Torrentes de jazz no Festival das Artes

Sábado, 31 de Julho de 2010

por João Gaspar

Com a casa meio cheia e uma noite de Verão convidativa a fugir de casa, o grupo sueco Angles fez um concerto cheio de irreverência jazzística

Img_9901_c
Angles vão editar o próximo registo discográfico pela portuguesa Clean Feed Foto por Vasco Batista

Na noite de sexta-feira, dia 30, o jazz do sexteto sueco Angles subiu ao anfiteatro Colina de Camões, na Quinta das Lágrimas. No concerto integrado no Festival das Artes, o conjunto liderado pelo saxofonista alto Martin Küchen elaborou uma performance à imagem de Angles. Um início estridente e à beira do caos que vai descendo para um registo mais calmo.


“Do rio que tudo arrasta se/diz que é violento/Mas ninguém diz violentas as/margens que o comprimem” dizia Brecht. O músico sueco Martin Küchen recorreu ao dramaturgo alemão para conduzir as peças de jazz “Water Lines”, que abraçaram os momentos díspares do rio e da água. 


E foi no revolver das correntes que o concerto começou. O início caótico deixou-se levar pelo hardbop, onde a azáfama do free jazz foi claramente imposta. Contudo, no meio do caos, houve tempo para reparar em Martin Küchen a brincar com uma vuvuzela, largando o seu saxofone por momentos.


Entre a violência jazzística imposta por solos e caminhos que cada um dos seis suecos impôs, surgiram também momentos de grupo memoráveis, com um ritmo quente e harmonioso. Nenhum instrumento orientou, a voz foi dada a todos, sendo que os crescendos ganharam vida de forma natural, com o contrabaixo de Johan Berthling a dar um sabor simpático ao free jazz de Angles.       


Os Angles, que irão editar o seu próximo registo discográfico pela portuguesa Clean Feed, não desapontaram e deram um concerto assombroso, onde as correntes de um rio tenebroso em tempos de cheias se uniram à calmaria de uma pequena ribeira.