Sousa Bastos: fim à vista?

Terça, 18 de Outubro de 2011

por Acabra .Net

Há mais de duas décadas que o Teatro Sousa Bastos se encontra em ruínas. Nem os movimentos de artistas, nem a vontade do proprietário de fazer obras se sobrepõem aos constantes atrasos dos projetos que dão entrada na CMC. Por Ana Morais e João Valadão. Fotografia por Ana Filipa Silva

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Cartazes de necrologia, mãos pintadas, gritos de revolta política, são o que resta do Sousa Bastos Foto por Ana Filipa Silva

Na Alta de Coimbra, entre um salão de cabeleireiro e uma república, resta apenas uma fachada daquele que em tempos foi um dos principais centros culturais da cidade. Cartazes de necrologia, mãos pintadas, gritos de revolta política, palavras soltas, lixo – são o que resta na parede do antigo Teatro Sousa Bastos. As portas cimentadas contrastam com as janelas abertas e sem vidros. Um plástico verde tenta esconder esta degradação. Ainda assim, deixa escapar vestígios do passar dos tempos, alguma vegetação.

Este abandono de mais de 20 anos explica-se com a não aprovação da Câmara Municipal de Coimbra (CMC) dos projetos que foram sendo propostos e acordados em conjunto com o atual proprietário, Joaquim Órfão, da empresa EICLIS. A questão da recuperação começou por se discutir com um primeiro parecer na Assembleia Municipal, em janeiro de 94. Por essa altura, a CMC terá licenciado o teatro a Mendes da Silva, promotor imobiliário. Tendo depois passado a propriedade de Joaquim Órfão. É com ele que, nos anos 2000, um primeiro projeto entra na CMC, aquando do mandato do socialista Manuel Machado.

O atual proprietário viu-se, no entanto, confrontado com alguns constrangimentos. Quando a área de intervenção é superior a 1500 metros quadrados e a área de implantação superior a 600, obriga-se a que haja cedências ao município. O espaço teria que ser partilhado entre o proprietário e a CMC.

"Quando comprei o espaço, era com o intuito de fazer obras de imediato, se não nunca teria comprado. Nunca teria investido um cêntimo.", garante Órfão. Mendes da Silva, já falecido, havia garantido que "um projeto seria aprovado", o que ainda não aconteceu - "desde a altura de compra que entraram projetos na CMC e que nunca foram aprovados". Já o responsável pelo Gabinete para o Centro Histórico da CMC, Sidónio Simões, assegura que houve "uma tentativa de expropriação do espaço e o privado veio não demonstrou interesse em ceder". Pelo contrário, o atual proprietário afirma que não houve tentativa alguma, garantindo que "se houve, nunca ninguém me disse nada".

Quanto ao projeto que está para ser avaliado na CMC desde o mandato de Carlos Encarnação, todos concordam que estará para breve a sua aprovação. O vereador responsável pela administração e gestão urbanística, Paulo Leitão, avança que esta é apenas a segunda versão do projeto, que contempla "quartos, salas e espaços polivalentes", para uso da CMC e a ser entregue a várias associações culturais locais. Já a parte que pertence ao proprietário será para apartamentos. Quanto a datas, ninguém avança prazos. Mas, o vereador assegura que o projeto será tratado "com a maior brevidade".

As tentativas de recuperar o espaço cultural

Inaugurado em 1862, ainda com o nome de Teatro de D. Luís, passou a designar-se de Sousa Bastos com a instauração da Primeira República. Depois do 25 de abril de 74, a programação do Teatro começou a adquirir um cariz mais alternativo - segundo a historiadora e autora do livro "Teatro Sousa Bastos: as primeiras décadas da história", Lígia Gambini, "até filmes pornográficos lá passavam". Também José Moio, habitante local, confirma e pensa que foi a índole da programação que levou ao fecho do espaço, na década de 90. Facto que não agradou aos jovens artistas de então. Repúblicos, estudantes e população local – juntos envolveram-se com o intuito de recuperar aquele espaço.

Um primeiro grupo denominado "SOS – Salvem o Sousa Bastos" funcionou entre 95 e 98, período em que foram apresentadas várias propostas às entidades responsáveis pela vida social e cultural da cidade, e que, segundo o arquiteto e elemento do movimento, Luís Sousa, "foram sucessivamente rejeitadas". Luís Sousa conta que o pretendido "não era uma obra de reposição" do antigo teatro, mas sim a criação de um centro social e performativo. Mas, "a solução foi completamente recusada pela CMC", lamenta. Com os infrutíferos protestos, o movimento "foi esmorecendo com o conjunto de negas, inclusive da Direção Regional de Cultura".

Ainda assim, em 2001, nasce outro movimento, "Sousa Bastos Vivo", que teve um papel interventivo nas eleições autárquicas daquele ano no sentido de pressionar os candidatos à resolução do problema. Contudo, a ideia de um novo teatro novamente se desvaneceu, aquando da realização de escavações arqueológicas no local, em 2005, devido à existência anterior da Igreja de São Cristóvão. Após sucessivos anúncios estéreis de recuperações, que passavam pela construção de apartamentos, o movimento acabou por nunca mais reunir. Luís Sousa confessa que "as pessoas vão sendo anestesiadas por contínuos avisos de coisas que acabam por não acontecer".

Soluções de quem por lá vive

"Há dois meses caiu uma parede de mármore, está muito perigoso", conta Ana Alves, da república PráKistão, vizinha do edifício. José Moio não se inibe de críticas e demonstra o desagrado que estas e outras situações de inércia lhe causam. "A CMC podia ter feito tudo. Há outros projetos na Alta que estão previstos e não vão acontecer. As obras são sempre embargadas", protesta.

No ano em que a Alta de Coimbra é candidata a património da UNESCO, muitos concordam que é o momento mais adequado para haver intervenções no local. Sidónio Simões garante que "a CMC tem feito um esforço enorme para reabilitar o edificado na Alta". Quanto à necessidade de um espaço cultural nesta zona da cidade, Lígia Gambini confessa que "a partir do momento em que não se respeita a memória cultural do teatro, construir residências ou meter lá uma loja… vai dar ao mesmo".

Com Paulo Sérgio Santos