Seabra Santos termina mandato à frente do CRUP

Terça, 09 de Fevereiro de 2010

por Vasco Batista

Seabra Santos abandona hoje, 9, a presidência do CRUP. O reitor da UC defende a reestruturação da oferta educativa no Ensino Superior, critica a falta de verbas para a Acção Social Escolar e diz que mandato não se resumiu à confrontação com Mariano Gago

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Seabra Santos iniciou funções no CRUP a 28 de Fevereiro de 2007 Foto por D.R.

Na recta final do mandato à frente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), o reitor da Universidade de Coimbra (UC), Seabra Santos, destacou a importância da reestruturação das formações de 1º ciclo que vai ser levada a cabo pela Agência Nacional de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES), de modo a restringir o “exageradíssimo número de cursos”, que actualmente ronda os cinco mil.

À Agência Lusa, Seabra Santos defendeu que essa racionalização da oferta educativa “não pode passar exclusivamente pela iniciativa das instituições”, e que deve seguir uma “política nacional”, que ainda não existe para o efeito.

O reordenamento da rede educativa deve prender-se também com as designações dos cursos, que, no entender do reitor da UC, devem ser reduzidas das actuais 900 para “pouco mais de uma centena”. O ainda presidente do CRUP dá o exemplo das licenciaturas na área da Gestão, em que “continua a haver 50 ou 60 cursos nas instituições portuguesas com 50 nomes diferentes”.

Seabra Santos relembra que já em 2005, o CRUP remetera o assunto ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), conduzido por Mariano Gago. No entanto, a reestruturação que, “só será possível com uma intervenção forte do Governo", "não foi tida em consideração”, alertou o reitor.

O reitor da UC referiu ainda que a criação excessiva dos cursos é “um mau princípio” e que a diversidade “não credibiliza o sistema”, argumentando que “a maior parte das designações são inventadas apenas para serem apelativas no plano comercial”.

Novos cursos de Medicina podem estar a desperdiçar recursos

Quanto aos novos cursos de Medicina nas universidades de Aveiro e do Algarve, que arrancam já em 2011 e que foram considerados como inovadores por Mariano Gago, Seabra Santos considera que “segundo o rácio, muito citado internacionalmente, de um curso de Medicina por dois milhões de habitantes, Portugal devia ter cinco e já vai, salvo erro, em nove, no dobro”.

O reitor da UC entende que se “estão a desperdiçar recursos”, mas que Mariano Gago “terá outras informações que estarão na base da decisão que tomou”.

Acção Social deveria ser “o grande desígnio nacional”

A Acção Social Escolar (ASE) que deve ser vista, segundo Seabra Santos, como “o grande desígnio nacional”, e que o reforço de 16 milhões anunciado este campo “não chega”. O reitor da UC lançou a crítica de que “é preciso olhar para [a ASE] como mais importante do que a compra de submarinos e fazer investimentos muito fortes nesta matéria”.

Seabra Santos avançou ainda que Mariano Gago “mostrou preocupação com os problemas da ASE e convidou os reitores para uma reunião”, que ainda não está agendada.

“O ensino superior está massificado, a elitização é uma palavra que hoje em Portugal não tem sentido”, disse Seabra Santos e que hoje se deve analisar “se estamos contentes com o nível actual ou se queremos continuar a massificar e generalizar”.

Mandato não se resume a dissidências com Mariano Gago

Em jeito de balanço ao mandato à frente do CRUP, Seabra Santos diz que não se salda “à confrontação com o ministro” do MCTES, nem que nunca houve para com Mariano Gago “um menor apreço, mas, com frequência, momentos de crítica em relação a posições, opiniões e decisões”.

Quanto ao facto de ser militante do Partido Comunista Português, Seabra Santos entende que tal nunca o prejudicou na relação com Mariano Gago e que se isso fosse um facto, “então teria de admitir que a nossa democracia não funciona”.

O sucessor de Seabra Santos vai ser escolhido hoje, 9, em Lisboa numa reunião ordinária do CRUP, entre os 16 reitores. Caso nenhum reúna maioria absoluta, realizar-se-á uma segunda volta. O novo presidente deverá tomar posse a 2 de Março.