"Temos uma resposta a dar, que é na rua"
Quinta, 26 de Novembro de 2009
por Acabra .Net
A estudante de Física de 23 anos exige a redução imediata das propinas. Sílvia Franklim, natural do Cadaval, assume a importância das Assembleias Magnas. Por Diana Craveiro e Filipa Magalhães
Quais são as razões da tua candidatura à Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC)?
A lista é constituída por um grupo que tem desenvolvido uma série de actividades. A maior parte das pessoas que integram a lista são da Frente de Acção Estudantil (FAE), por isso têm trabalhado durante o ano. Não foi um evento ocasional, tem a ver com uma construção que tem vindo a ser feita ao longo do tempo.
Não achas qeu o facto de a maior parte dos estudantes ser da FAE pode fazer com que quem não concorda com o movimento não vote em vocês?
Creio que sim. Obviamente que quem faz militância na FAE está automaticamente conotado com a FAE. Isso tem uma vertente positiva, para quem reconhece o trabalho da FAE, mas tem outra vertente que é quem não concorda connosco. Mas mesmo assim o nosso programa sofreu alterações por isso somos mais abrangentes.
A tua candidatura tem apoio partidário?
Não. A nossa lista tem pessoas de todos os quadrantes políticos.
Quais são as linhas gerais do vosso programa eleitoral?
Temos quatro eixos principais. Um deles prende-se com a AAC, com a dinâmica interna da casa. Depois o eixo da pedagogia, acção social e política educativa.
Há algum que tenha prioridade?
Achamos que a acção social e a política educativa são os que precisam mais de resposta.
E quanto à AAC o que acham que está mal?
As secções e os organismos autónomos não têm o apoio que seria de esperar da DG/AAC. Tem-se vindo a observar um agudizar da situação de afastamento dos estudantes. Uma das nossas preocupações é também o bar nos jardins, que veio perturbar o normal funcionamento do edifício.
Têm alguma medida concreta quanto ao bar?
Criar um conjunto de regras para o funcionamento do bar de forma a dar prioridade ao funcionamento das secções. Entendemos que um bar numa associação de estudantes deve ser explorado por estudantes e, se der lucro, deve dar à associação, não a uma entidade privada. Medidas concretas são a publicação imediata dos termos de contratualização da concessão dos bares e a não renovação da concessão do bar, para que o bar seja gerido por estudantes.
Já tentaste aceder aos contratos?
Já.
Conseguiste?
Não, porque as coisas são sempre muito dúbias. Em termos legais, ainda ninguém sabe muito bem como é que o bar funciona, se tem licença ou não.
O que achas que a tua DG/AAC pode trazer de novo?
Achamos que a Assembleia Magna (AM) é extremamente importante porque é o órgão mais democrático da academia onde qualquer estudante tem o direito a falar e a participar. As AM não têm servido para esse fim, por isso propomos que sejam mais frequentes e mais bem divulgadas. Queremos tornar os internúcleos mais frequentes e promover reuniões gerais de alunos e ter um movimento estudantil mais forte para que nos ouçam.
E na questão da acção social?
A pressão a ser feita é ao nível do governo. Mas achamos que a DG/AAC deve intervir nos processos de atribuição de bolsas, para que sejam mais rápidos. Queremos também promover, junto das residências, a existência de condições para receber os estudantes.
Falaste da pressão sobre os governantes, darias ênfase à via dialogante ou à luta de rua?
Primeiro dizemos aos governantes o que queremos. E o ministro vai fazer o que faz sempre, que é prometer que faz alguma coisa. É importante garantir que, se as reivindicações não forem ouvidas, temos uma resposta a dar, que é na rua.
Achas que esse dialogo não foi encetado pela ultima DG/AAC?
Acho que é sucessivamente encetado pelas várias direcções-gerais. Estamos em diálogo há quatro anos. Só deixámos de estar em diálogo quando nos manifestámos em Lisboa, na semana passada. Tem havido uma tentativa de diálogo mas tem sido infrutífera. Está na altura de mostrarmos que não queremos só dialogar e temos que nos agregar a outras académicas e fazer pressão.
Achas que o desinteresse dos estudantes pode existir por uma fraca representação dos dirigentes?
Sim, sem dúvida. Tivemos dirigentes que sucessivamente foram dando tiros no pé porque foram mobilizando mal os estudantes para acções simbólicas que não se concretizaram em respostas. Os nossos dirigentes dirigiram-nos mal.
Como se ultrapassa o afastamento dos estudantes das secções? Por vezes fala-se também de secções adormecidas...
Sim, claro. Também acho que há secções adormecidas. A dinâmica não é igual em todas, mas a verdade é que a DG/AAC tem a responsabilidade de as revitalizar e promover. Tem que se criar condições logísticas e até morais.
E como se poderia fazer a aproximação?
Creio que não há melhor forma que as Assembleias Magnas (AM). Imaginem uma magna que, em vez dos habituais 200 estudantes, tem mil estudantes de todas as faculdades. Cada um com uma reivindicação diferente. Isso inibe a DG/AAC de usar a magna como plataforma de difusão da sua propaganda. Ali far-se-ia discussão política.
A lista defende a redução das propinas. Como esperam consegui-la?
