É urgente recuperar a dignidade universitária
Terça, 24 de Maio de 2011
por Acabra .Net
"A educação, individual e colectiva é indispensável à vivência saudável em sociedade". Por Jorge M. Santos Rocha, professor de Engenharia Química da FCTUC
O Cortejo dos “então” Quartanistas sempre foi o ponto alto, e o principal cartão-de-visita, da grande festa coimbrã que é a Queima das Fitas. É uma festa que extravasa a academia e a cidade, estendendo-se a todo o País, de onde vinham em excursão familiares e amigos saudar, abraçar, congratular, prendar e brindar os novos “Doutores”. Uma festa em grande é aquela que se transforma num ícone de uma comunidade, mas que ultrapassa os interlocutores directos e indirectos (neste caso estudantes, professores, pais, amigos e futricas). Vai muito mais além, sendo até um símbolo nacional, o que lhe confere privilégios, mas também responsabilidades acrescidas. Em grandes momentos de êxtase colectivo sempre houve, e é compreensível que haja, alguns excessos de alegria contaminante, seja para festejar o que se conseguiu, seja para esquecer o que vem a seguir. A massificação do ensino superior e a consequência da adaptação ao processo de Bolonha, veio baralhar as praxes académicas e seus rituais, tendo introduzido uma crescente entropia, não só pedagógica e académica, mas também comportamental, inclusive ao nível da diversão. É legítimo, louvável e saudável que gente nova seja alegre, divertida e optimista, mas daí até contribuírem colectiva e inconscientemente para o declínio da sua própria imagem, vai uma distância que não pode encurtar. A imagem de uma Universidade é o reflexo do que cada membro da sua comunidade, participante e envolvente, vai fazendo por ela. Ora, os estudantes parecem ter esquecido a sua quota-parte, e que são os primeiros e directos beneficiários da boa imagem da sua Universidade, cujo nome e símbolo vão colocar no cartão-de-visita, quiçá para atrair clientes.
Naquilo em que se tornou o Cortejo da Queima, não reconheço que dignifique nem a Universidade, nem os seus graduados, e também não me parece que o benefício económico para a cidade seja significativo. Assim sendo, melhor seria ter a coragem de interromper a realização do Cortejo, de modo a regulamentá-lo nos padrões da dignidade e da mais-valia para a Universidade e seus estudantes, para que estes pudessem dele tirar proveito até para as suas futuras actividades profissionais. Caso contrário, fica comprometido todo o esforço de divulgação e transferência do saber, que a Universidade tem fomentado nos últimos anos.
No passado dia 8 de Maio andei mais de uma hora pela Alta de Coimbra, acompanhando o arranque do Cortejo da Queima das Fitas. Para tal desloquei-me primeiro de bicicleta, e depois a pé, por motivos evidentes, contrariando uma vontade imensa de fazer uma breve sesta após o almoço, com o objectivo único de cumprimentar e desejar boa sorte aos meus estudantes. Fiquei triste e incomodado com o espectáculo deprimente a que assisti! Digo mesmo que fiquei envergonhado como cidadão de Coimbra, como Professor da nossa Universidade e como pai de estudantes universitárias! Como é compreensível ou aceitável que a diversão dos ilustres estudantes de Coimbra seja a de despejar o conteúdo das latas de cerveja, depois de bem abanadas, uns sobre os outros?! Mais parecia a festa da “T-shirt molhada”! Estudantes formalmente bem trajados, teoricamente elegantes, e depois com aqueles propósitos e naquele estado de humidade doentia e mal cheirosa! Já houve uma evolução positiva, nos últimos anos, com a proibição do uso de garrafas de vidro, que conduzia àquele cenário apocalíptico e extremamente perigoso, na memória de todos nós. Para tal poderá ter contribuído uma sugestão ao mais alto nível reitoral que levei a cabo imediatamente após uma Queima, para ser implementada na Queima seguinte, depois do acordo de todos os intervenientes, o que assim acabou por acontecer. Nem sempre as nossas ideias caiem em saco roto! Mas agora há uma mudança comportamental que é urgente implementar. Não podemos deixar que a anarquia estudantil, mesmo que involuntária, estrague uma imagem que vai ser vital para as suas vidas profissionais! Cuidado com as perguntas que os empregadores já hoje fazem nas entrevistas aos ex-estudantes de Coimbra, acerca do motivo e da mais-valia de terem tirado o curso em Coimbra, em jeito de gozo, ou não. Eu não consegui levar a cabo o meu objectivo de cumprimentar os meus estudantes e de lhes pedir uma plaquete, porque simplesmente não me consegui aproximar do carro! Eu nem sequer vi nenhuma plaquete a ser distribuída de qualquer carro! Já poucos familiares e amigos se vêem com ramos de flores e sorrisos nos lábios! Eles foram expulsos! Será normal que só por ter ido ver o Cortejo eu tenha chegado a casa e ter tido imediata necessidade de tomar banho e mudar toda a roupa? Que imagens é que passam na comunicação social (a RTP 1 transmitiu o jornal da noite desse dia em directo de Coimbra), e que imagens levam na memória os eventuais visitantes, se ainda os houver? E se fossem eventuais empregadores, por que ordem colocarão os candidatos de Coimbra? Uma imagem demora muito tempo a ser construída e pode desfazer-se em breves instantes. E quando se trata de uma imagem colectiva, a responsabilidade não é de todos mas sim de cada um! Que diferença quando os carros, em vez de serem verdadeiras Arcas de Noé carregadas de cerveja, levavam apenas algumas garrafas de espumante de boa qualidade … para ser apreciado … com a moderação possível.
