SAAL, “uma utopia construída em parte”

Sexta, 27 de Abril de 2012

por Ana Morais

O Centro de Documentação 25 de Abril (CD25A) dá continuidade ao ciclo de debates “O Segundo Século Vinte”. Ontem, 26, no Teatro Académico de Gil Vicente o tema em discussão foi as “Casas p’ró povo”, com destaque para a discussão do SAAL com os arquitetos Alexandre Alves Costa e José António Bandeirinha

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A Aldeia da Meia Praia, “ali mesmo ao pé de Lagos”, é o exemplo mais conhecido do SAAL Foto por D.R.

“Quem aqui vier morar/ Não traga mesa nem cama/ Com sete palmos de terra / Se constrói uma cabana”, canta Zeca Afonsa em "Índios da Meia Praia". Talvez a Aldeia da Meia Praia, “ali mesmo ao pé de Lagos”, seja o exemplo mais conhecido do Serviço Ambulatório de Apoio Local (SAAL).

Foi logo em agosto de 1974, num país ainda em ressaca da revolução, que surgiu o SAAL por despacho do Ministro da Administração Interna e do então Secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, o arquiteto Nuno Portas. Este projeto surge como “um serviço descentralizado que, através do suporte projetual e técnico dado pelas brigadas que atuavam nos bairros degradados, foi construindo novas casas e novas infraestruturas” e que permitiu a melhoria de condições habitacionais para as populações mais desfavorecidas, explica o arquiteto José António Bandeirinha. O mesmo considera que a essência deste projeto deve continuar no futuro, deve ser um exemplo a ter em conta na construção social. Assim, apelida-o de “uma utopia construída em parte”. Alexandre Alves da Costa vai mais longe e considera que “o SAAL é um projeto irrepetível, mas do ponto de vista metodológico há muita coisa que se pode aproveitar no futuro”.

Alexandre Alves da Costa, que integrou a Comissão Coordenadora do SAAL/Norte, conta que o SAAL é “completamente diferente em todo o país”, visto que houve uma forte participação e envolvência das associações de moradores locais nas construções. As populações acostumadas aos bairros de lata sociais do fascismo queriam ter direito ao seu lugar, não queriam os típicos bairros camarários. Assim, as pessoas conseguiram manter-se no centro das cidades e não ser atirados para as periferias como acontecia antes do 25 de Abril.

“Eram mulheres e crianças cada um com o seu tijolo”

A autoconstrução sugerida por Nuno Portas não foi bem recebida pela população. Apesar de Zeca cantar “eram mulheres e crianças cada um com o seu tijolo”, as populações negaram a autoconstrução. No entanto, as pessoas participaram na escolha do local, no tipo de construção e até no arquiteto, o que leva Alves Costa a considerar que o SAAL contribuiu para a “democratização” do país. “Foi uma tentativa única de responder às aspirações populares. As aspirações do 25 de Abril estão aqui”, assevera o arquiteto.

Para José António Bandeirinha, o SAAL foi a primeira oportunidade que os arquitetos portugueses tiveram de “trabalhar com o povo”, aspiração que já tinham desde o século XX e que surgiu na América Latina, com uma grande vontade que estes tinha de “estabelecer uma ligação direta às pessoas”, para contrariar a arquitetura até então praticada.

Num discurso crítico, Alves Costa não se inibiu de atentar em casos atuais para refletir a importância que este serviço pode ter hoje. Para o arquiteto “se quisermos construir o futuro com a participação das pessoas”, o SAAL é um bom modelo. Atentando no recente caso de despejo da Es.Col.A da Fontinha como exemplo reprimido, Alves da Costa mostra a urgência em a sociedade “continuar a lutar, para sermos atores de mudança”.

Com moderação da historiadora Natércia Coimbra, o debate mostrou-se fluido e com participação da plateia. Para além da discussão entre os oradores, esta sessão foi acompanhada com uma exposição documental do tema em questão. Segundo Natércia Coimbra, “o projeto SAAL foi tão marcante que o material produzido foi enorme”. Já no próximo mês de julho, no dia 28, o CD25A continua o ciclo de debates “O Segundo Século Vinte”, com a sessão “Ir à Guerra. Memória e pós-memória da Guerra Colonial”. Nesse sentido, Bandeirinha ressalva a importância do CD25A ao considerá-lo como “guardião da memória do 25 de Abril”.