Essa é uma reivindicação que devemos levar como bandeira. As propinas são altíssimas.
E que tipo de redução defendem?
Uma redução drástica para metade ou dois terços, mas com vista a um ensino tendencialmente gratuito. O ensino sendo um direito não se paga. A palavra de ordem a puxar agora, também para termos mais estudantes connosco, é a imediata redução da propina.
Mas não a sua inexistência?
Esse é o objectivo a longo prazo. Defendemos ensino gratuito, mas puxar essa palavra de ordem agora ainda não é consensual.
Se o Mariano Gago descer dois terços das propinas, depois de passarmos a ter essa redução pedimos o ensino gratuito. Achas que isso é plausível de acontecer?
A questão é que a nossa reivindicação não pode ser levada só a uma redução da propina. A nossa reivindicação é a imediata redução da propina com vista a um ensino tendencialmente gratuito, portanto o ministro nunca poderia dizer que o enganámos. Mas defendemos um ensino gratuito, este é um processo inicial.
Em relação à Queima das Fitas (QF), pensas que devia ser uma organização independente da AAC?
Não. Acho até que há coisas na QF que já estão demasiado fora do controle da AAC. A QF e a Latada são festas académicas, por isso devem ser de responsabilidade da AAC.
Achas que o Regime Jurídico das Instituições do Ensino Superior (RJIES) deveria ter sido mais contestado, na altura da sua instituição?
Claro. Tanto o RJIES como o Processo de Bolonha. Antes de serem implementados, já se antevia que as consequências seriam muito nefastas. Nessa altura houve tentativas de chamar uma mobilização forte para impedir que RJIES se instalasse. Não foi forte o suficiente.
E quanto ao processo de Bolonha, já que ele fez dez anos, quais são as tuas considerações?
Sabemos que Bolonha foi implementado sem haver estruturas, mesmo logísticas, que a pudessem receber. Para além disso os segundos ciclos foram encarados como uma formação quase para título. A partir do momento em que deixa de haver capacidade de se estruturar correctamente um curso superior ou um mestrado, perdemos muito a nossa qualidade de ensino.
Os Estatutos da AAC vão agora ser alterados, qual é a tua preocupação e da tua lista?
Em primeiro lugar fiquei preocupada na Assembleia Magna de revisão dos estatutos por saber que esse processo anda empatado hà muito tempo; por saber que as eleições não são divulgadas e que a constituição de listas para a revisão dos estatutos é uma coisa que ninguém sabe como vai acontecer, os estudantes não sabem que podem participar. Mas fiquei contente por saber que desta vez as eleições vão ser feitas à semelhança das da DG/AAC. As urnas vão estar espalhadas pelas faculdades, o que é uma forma de trazer as pessoas para essa discussão e espero que a comissão que for eleita faça um bom trabalho e que salvaguarde os nossos direitos enquanto estudantes. Espero que consiga manter nos estatutos os critérios de igualdade e de fraternidade pelos quais se pauta esta academia.
Quanto à questão das prescrições? Consideras ser uma batalha perdida?
Não, acho que não. Acho até que seria uma batalha ganha mas a reivindicação não foi a mais correcta. Se houver uma mobilização forte, se as reivindicações forem muito concretas e se a pressão for muito bem exercida, creio que temos todas as possibilidades de rebater este processo.
Que perspectivas tens para o futuro, tendo em conta que o ministro do ensino superior é o mesmo, bem como o secretário de estado?
Acho que isso depende muito do nosso papel. Porque ministros e primeiros-ministros que fizeram mal ao ensino foram praticamente todos, e, se houve algumas vitórias conseguidas no movimento do ensino superior, foi à custa da nossa mobilização. E se houve derrotas, nos últimos quatros anos, com ataques brutais personificados em Bolonha, no RJIES, no regime de prescrições e nos cortes da acção social, esses ataques são fruto da nossa falta de mobilização e da nossa apatia. Isto está essencialmente nas nossas mãos e nas mãos dos nossos dirigentes. Em primeiro lugar temos que criar um movimento forte e consciencializado e depois conduzir esse movimento, não fazer com que ele se perca outra vez, através de acções simbólicas que não se repercutem em nada.
Achas que o próximo ano vai ser decisivo?
Espero que seja desta. Tendo em conta que há uma reivindicação concreta para a discussão do próximo orçamento de estado, que é já agora em Dezembro e Janeiro, creio que daqui possa surgir alguma coisa. Mas isto tem que ser uma acção concertada com todas as associações académicas do nosso país, porque as dificuldades que encontramos aqui são iguais em todas as instituições de ensino superior.
Como é que vês a imagem da AAC?
Os estudantes estão um pouco desacreditados e isso também é fruto das manifestações simbólicas. A AAC e os estudantes em geral, estão fragilizados, porque as últimas mobilizações que houve foram fracas, não se repercutiram em nada. A sociedade deixou de falar de nós. Mas continuo a achar que os estudantes são uma fatia reconhecida da nossa sociedade. A sociedade reconhece a importância da AAC, não só pelo seu passado, mas porque ainda hoje continua a ser reivindicativa, muito fraca no meu entender. Acho que não podemos ter a postura do “orgulhosamente sós”, vamos tentar chegar um acordo entre as outras universidades para que estejamos todos juntos.






