“Quem salva uma vida salva o universo inteiro”

Segunda, 12 de Novembro de 2012

por Andreia Isabel Gonçalves

O Teatro Académico de Gil Vicente (TAGV) abriu portas ontem, 10, a uma grande enchente que ia à última sessão do segundo dia do festival Caminhos do Cinema Português. A curta-metragem “ZOO”, de Margarida Leitão e a longa-metragem “Aristides de Sousa Mendes – Cônsul de Bordéus” de João Correa e Francisco Manso foram os filmes exibidos

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O cônsul de Bordéus retrata parte da vida de uma figura heróica portuguesa Aristides de Sousa Mendes Foto por D.R.

Às 22h00, hora prevista para o início da sessão de cinema, ainda a fila para as bilheteiras se prolongava até ao átrio exterior do teatro, o que levou a que a organização atrasasse alguns minutos a programação. De sala cheia, o Caminhos apresentou “Zoo”, uma curta-metragem de 14 minutos que “com um olhar muito especial”, como antecipou a realizadora, expõe uma realidade bem patente na nossa sociedade: a violência doméstica, presenciada por crianças.

É a história de uma família sob o olhar da pequena filha, Ana. Retrata uma relação turbulenta entre o casal, Maria e Pedro, desde agressões verbais e físicas, a atos de amor e mentira. Ana assiste a todo o panorama crítico em silêncio. É comovente como os seus olhos trespassam o sofrimento mal-entendido que sente. A realizadora entende que é uma história de animais enjaulados, isto é, aos olhos de uma criança uma relação adulta pode parecer um zoo ou uma selva. É uma curta-metragem forte nos silêncios, nos tons frios predominantes dos cenários e nas expressões inocentes mas sofridas da criança, ainda que muito parada com espaços de tempo muito longos entre uma e outra ação. Ao mesmo tempo retrata muito bem a posição de um filho no meio destas tempestades relacionais.

“O Cônsul de Bordéus”

Alexandra Schmidt (Leonor Seixas) é uma jornalista portuguesa que viaja até Viana do Castelo para entrevistar o maestro em fim de carreira, Francisco de Almeida (Carlos Paulo). Durante a entrevista, Alexandra confronta-o com o seu verdadeiro nome, Aaron Appelman, que todos desconhecem e não consta sequer na sua biografia oficial.

Com o desenrolar da entrevista e com alguma curiosidade da jornalista, na história de vida do maestro, este conta-lhe uma série de acontecimentos desde os seus 10 anos. Depois de se ter separado dos pais e ter viajado com a sua irmã mais velha, Esther Appelman, até Bordéus, foi salvo pelo cônsul de Portugal em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes (Vítor Norte) da perseguição nazi em junho de 1940.

Francisco de Almeida, ou melhor, Aaron Appelman contou o dilema do cônsul, que vivenciou de perto. Aristides sentia-se dividido: por um lado, via chegar todos os dias à sua embaixada cada vez mais refugiados hebreus que precisavam de um visto para poder passar as fronteiras e virem para Portugal onde estariam a salvo da II Guerra Mundial; por outro, tinha recebido a Circular 14 de Salazar, que proibia a emissão de vistos a judeus.

Contudo, as suas convicções católicas e a pressão do rabino Krueger, que alojava dezenas de pessoas por dia na sinagoga, levou-o a tomar a decisão crucial que mudaria toda a sua vida: desobedecer à Circular 14 e passar vistos a toda e quaisquer pessoas. Esse mês de junho de 1940 tornou-se numa verdadeira corrida contra o tempo - Aristides de Sousa Mendes chega a passar 30 mil vistos enquanto a ameaça nazi avança até França.

No fim da entrevista, a jornalista revela o que na verdade a levou a viajar até Viana do Castelo: apresenta-lo à sua avó, Esther Appelman, a irmã que o maestro pensou ter perdido em Bordéus antes de partir para Portugal.

Toda a história é muito bem construída, louvando uma personalidade tão heroica como o Cônsul de Portugal em Bordéus. Foi mais um grande papel de Vítor Norte, que, com carisma, encarna esta personagem. Retratando um período tão delicado e que provoca um místico de sentimentos à plateia emocionada com o homem que recebeu a condecoração pela República Portuguesa, com a Cruz de Mérito a título póstumo pelas suas ações em Bordéus, assim como, recebe a medalha de ouro da mais alta condecoração do Estado de Israel, também a título póstumo. Medalha essa que tem inscrita a uma citação do Talmud: "quem salva uma vida salva o universo inteiro".