalho para a sala de aula, o investigador recorda a tradução, em 1977, de uma obra sobre termodinâmica química, algo que, “hoje em dia, não seria preciso”, aponta. Tal aconteceu “para facilitar a vida aos alunos”, algo que se explica pelas muitas dificuldades dos estudantes com a língua estrangeira à época.
Além da obra traduzida, o químico publicou um trabalho dividido em dois volumes e de 2366 páginas: “Handbook of Electrolyte Solutions”. Começou, em 1975, a elencar o acumular de 20 anos de informação, numa altura de grande agitação política e social no pós-25 de abril que não deixou de fora as universidades portuguesas. O professor catedrático foi impedido de prosseguir a investigação experimental: “até a água destilada me tiraram!”, confidencia. Como não é homem de estar parado, trabalhou “intensivamente”, durante três anos, a compilar todo o material para o seu livro.
Os artigos científicos com o cunho de Victor Lobo ascendem a quatro centenas e é também nos jornais que lança o seu pensamento crítico em relação ao estado do sistema de ensino em Portugal – “o gravíssimo problema dos estudantes não saberem estudar”, sublinha.
Congressos de roulotte
O investigador confessa “a sorte nos filhos e esposa”, uma família muito unida que viajava “pelo mundo fora”. Levavam uma roulotte atrelada ao carro para acompanhar o pai pelos congressos na Europa. “Quando era miúdo vivia numa aldeia onde não havia eletricidade, ao anoitecer tínhamos de estar todos à lareira: a minha mãe a cozinhar, o meu pai a tratar de coisas e a conversar”, recorda o investigador da FCTUC que costuma dizer que “as viagens de roulotte foram o substituto da lareira da aldeia do meu tempo”.
Fora da ciência, Victor Lobo é também um amante da música, amante esse que conduzia 300 quilómetros de Camberra, na Austrália, até Sidnei, apenas para ouvir ópera com a mulher e regressar a casa ao amanhecer. O interesse pela fotografia mantém-se, tanto nas recordações da coleção de diapositivos antigos ou com os novos formatos digitais meticulosamente organizados. Aos domingos, entretém-se em pequenas propriedades florestais, entre pinheiros e eucaliptos plantados.
Victor Lobo dispensa ser “juiz em causa própria” e sublinha que tem “feito o melhor possível” no seu trabalho científico - “por justiça própria, tenho que dizer que em Portugal há pessoas com muitíssimo melhor serviço prestado à ciência”. Para melhor definir o seu contributo à investigação, utiliza uma expressão do mundo do ciclismo: “considero que vou no meio, nem serei dos que vão na cauda mas muito menos um fugitivo que deixou o pelotão”.






