Reconstituir a história de Coimbra através da Fotografia
Sábado, 31 de Julho de 2010
por Vasco Batista
Na noite de sexta-feira, 30, a Fotografia foi a arte que ocupou a sala Acqua da Quinta das Lágrimas. Num dos eventos da recta final do Festival das Artes, Alexandre Ramires, fundador da Associação Portuguesa de Photografia, retratou a história de Coimbra desde o século XIX, através de um vasto espólio fotográfico
As vicissitudes que Coimbra sofreu nos últimos dois séculos, sobretudo a relação da cidade com o Rio Mondego e a zona de Santa Clara-a-Velha mereceram particular destaque. E foi igualmente feita a “análise de locais que por vezes são difíceis de reconhecer”, referiu o especialista. As fotografias, cuja autoria foi sempre referenciada, permitiram a datação de vários locais históricos de Coimbra.
Um dos autores que cujas fotos Alexandre Ramires usou por vários vezes foi José Maria dos Santos, um dos portugueses pioneiros na arte fotográfica. Instalou em 1969 uma casa da Fotografia, primeiro no Páteo do Castilho, que mais tarde foi transferida para a Rua Nova da Rainha, na Portagem e que entretanto já desapareceu. O fotógrafo instalou um Laboratório Fotográfico munido de vários espelhos e janelas, para entrar muita luz, e que lhe permitiram recorrer a técnicas inovadoras e de “enorme qualidade”, não só para fazer fotografias, como também para revelá-las.
A colecção apresentada por Alexandre Ramires, também docente da licenciatura em Estudos Artísticos na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tornou possível a reconstituição histórica de Coimbra, em imagens que não esconderam a admiração dos presentes na Quinta das Lágrimas. Dessa colecção, composta por pelo menos 800 fotografias, foi feito o cruzamento com informações de jornais para retratar a cidade.
A Quinta das Lágrimas e a zona de Santa Clara-a-Velha foram locais bastante retratados, explicou o docente. No primeiro caso, as fotografias remontam a 1872 e, no segundo, a 1863, também em parte devido à presença de muitos turistas que se fazia notar por ali.
Nomes como Abílio Caetano da Silva, Marques de Abril – com reputação também na História de Arte -, Jean Laveur, Silva Magalhães, Carlos Relvas também foram referidos por Ramires.
O Mondego obrigou a que Coimbra pensasse em várias formas de se relacionar com a sua presença, mormente quando o seu leito extravassava a capacidade suportada pelas suas margem. Neste sentido, a relação da cidade com o rio foi bastante discutida. Desde logo com a Ponte de Pedra que ligava as duas margens e que chegou a ser galgada pelo Mondego, com as cheias de 1894, 1900 e 1902, por exemplo.
Monumentos históricos de Coimbra que hoje já não fazem parte do quotidiano de quem cá vive, e que muitos até nem chegaram a conhecer, como a Praça de Touros em Santa Clara-a-Velha, e o Rossio aí outrora instalado que permita a realização da Feira dos 13, só se podem vislumbrar através das fotografias ontem exibidas.
Também vários pormenores presentes nas fotografias - que devido à sua qualidade não perderam a nitidez quando a resolução é aumentada, já que foram conseguidas com base em negativos originais -, permitiram datar as fotografias com rigor. Alguns dos casos, explicou Alexandre Ramires, são a zona do Arnado, a Portagem a Torre da Universidade de Coimbra, a Cabra, que mudou de relógio em Abril de 1867 para o actual, com menores dimensões. Outra das fotografias que mostrou a evolução da cidade prende-se com a Padaria Santa Flor de Santa-a-Velha, situada ao lado do Portugal dos Pequenitos, e que fotografias de inícios do século não permitiam uma associação imediata, ao mostrar a então Mercearia e Padaria de Santa Flor de Santa Clara-a-Velha. As lavadeiras do Rio Mondego e a recepção da Rainha D. Maria II em 1900 foram outros aspectos demonstrados.
Com o relógio já adiantado em relação à duração prevista da conferência, Alexandre Ramires despediu-se com críticas à política cultural portuguesa, que impede a existência de uma “instituição que preserve as fotografias até daqui a cem anos” e que não existe “uma política de valorização” da arte fotográfica. "Só a circulação das fotografias permite valorizá-las", concluiu.






