Responsáveis culturais discutiram descentralização e desinvestimento

Quinta, 24 de Junho de 2010

por Rafaela Carvalho

Descentralização da cultura para o desenvolver das cidades e desinvestimento na Cultura marcaram a mesa-redonda do terceiro dia do IV Festival das Companhias. Entre os participantes fica o apelo a que o que foi discutido tenha reflexos nas políticas culturais

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Directores e vereadores da cultura conversaram com os produtores artísticos das cidades "médias" do país Foto por Rafaela Carvalho

A necessidade do trabalho das Companhias de Teatro no desenvolvimento das cidades “médias” de Portugal e a insatisfação com os constantes cortes orçamentais na promoção da Cultura foram as principais conclusões da mesa-redonda “A criação artística nas cidades médias” que decorreu esta tarde, 24, na Casa Municipal da Cultura.

A sessão que contou com a participação de Jorge Barreto Xavier, director geral das Artes, de João Sequeira e Dália Paulo, directores regionais da cultura do Norte e do Algarve, respectivamente, e das vereadoras da cultura de Coimbra e Évora, Maria José Azevedo dos Santos e Cláudia Sousa Pereira foi moderada pelo director da Companhia do Teatro de Braga, Rui Madeira.

Falta de financiamento é “um pecado que não conseguimos erradicar”

Jorge Barreto Xavier esclareceu que as estruturas culturais “têm de arranjar formas de sobrevivência para lá do dinheiro”. As declarações do director geral das Artes causaram descontentamento a Augusto Barros, director da companhia Escola da Noite, que deixou claro que se impõe “exigir que os políticos tirem consequências das suas palavras”.

A notícia recente do corte de dez porcento, estabelecido pelo Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC), nos projectos já protocolados pelo Ministério da Cultura esteve constantemente presente no discurso dos participantes. Augusto Barros criticou o facto de os “gastos do gabinete do primeiro ministro serem quase equivalentes ao orçamento do Ministério da Cultura”.

A falta de financiamento “é um pecado que não conseguimos erradicar da nossa herança”, referiu a vereadora da Cultura, Maria José Azevedo dos Santos relembrando que o desinvestimento na cultura é um problema que vem desde a época medieval.

Políticas e estratégias culturais criticadas

Rui Madeira mostrou o seu descontentamento com a falta de estratégia de crescimento que se tem feito notar na insuficiente gestão dos novos equipamentos culturais criados nas diferentes cidades.

Já Jorge Barreto Xavier acredita que, apesar do crescimento da “massa crítica” da cidade de Coimbra graças ao desenvolvimento das ciências, “tem havido um distanciamento entre a cidade e a universidade”.

Maria José Azevedo dos Santos explicou que desde há alguns anos a realidade mudou. A vereadora da Cultura de Coimbra referiu também que é “natural” a “sazonalidade das políticas culturais”, uma vez que “quem chega promove aquilo de que mais gosta”.Enquanto membro do público, a candidata do Bloco de Esquerda à presidência da Câmara Municipal de Coimbra em Outubro passado, Catarina Martins, criticou a posição da vereadora considerando que “a planificação cultural tem de ser ampla”.

O papel das Direcções-Regionais da Cultura

Dália Paulo focou o seu discurso no papel “redutor, castrador e caricato” das direcções-regionais da Cultura (DRC) que apesar de terem a função de “acompanhar as entidades abrangidas”, têm igualmente de criar elos entre as estruturas culturais.

A directora-regional de cultura do Algarve afirmou que a “a solução para a crise passa pela conversa entre público e privado”. João Sequeira e Ana Botelho, responsável pelos Territórios Artísticos da DRC do Centro, apoiou a posição de Dália Paulo defendendo que “é função das direcções promover os diálogos entre os agentes culturais”. “Deve-se focalizar o sector cultural em si mesmo, ou permitir a interacção com os outros sectores como o turismo?” foi a questão que a vereadora da cultura de Évora, Cláudia Pereira, deixou em aberto.

Ana Botelho revelou ainda que segundo dados recentes “as estruturas apoiadas conseguem duplicar o investimento”. Rui Madeira considerou que este devia ser mais um factor de financiamento. Dália Paulo deixou ainda o desafio aos produtores artísticos para terem um papel activo na busca de financiamentos europeus.

Entre público e participantes ficou a esperança de que esta conversa não fique pelas palavras e tenha reflexos exteriores e que se comece a valorizar o que se faz em cada uma das cidades portuguesas da descentralização.