Reportagem

Sentir o Mondego ao som do jazz

Terça, 20 de Julho de 2010

por Vasco Batista

O jazz acompanhou o Basófias, este domingo, 18, num percurso pelo Mondego. A iniciativa "Por Este Rio Acima" integrada no II Festival das Artes uniu a música à gastronomia. O Jazz Duo, composto pela voz de Beatriz Portugal e pela guitarra de Nuno Ferreira, assumiu o comando do barco numa grande cumplicidade musical

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Nuno Ferreira, na guitarra, acompanhou Beatriz Portugal, com uma musicalidade calorosa Foto por Vasco Batista

São quase seis da tarde e o calor não esmorece. Debaixo do toldo do Basófias já há quem aguarde o regresso do barco que todos os dias, ora sobe, ora desce, o Mondego. “Afinal vai partir só às seis e meia”, diz alguém do fundo das escadas que acedem ao patamar de embarque, no Parque da Cidade. As pessoas acomodam-se nessa zona. Esperam ansiosamente a entrada, ao mesmo tempo que gesticulam contra o ar cálido. Manuela Mendes, da organização do Festival das Artes, começa agora a chamar pelas pessoas. “Adélia Pedrosa, Gilberto Neves…” são alguns dos nomes da lista de mais de duas dúzias de pessoas que fizeram, de antemão, a reserva.

No interior, os passageiros procuram um lugar. Se for à janela, tanto melhor. As cadeiras, alinhadas em três filas, começam a pouco e pouco a se encher. Parece estar tudo a postos. Não sem antes se dar as boas-vindas. De novo, a voz de Manuela Mendes faz-se ouvir. É pedido aos presentes para que desfrutem. Do jazz, do Mondego, de Coimbra. De tudo quanto conseguirem. Pouco depois, Beatriz Portugal e Nuno Ferreira assumem o comando da embarcação. Ela a voz, ele o guitarrista. No seu conjunto, o duo de jazz que vai actuar pelo rio acima. Lá fora avistam-se alguns pescadores a tentar a sua sorte nas margens do rio. Logo de seguida a estação de Coimbra. “These are few of my favourite things”, ouve-se, sob uma forma criativa de musicalidade. As primeiras notas foram tocadas. O concerto está no início. Soa a música célebre do jazz de Richard Rodgers, que ficou ainda mais extravagente na década de 60, interpretada pelo saxofinista de Carolina do Norte, John Coltrane e mais tarde por Kenny Rodgers, já como música natalícia. Os empregados, de bandeja na mão, passam fila por fila a servir espumante. E depois chegam os aperitivos, cujo aspecto requintado parece denotar a presença um projecto gastronómico mais aguçado.

O barco começa agora a girar. Primeiro para contornar um obstáculo, depois para cumprir o seu trajecto habitual. Já está a descer de novo o rio. Mas agora junto à outra margem. A actividade do II Festival das Artes e que alia a Gastronomia à Música parece estar a cativar todos. “Para a semana já temos quase 80 marcações”, ouve-se outra das responsáveis dizer, numa conversa com uma das passageiras. O sorriso de Beatriz Portugal olha para Nuno Ferreira. Ele é agora o protagonista. A sua face transparece expressões destemidas, um pouco em consonância com a sonoridade que emana da guitarra.

À medida que o concerto prossegue, as pessoas brindam e começam a mostrar mais empatia entre si. Vão-se a pouco e pouco formando pequenos grupos de conversa. As crianças, algumas mais impertinentes, dançam impacientemente nos colos dos pais. O Basófias acabou de passar pela Ponte de Santa Clara. Os pés das pessoas também já dançam, agora que Beatriz interpreta uma canção brasileira. “Eu faço sempre amor até mais tarde e tenho muito sono de manhã”. Canta Chico Buarque. “É uma dedicatória a vocês”, diz, referindo-se a um casal brasileiro que ocupa a primeira fila. Maria Helena é uma das passageiras a bordo. “A viagem está a ser magnífica”, afirma a idosa, com um ar jovial. Tem participado em várias iniciativas do Festival das Artes. “A programação melhorou muito em relação ao ano passado” e o “melhor mesmo são os concertos de música clássica”. A consolidação do festival das artes, no segundo ano, é a prova, segundo Maria Helena, de que é errado se afirmar “que não se passa nada em Coimbra, do ponto de vista cultural”.

Enquanto “se escuta a correria da cidade”, a ponte Rainha Santa Isabel parece aproximar-se cada vez mais. Nas margens do rio ainda há quem vá a banhos. O corpo de Beatriz meneia-se impulsionado pelo movimento das suas ancas. Diz que lhe apetece tocar de costas para as pessoas. E voltada para o Mondego. “Já tocaste em algum sítio tão bonito?”, interroga a Nuno. O ambiente romântico parece acompanhar o reportório escolhido pelo duo.  À tangente do Basófias passam duas pequenas canoas. Cá dentro “each day is a valentine’s day”.

O empregado volta, noutra ronda de aperitivos. Mas agora traz espetadas de fruta. Algumas cadeiras estão vazias. As pessoas espalham-se pelo barco. Fotografam a paisagem. Depois de cantar em francês, Beatriz anuncia o início do fim da viagem. Mas antes ainda haverá tempo para um canção de Pinóquio. “When you wish upon a star”. A cidade esta á aproximar-se. A torre da universidade vê-se agora com maior nitidez. O fim da viagem está prestes a ser anunciado. É tempo de o Basófias se despedir do jazz. “Continuem a ser felizes”, diz o sorriso de Beatriz Portugal. Logo depois, entoam os aplausos.