Risco de falência (remixed)
Quarta, 23 de Novembro de 2011
por Acabra .Net
Microconto por Paulo Kellerman
I
Já tinham terminado a refeição há algum tempo mas mantinham-se sentados à mesa, olhando para a televisão em silêncio. O noticiário abrira com pormenores sobre um novo caso de corrupção envolvendo políticos e, logo de seguida, passara a antecipar e detalhar a forte possibilidade de duas ou três agências de rating descerem a notação de alguns bancos; eles ouviam, indiferentes e apáticos, como se o que escutavam não tivesse nada a ver com as suas vidas (na verdade, não tinha) e apenas se mantivessem aparentemente atentos porque não havia nenhuma alternativa melhor.
Então, por fim, ela levantou-se da mesa e levou os pratos cobertos de restos de salmão para a cozinha, cambaleando ligeiramente; ele deixou-se estar sentado durante uns segundos mas, de repente, acabou por se decidir a ir à casa de banho, onde lavou as mãos cuidadosamente, até sentir que extinguira o odor a casca de laranja. Quando ambos regressaram à sala (quase em simultâneo, o que não deixou de ser peculiar: se a companhia do outro não era desejada, porque não aproveitaram a oportunidade para se refugiarem num qualquer recanto seguro da casa?), ainda falavam de agências de rating e aumentos de juros e possibilidades de falências na televisão. Ele deslizou para o sofá e deixou-se estar, imóvel e inerte, como se se preparasse para se desligar do mundo (ou talvez apenas da sua vida familiar), entrando numa espécie de hibernação protectora; ela, por seu lado, recolhia algumas migalhas acumuladas na mesa (migalhas dele, ela nunca tocava em pão), uma a uma, com excessiva e desnecessária concentração; e apanhava uma microscópica fibra de casca de laranja (dele), que caíra ao chão e fora inadvertidamente esmagada.
Quando ia a passar junto da televisão (migalhas e casca de laranja bem presas na mão), ela parou e disse (sem o olhar):
– Espanta-me que nunca ninguém se tenha lembrado de criar uma agência de rating que se dedique a prever os riscos de falência dos casamentos. Que analise uma relação e diga: prevejo consideráveis riscos de incumprimento a curto prazo. Ou: na actual conjuntura, é altamente previsível que as expectativas se deteriorem.
Ele continuou prostrado no sofá, estático e silencioso, respirando devagarinho, com os olhos quase fechados; mas, ao ouvi-la, sorriu timidamente, quase com gosto. E respondeu:
– Uma escala que medisse o risco de falência dos casamentos, antes das pessoas se casarem? Tinha-nos dado muito jeito, não achas?
Ela, então, aproximou-se dele e estendeu a mão na direcção do seu rosto, como se o fosse acariciar; mas não lhe tocou: limitou-se a abrir a mão e deixar cair sobre o seu cabelo desgrenhado as migalhas (e a casquinha de laranja) que tinha recolhido na mesa. Ele abriu os olhos mas não se mexeu, olhando-a com alguma curiosidade, com alguma surpresa, com (alguma?) vontade de se indignar; e ela, quando percebeu que ele nem se iria dar ao trabalho de sacudir as migalhas do cabelo, suspirou em silêncio (um suspiro interior, simultaneamente secreto e ostensivo) e marchou para a cozinha, onde ligou a máquina de lavar louça e ficou à espera durante cinquenta minutos para de lá retirar dois pratos, quatro talheres e um copo (os mesmos que iriam servir para o jantar do dia seguinte, de todos os dias seguintes).
II
Após o divórcio, encontraram-se algumas vezes para tratar de assuntos práticos relacionados com os resquícios – o funeral, por assim dizer – do casamento (e também, mais secretamente, para se vigiarem mutuamente; para constatarem se o outro não estaria demasiado feliz, demasiado cedo). Curiosamente, acabavam sempre por rir (rir mesmo, com gosto e vontade, com prazer; juntos: como já não acontecia há anos) quando recordavam a expressão do juiz perante a resposta deles à sua última questão; “e, já agora, de quem consideram que foi a responsabilidade por o vosso casamento não ter resultado?”, perguntara o juiz. “Das agências de rating, claro”, tinham eles respondido quase em coro (e porquê?, por que motivo tinham dado aquela resposta imprópria e disparatada, em uníssono?). Riam e, pouco depois, despediam-se, um pouco surpreendidos consigo próprios; algo aliviados por perceberem que, afinal, o outro não parecia assim tão feliz; algo embaraçados por terem rido (teria sido mais próprio discutirem?), por terem apreciado esse riso partilhado.
E riso após riso, foram prolongando o pós-divórcio, forçando uma aproximação ténue e artificial (obviamente inconsequente), acalentando uma indefinida e inconfessável (obviamente desesperada?) possibilidade de regressão. Até que, certo dia, um deles (não importa quem) se interessou súbita e inesperadamente por um – ou uma – colega lá do escritório e tudo se precipitou: houve umas saídas e uns copos e umas gargalhadas e uns toques e, por fim, umas fodas (umas valentes fodas); e, nesse momento, esqueceram-se agências de rating e juízes surpreendidos e risos partilhados, esqueceu-se tudo. E a vida lá seguiu em frente, finalmente.