Tudo passa por uma questão de método ou organização ou gestão de actividades colectivas, ou ordem unida como se diz no serviço militar. É indispensável definir regras de conduta e exigir o seu cumprimento. Quando nos dispomos a participar em actividades de grupo há regras que temos de cumprir para que o “espectáculo” saia bonito, e possamos recolher os louros respectivos. As exigências da organização podem ser facilmente aceites a troco de prémios, por exemplo. Cada carro devia ter obrigatoriamente uma equipa de 2-4 elementos que respondesse perante a equipa da organização do Cortejo, tendo cada um destes elementos um número reduzido de carros seguidos sob sua responsabilidade. Se os estudantes da organização não chegam, então que contratem este serviço de “mestre-de-cerimónias” a quem o quiser prestar (fica uma ideia para o pessoal da Gestão de Recursos / Comportamentos Humanos), sendo certo que o resultado final será compensador. A equipa de cada carro seria devidamente identificada perante a organização; se não houvesse voluntários do curso correspondente ao carro seria a organização, ou a tal empresa prestadora desse serviço, a fornecer esses elementos – cujo custo seria imputado ao carro em causa. Essa equipa seria a responsável pela dispersão dos estudantes pedestres afectos ao carro, com os cartolados à frente do carro e os restantes atrás, marcando o compasso de modo a não haver misturas de cursos ou acumulações ou afastamentos no percurso do Cortejo. Pugnariam igualmente por conter os excessos brejeiros da linguagem, que não dignifica nem quem os diz e, muito menos, quem os ouve, porque se sente no sítio errado. Seria também incentivada a proposta de cantigas novas e diversos aspectos seriam avaliados para a atribuição de prémios, como sejam o comportamento dos estudantes, a crítica social que fazem, a interacção com os futricas, a distribuição de panfletos informativos ou de plaquetes, etc …enfim…. premiava-se a originalidade e impedia-se a desordem e a confusão. Terão de ser os estudantes, através dos seus representantes, a propor, a aprovar e a implementar medidas correctivas aos comportamentos anómalos, como seja o de um ser humano que despeja uma lata de cerveja sobre outro ser humano
A educação, individual e colectiva, é indispensável à vivência saudável em sociedade. As Direcções da Universidade e da Associação Académica não se podem abster de fazer pedagogia cívica na academia. A formação de graduados vai mais além do que a formação técnico-científica nas Faculdades e Departamentos. A organização militar tem vantagens que devem ser seguidas, a bem dos estudantes que, quando deixarem de o ser, terão de inevitavelmente se adaptar a um mundo bem diferente do mundo universitário. É urgente que a disciplina, a ordem, o respeito, o civismo, a dignidade, façam parte do legado genético que a Universidade transmite. Não esquecer que o que fazemos hoje pode também denegrir a imagem que outros no passado construíram, e que por isso podem vir também a ser prejudicados, sem qualquer culpa disso. Estamos a formar a elite de um País, e ninguém vai acreditar nisso ao assistir a este Carnaval de mau gosto em que se transformou o Cortejo da Queima das Fitas. Para os bons comportamentos entrarem em velocidade de cruzeiro, por vezes é preciso uma “democracia musculada”, mas passados poucos anos já surgem naturalmente. Os nórdicos não atravessam fora das passadeiras … porque os seus antecedentes foram multados quando o faziam. Hoje, já não é preciso multar ninguém! Não precisamos de voltar à gravata diária ou ao chapéu de coco, de estilo britânico, porque não se trata de disfarçar aparências, mas manter a dignidade humana é intemporal, a bem da nossa Humanidade.
*Por escolha do autor este texto não segue o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa






