Transversal à economia, a Coimbra e às pessoas
Terça, 14 de Fevereiro de 2012
por Acabra .Net
Indústria, comércio, serviços – a crise é transversal a todos os setores económicos. De jovens qualificados a desempregados já à espera da reforma, a cidade torna-se o reflexo da realidade nacional e complexa do desemprego. É pelos seus números que, em 2011, Coimbra se destaca. Por Ana Morais e Inês Amado da Silva
Em junho de 2010, a Poceram, fábrica de produtos cerâmicos, enfrentava a liquidação. Em 2006, a Ceres, empresa da mesma área, fechava. Em outubro de 2001, marcava-se a falência de uma das últimas grandes indústrias de Coimbra, a Cerâmicas Estaco. Durante décadas, a cidade albergou várias empresas da área e, de há 20 anos para cá que Coimbra vê perder grande parte da sua indústria. Falências que, entre outros vetores, vêm contribuindo para os números do desemprego, que assolam o distrito progressivamente. Segundo dados do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), Coimbra foi, entre agosto e dezembro de 2011, o segundo distrito do país que mais viu crescer a sua taxa de desemprego em relação ao mesmo período do ano anterior. Números que escondem uma realidade qualitativa ainda mais dramática e que espelham a escalada descendente da economia.
Pedro Araújo, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, fez do encerramento da Estaco um estudo de caso. “Os 45 anos são um ponto de viragem para o recrutamento no trabalho”, assegura. O investigador fala, assim, de uma “resignação recíproca” no que toca à reabsorção dos trabalhadores com quem contactou pelo mercado de trabalho - quer por parte dos serviços do Estado, quer dos trabalhadores.
A mesma realidade repete-se agora: dos cerca de 7000 desempregados só no concelho, 3137 têm entre os 35 e 54 anos. O representante da União dos Sindicatos de Coimbra, António Moreira, compõe este cenário: “nos últimos 15 a 20 anos, a cidade perdeu 150 empresas de referência, que atiraram para o desemprego mais de 6000 trabalhadores”. E “por causa da crise económica”, lamenta Pedro Araújo, “os primeiros a sofrer são sempre os trabalhadores mais velhos”.
Situação transversal na economia
“Desde cabeleireiras e contabilistas a pequenas oficinas automóveis: todos estão a atravessar uma grave crise, porque estão muito associados ao nível de consumo das famílias”, enumera Paulo Mendes. Assim, o presidente da Associação Comercial e Industrial de Coimbra não se inibe de apontar o comércio e os serviços como áreas que mais vão atirando trabalhadores para o desemprego. António Moreira expande a análise ao distrito e não esquece que “o encerramento dos estaleiros [navais da Figueira da Foz] foi determinante”. Outra parcela significativa destes números é preenchida por docentes que não conseguiram colocação e que no último ano fizeram, segundo Moreira, “disparar” a estatística.
1500 de Coimbra em Lisboa
Na manifestação nacional do passado dia 11, no Terreiro do Paço, em Lisboa, a representação de Coimbra fez-se sentir, rondando os 1500 participantes. A presença fez-se em maioria por faixas etárias afastadas entre si, das quais emergem diferentes perfis do desempregado. O perfil mais recente desenvolve-se entre os jovens, como lamenta António Moreira: “têm qualificações altíssimas, a atividade que desenvolvem não é compatível com o seu grau de formação e são-lhes oferecidos salários muito baixos”. Pedro Araújo resume: o desemprego “é uma realidade muito complexa. Quando se criam medidas destinadas a um determinado perfil de desempregado, quem é que se está a deixar de fora, quem é que se está a incluir?”.
Desempregados na primeira pessoa
Mário Vilas, 46 anos
“Estou sem emprego há um ano e meio. Antes de estar nesta situação trabalhava na Marcopolo, uma fábrica de carroçarias. A empresa era em Eiras, mas fechou em agosto de 2009 e, ao que parece, mudaram a fábrica de sítio. Apesar disso, pagaram-me tudo, não me ficaram a dever nada. Desde aí já tenho procurado emprego, um pouco por todo o lado, durante este ano e meio. Procuro sobretudo na área da soldadura, que era onde trabalhava. Estou no fundo de desemprego, recebo o ordenado e até já fiz um curso. No entanto, continuo à espera, tenho tentado todos os dias. Eu em casa não faço nada”.
Catarina Albuquerque, 18 anos
“Estou à procura do meu primeiro emprego, para que possa pagar as propinas no próximo ano letivo, o que até agora ainda não consegui. É me impossível pagar as propinas de outra forma, mas temo que se não é possível agora, para o ano seja mais complicado. Procuro em todas as áreas, tenho enviado currículos para todo o lado, desde ‘call centers’ a centros comerciais, tudo o que der. Tenho procurado só na cidade, porque como não tenho automóvel não me consigo deslocar para a periferia. Estamos todos a sentir um grande aperto. Apelo aos nossos governantes que reparem que nós não somos números, somos pessoas com direitos”.
Aldina Silva, 41 anos
Estou desempregada há seis anos, desde que fui dispensada do Hotel das Termas da Curia, depois de estar de licença de maternidade da minha filha mais nova. Quando regressei, já não me quiseram no meu posto de trabalho. Trabalhei lá 17 anos, não tinha folgas e feriados e depois de ter a minha filha, fui sacudida. Já procurei mais empregos mas não tenho conseguido, porque tenho filhos pequenos e os patrões querem que esteja sempre disponível para entrar a qualquer hora. Já não recebo o subsídio do fundo de desemprego, o meu marido não recebe desde novembro e tenho que manter três filhos. É muito difícil, o governo devia olhar mais às dificuldades das famílias.






