Um casamento entre duas realidades distintas

Domingo, 27 de Junho de 2010

por MariaEduarda Eloy

A comédia "George Dandin", baseada no original de Molière, foi levada à cena pela ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve, no penúltimo dia do IV Festival das Companhias

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Mário Spencer é George Dandin na peça da ACTA Foto por D.R.

"George Dandin" é uma comédia que, baseada na obra homónima de Molière, consegue encontrar expressão na actualidade. A roupa e os cenários contemporâneos podem parecer estranhos a um texto caracterizado pela linguagem aristocrática do século XVII, no entanto, o cruzamento resulta e contribui para que se compreenda que estamos a falar de uma realidade que se poderia encontrar em qualquer lugar. A traição, o conflito entre classes sociais e uma certa guerra dos sexos são temas abordados através das artimanhas de cada um dos personagens que, com objectivos diferentes, tentam que a sua vontade prevaleça sobre as restantes.

O personagem que dá nome à peça, George Dandin, é um novo-rico a quem o casamento não sorriu. A esposa Angélique, presa a uma união com a qual não concordou, faz de tudo para enganar o marido, sem que os pais descubram. O vizinho é o amante ideal e recruta a colaboração da criada da casa Dandinière e Lubin, o pretendente dela, para o ajudarem a atrair a atenção da dona da casa. Infelizmente para o fidalgo Clitandre, o aspirante a marido da criada Claudine confessa acidentalmente toda a trama a George Dandin.

A confirmação de um possível amante de Angélique, motiva George a provar a infidelidade da esposa aos sogros. Apesar do preconceito que os nobres pais de Angélique nutrem pelo burguês Dandin, querem que o casamento se mantenha para assegurar o conforto económico da família. Assim se traçam as premissas da história que conta ainda com um certo alter ego de George Dandin materializado no criado Colin. Uma figura ambígua que, apesar de pertencer ao estrato social mais baixo, concentra mais poder em palco e mobiliza os outros personagens.

O final agridoce acaba por ser uma conclusão esperada da peça, mas torce-se até ao fim por uma justiça que não chega a concretizar-se. A redenção surgiu na despedida do elenco, que de maneira original, voltou a arrancar risos ao público.