Sudão do Sul: o nascimento de um novo estado

Terça, 28 de Junho de 2011

por Acabra .Net

Depois da luta pela liberdade, um referendo permite finalmente ao Sudão do Sul consagrar-se estado independente. Por Maria Garrido

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A partir de 9 de julho é oficializado o estado do Sudão do Sul Foto por D.R.

  
Após ter sido assinado, em 2005, um tratado de paz entre o governo do Sudão e os rebeldes do sul, - tratado de Naivasha - eis que foi realizado o referendo previsto no dito tratado para decidir a independência do sul do Sudão. A luta pela liberdade, encabeçada pelo Exército Popular da Libertação do Sudão, vem, então, a consagrar-se num novo estado, depois de 98,81 por cento dos votos terem sido a favor da independência.    

“Esta independência sempre foi um resultado relativamente expectável”, atenta a investigadora do Núcleo de Estudantes para a Paz do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, Daniela Nascimento. A investigadora acredita que “dificilmente a população do Sul iria contra a independência”, considerando existir uma “ausência de políticas económicas e socais por parte do Governo de Cartum [capital do Sudão]”.    
Do ponto de vista da viabilidade do novo estado, Daniela Nascimento remete primeiramente para a questão da sustentabilidade económica, tendo esta região “grande parte dos recursos petrolíferos do Sudão”. Além da questão do poder económico, é referido também o problema das regiões fronteiriças e a consequente tensão sociopolítica. “Há uma disputa relativamente à fronteira e sobre quem é que a controla dentro dessas regiões”.     

O especialista em política internacional, José Goulão, que entende que a emancipação “pode ser encarada duma perspectiva positiva”, lembra ainda as diferenças étnicas, culturais e religiosas que têm vindo a ser um factor que promove o conflito. “Há uma questão que é preciso ter em conta: se será possível essa convivência de dois estados diferentes sem guerra, em relação à situação que existia anteriormente”, afirma.     
O apoio da comunidade internacional nesta solução é vista pela especialista em Mundo Árabe do Instituto de Estudos Estratégicos de Lisboa, Maria do Rosário Morais Vaz, como “necessária a favor da partição”. No entanto, não a considera como “solução universal” em qualquer caso de “desejo de autonomia dentro de um determinado Estado”. No entanto, no caso do Sudão, a especialista considera que “teria que ser absolutamente assim”.    

Se por um lado a especialista acaba de algum modo por creditar a intervenção da comunidade internacional, por outro, José Goulão, acredita que a mesma tem “neste momento de ser avaliada sob determinados pontos de vista”. Entre eles, “os que são do interesse das potências que a dirigem e que fazem aquilo a que se chama a vontade da comunidade internacional”. José Goulão lembra ainda uma “maior afinidade entre União Europeia e Estados Unidos da América com o Sudão do Sul”, pelo que questiona se é “propriamente uma boa intervenção do ponto de vista dos equilíbrios e dos balanços da justiça internacional”.    

Quanto ao futuro do país, Daniela Nascimento refere que os dados que possui “não permitem ter uma opinião muito animadora relativamente ao futuro”. “Os responsáveis pela liderança da rebelião e de, alguma maneira, do conflito na parte sul passaram muito rapidamente de rebeldes a actores políticos”. A investigadora do CES afirma ainda que “não há condições económicas e sociais garantidas para a população do sul”. 

Também José Goulão se mostra “bastante céptico” face a estas “alterações, independentemente de se reconhecerem os direitos e as legitimidades de povos que os reclamam”. Para o especialista, “o grande ponto de interrogação é se os povos que protestam vão tirar os proveitos e as vantagens e os direitos que lhes são devidos”. Por sua vez, Maria do Rosário Morais Vaz, acredita que, como estado independente, “o futuro do Sudão do Sul é muito mais esperançoso”.