Trabalhar além fronteiras

“É uma realidade que vai aumentado à medida que a crise se agudiza”

Terça, 28 de Junho de 2011

por Acabra .Net

Um estudo recente revela que 32 por cento dos jovens portugueses recém-formados pondera emigrar. Entre os principais destinos encontram-se os tradicionais países de acolhimento dos emigrantes nacionais, mas também, mais recentemente, países de língua oficial portuguesa, como Angola ou Brasil. Por Rafaela Carvalho e Maria Eduarda Eloy

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Para além dos tradicionais países de emigração portuguesa, começam a surgir novos como Angola Foto por Manuel Pires

 

“Em todas as minhas conversas com portugueses, dentro ou fora do país, nunca ouvi uma palavra de encorajamento para voltar a Portugal, antes pelo contrário”. Quem o afirma é Rafael Pereira, que sempre considerou a hipótese de trabalhar no estrangeiro e que, atualmente, é comissário de bordo no Dubai.

O contexto económico português tem sido desfavorável à procura de trabalho, como indica a taxa de desemprego do país, fixada em 12,6 por cento, segundo dados de abril passado. O aumento desta taxa, bem como a progressiva precarização das condições de trabalho, são as razões indicadas pelos emigrantes entrevistados pel’ A Cabra para terem procurado emprego noutros países.

“As estatísticas mostram que, de facto, o número de portugueses a saírem para trabalhar no estrangeiro tem vindo a aumentar nos últimos anos. É uma realidade que vai aumentado à medida que a crise se agudiza”, afirma o sociólogo José Carlos Marques, investigador do Observatório de Emigração do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. Esta tendência é confirmada por um estudo de mercados internacionais feito pela empresa GfK e divulgado no final de maio. A investigação revelou que cerca de 27 por cento dos trabalhadores nacionais considera a hipótese de emigrar em busca de um emprego com melhores condições. Esta percentagem cresce para os 40 por cento quando referente aos jovens com idades compreendidas entre os 18 e os 30 anos.

Patrícia Santos, enfermeira em Inglaterra, aponta a situação económica desfavorável que se vive em Portugal como uma das principais razões para a sua escolha. “Quando terminei o curso, a situação de emprego em Portugal estava tão precária que eu via os meus colegas a trabalhar a recibos verdes ou em voluntariado a ganhar 150 euros ao fim de um mês, e fiquei um bocado revoltada”, afirma.


Dois perfis de emigrantes
José Carlos Marques indica a existência de dois tipos de emigrantes. “Um, de pessoas que acabam os seus cursos de ensino superior, a sua formação profissional, e, depois, ou não encontram emprego em Portugal, ou aquilo que encontram não é suficientemente satisfatório. O segundo grupo é de pessoas que se encontravam a trabalhar e que por alguma razão ficaram desempregadas e, face às poucas perspetivas de emprego, decidem também emigrar”, explica.

De facto, o estudo apresentado pela GfK mostra que o primeiro grupo tem vindo a crescer. Os dados indicam que 32 por cento dos jovens recém-formados estão dispostos a emigrar, e quase um quarto destes possui um doutoramento. São, então, segundo o estudo, os trabalhadores entre os 18 e os 29 anos, com qualificações ao nível do ensino superior, que se mostram com mais vontade de procurar emprego no estrangeiro.

Esta propensão para procurar um emprego fora do país de origem encontra em Portugal números similares aos de outros países que participaram no estudo, entre os quais França, Turquia, Canadá, Filipinas e Brasil.

Porém, Sérgio Pinto, coordenador geral do Gabinete de Saídas Profissionais da Associação Académica de Coimbra (AAC), que trabalha diariamente com recém-licenciados em busca de emprego ou de estágios, comenta que a maioria das pessoas procura ficar na zona de residência, e só depois de esgotadas todas as opções é que ponderam aceitar propostas de emprego fora do país. “É uma opção que acaba por assustar quem acaba o curso, acaba por ser uma mudança demasiado drástica para quem não está habituado”.


Novos destinos

Para além de Rafael Pereira no Dubai e Patrícia Santos em Inglaterra, também Hugo Confraria optou por emigrar para Espanha assim que terminou a licenciatura. Outros são ainda os destinos que aliciam os portugueses na hora de tomar uma decisão.

José Carlos Marques salienta que “os países tradicionais da emigração portuguesa [França, Suíça, entre outros] voltam a ressurgir, uma vez que muitos portugueses têm familiares ou conhecidos nesses países, que podem por isso mobilizar essas redes sociais para encontrar um emprego ou para os sustentar durante uma fase inicial da sua estadia no exterior”. O sociólogo adianta ainda que “surgem novos países como Angola, o caso mais conhecido, mas também outros países de língua oficial portuguesa como o Brasil, Moçambique”.

Angola é, inclusivamente, um dos países no leque de ofertas do Gabinete de Saídas Profissionais da AAC. Sérgio Pinto refere que, a nível internacional, trabalham essencialmente com projetos europeus, mas neste momento Angola “está a desenvolver-se bastante e tem bastantes postos de emprego”. Tal como comenta José Carlos Marques, estes novos países “podem não ser tão desenvolvidos a partir do paradigma português, mas estão a conhecer novas taxas de desenvolvimento e têm falta de recursos humanos em áreas específicas”.
 


Outras experiências culturais
O interesse em conhecer novas culturas e ter experiências diferentes é outro motivo que pesa na escolha de um percurso profissional no estrangeiro. Hugo Confraria afirma mesmo que, “se pudesse escolher, tendo as mesmas condições nos dois sítios, ponderaria, mas em princípio iria também para fora por ser importante ter uma experiência profissional no exterior”.

Hugo acredita, inclusive, que a sua experiência em Espanha poderá abrir portas para “uma posição de mais influência a nível laboral em Portugal”. Opinião oposta é a de Patrícia Santos, que refere casos de colegas “que tendo a experiência no estrangeiro chegam a Portugal e têm dificuldade em arranjar emprego”.

Como aspeto mais negativo, os três emigrantes apontam apenas a distância da família e amigos. Rafael Pereira chega a afirmar que se tivesse que escolher a sua maior dificuldade “escolheria a ausência de um suporte afetivo”. “É claro que se criam laços novos mas nem sempre é fácil encontrar pessoas que nos compreendem tão bem como aquelas com as quais crescemos”, salienta.


Entre ficar e voltar
Ao contrário de Hugo Confraria, que pondera voltar para Portugal, Patrícia Santos considera que a falta de oportunidades no país de origem é um impedimento e, além disso, o vencimento que recebe atualmente é “aliciante”. “É um ordenado que se adequa mais ao estilo de vida de uma pessoa de 20 anos que ainda quer sair, viajar, conhecer e mudar”, confessa.

Também Rafael Pereira pretende continuar no estrangeiro. “Nesta fase da minha vida tenho mais a ganhar em estar a viver fora de Portugal: não me refiro tanto a uma melhor qualidade de vida e de emprego mas sim às experiências e aprendizagem”. O único receio de Rafael é que, com o agravar da crise económica, que fomenta mais a emigração e inibe quem quer regressar, o país se ressinta com a falta de jovens qualificados.

Nesse sentido, José Carlos Marques vê a emigração de mão de obra qualificada por duas perspetivas diferentes. Por um lado, “se ela não tiver condições para trabalhar em Portugal, o facto de ela ir para o estrangeiro nem é prejudicial para o país”. Todavia, acrescenta que “se houver empregos disponíveis e essa mão de obra qualificada, mesmo assim, emigrar, é evidente que isso se tornará prejudicial”.