Um governo que não quer saber

Quinta, 01 de Julho de 2010

por Acabra .Net

"A atribuição de bolsas, essa, anda pelas ruas da amargura". Por Heloísa Apolónia, deputada à Assembleia da República pelo Partido Ecologista Os Verdes (PEV), efectiva na Comissão de Educação e Ciência

Heloisa
"Para Sócrates não há estudantes a desistir do Ensino Superior por falta de meios económicos. As associações académicas garantem que sim, as universidades confirmam publicamente, mas Sócrates diz que não!" Foto por D.R.

Um sistema de ensino superior em que existem estudantes que desistem da sua frequência porque não têm meios económicos para prosseguir os estudos é um sistema falhado, que não dá respostas ao problema das desigualdades de oportunidade. É tudo aquilo que a Constituição da República Portuguesa não quer, mas para o que, infelizmente, os sucessivos Governos têm contribuído.

Foram já diversas as vezes em que o Partido Ecologista Os Verdes (PEV) questionou o Governo, e o Primeiro-Ministro em concreto, sobre esta realidade. Mas a resposta do Governo, neste como em tantos outros sectores, é sustentada num país virtual e não no país real que temos. Para Sócrates não há estudantes a desistir do Ensino Superior por falta de meios económicos. As associações académicas garantem que sim, as universidades confirmam publicamente, mas Sócrates diz que não!

Ora, o facto de o Governo não querer encarar a verdadeira realidade do país, leva a que não tome as medidas necessárias e eficazes para fazer face aos problemas existentes. Não quer assumir a responsabilidade política de não fazer, mas também não quer fazer… como solucionar então este dilema? Resposta: criando uma realidade virtual!

As universidades estranguladas financeiramente pelos sucessivos Orçamentos de Estado aumentam substancialmente as propinas, mas a única resposta que o poder central dá é a afirmação peremptória de que as propinas não foram sujeitas a um aumento, mas a uma mera actualização. Chamem-lhe o que quiserem, o certo é que as transferências orçamentais para as universidades, por parte do Governo, são muito insuficientes e o mais que certo é que os estudantes pagam muitíssimo mais de propinas. As propinas servem para fazer triagem social à frequência do Ensino Superior! Mas o Governo quer lá saber...

Pois claro que não quer saber, aliás criou o sistema mais aberrante de “Acção Social Escolar”: os empréstimos bancários. Quem não consegue pagar um curso do ensino superior, mas quer o que não pode, vai ao banco e endivida-se. Nada mais simples e barato para o Estado! E nada mais lucrativo para o sistema financeiro, que, em bom rigor, é sempre para quem o Governo encontra as melhores soluções!

A atribuição de bolsas neste país, essa, anda pelas ruas da amargura. Em ano de eleições anunciam-se aumentos, que não chegam, nem de perto nem de longe, ao brutal decréscimo a que assistiram no decurso de toda a legislatura. Passadas as eleições é tempo de voltar aos cortes.

A fórmula de atribuição de bolsas deixa de fora inúmeros estudantes carenciados. Mas o Governo quer lá saber disso e quer lá saber que Portugal seja dos países da União Europeia onde as famílias mais pagam pelo ensino, e quer lá saber que em cada ano lectivo que passa o atraso na atribuição e pagamento de bolsas seja uma constante! Nada disto preocupa… a solução é sempre a mesma: negar a realidade.

Quando questionámos o Governo sobre o atraso nos processos de atribuição de bolsas do ensino superior, e citámos casos e universidades concretas, a resposta veio directa e peremptória: isso não era verdade! E se denunciamos a falta de recursos humanos nos serviços de acção social, logo o Governo se apronta a dizer que há funcionários públicos a mais. Pois, nota-se!

O PEV quer contribuir para continuar a denunciar estas políticas hediondas que transportam e geram desigualdades. O PEV quer contribuir para um Ensino Superior que seja uma oportunidade para todos. O PEV quer um Estado responsável pela formação e pela qualificação dos quadros profissionais futuros do nosso país. Chega de andarmos a governar para criar lindos números, mas falsos, para Bruxelas. É tempo de governar para gerar mais oportunidades, mais igualdade e mais qualidade de vida para os portugueses. E, que não haja dúvidas: o ensino, seja ele de que grau for, é a chave para o sucesso de um país.

Artigo publicado na edição nº 211 de 23 de Março de 2010