“Problema número um dos SASUC é orçamental”
Terça, 09 de Março de 2010
por Acabra .Net
Ao fim de dois meses como administrador dos SASUC, Gouveia Monteiro reflecte sobre o futuro do serviço e adianta quais serão os próximos projectos para fazer face aos problemas orçamentais. Entrevista por João Ribeiro
Há quase dois meses no cargo quais são os principais problemas com que se deparou nos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra (SASUC)?
O número um é o problema orçamental. Temos 5,5 milhões de receitas próprias. É a maior receita própria de um SAS do país. Falo de receitas geradas pelos SASUC, com um destaque enorme para as dos serviços de alimentação, 82 por cento. E depois, em menor escala, o alojamento e depois, em bastante menor escala, os serviços médicos, infantários, etc. Temos para 2010 uma transferência de igual valor do Orçamento de Estado (OE).
O tal reforço…
Zero. Não há reforço nenhum. É o quarto ano consecutivo em que não há nenhum reforço do OE. Tivemos um aumento dos descontos para a Caixa Geral de Aposentações (CGA), de dez a 15 por cento. O que inflaciona os encargos com o pessoal. Temos quase 9 milhões de despesas com pessoal, num volume de 530 funcionários. Temos pesados encargos com instalações, são 30 edifícios com água, luz, manutenção corrente. O que significa que estamos muito apertados em termos orçamentais para 2010. Depois temos um problema físico, de estruturas, que tem todo a ver com o primeiro. Por razão deste não aumento do financiamento estatal essa manutenção e conservação não têm vindo a ser feitas, o que significa que os edifícios se vão deteriorando com problemas, sobretudo ao nível da nossa rede de frios. Refiro-me ao nosso armazém central de conservação dos alimentos. Está a precisar rapidamente de ser substituída. Este problema é estratégico porque se vai abaixo põe em causa todo o sistema de alimentação, que é o sector crucial dos SASUC. Na Residência um do Pólo II e no Complexo Alimentar do Pólo II temos graves problemas de canalização de infiltrações na cobertura. Tivemos agora um incidente nas cantinas centrais, mas não tão grave. No edifício central dos SASUC temos também alguns problemas. Trata-se de reparações que não são resolúveis com as nossas oficinas. São precisas empreitadas de alguma especialização e portanto abrir concursos.
Tem em vista alguma obra dessa envergadura?
Depois de uma conversa com o reitor, vamos fazer a empreitada da remodelação da rede de frios. Porque essa é nevrálgica e é absolutamente decisivo ter a rede de frios em condições. Vai ser uma despesa na ordem dos 160 mil euros. O reitor concordou em participar com uma parte deste investimento. Estou a ver se ainda consigo fazer este ano a substituição integral da canalização do restaurante e da Residência um do Pólo II. Estamos com perdas de água muito significativas e temos máquinas como cilindros e caldeiras que acusam a corrosão.
Que estratégias vai adoptar para fazer face aos problemas orçamentais?
Estamos a fazer um trabalho muito minucioso de análise por centro de custos. Num serviço que tem a diversidade dos SASUC, com 16 restaurantes - já não incluo a cantina ISCA-FEUC porque já a fechei - 13 residências, serviços médicos, bolsas de estudo, infantário, creche, etc. Temos que fazer a análise unidade a unidade imputando tudo o que são custos a cada uma, para ver se se justifica manter aquela unidade e também para motivar os trabalhadores a dizer quanto é que se gasta. Dos encarregados até aos trabalhadores menos qualificados, os próprios utilizadores saibam quanto custa manter aquela unidade e qual a receita que ela gera. Foi essa avaliação que nos permitiu tomar a decisão relativamente ao ISCA, era injustificável manter uma unidade com cinco trabalhadores a servir trinta sandes à hora de almoço, tendo em conta que em Abril passado já se tinha considerado que não tinha condições para servir refeições quentes. Esta semana também se fechou o serviço de textos, junto da cantina amarela. Não se tratando de um serviço de primeira necessidade, não se justificava, tendo hoje um grande conjunto de alternativas em termos de reprografias, manter esse serviço em funcionamento.
Não sobreviveu à concorrência dos outros serviços da cidade?
Correcto. Estávamos a publicar meia dúzia de lições. Manteremos esse compromisso até final do ano, mas não se justificava termos um edifício afectado apenas a essa função com seis trabalhadores, um dos quais que passava agora à reforma, com uma despesa de cem mil euros e uma receita de 20 mil. Portanto estávamos a produzir muitíssimo acima dos custos de venda dos materiais. Produzíamos também impressos para uso interno, mas comparado com o custo de mercado, quer para o estudante, quer para nós próprios, era absolutamente injustificável manter esse serviço. Os trabalhadores foram deslocados para outras funções, não dispensámos nenhum colaborador. Falei com cada um dos trabalhadores no sentido de lhes propor uma nova tarefa.
Esse edifício vai servir para quê?
Temos vários projectos. Temos alguns serviços de intenso contacto com os estudantes, que estão muito mal alojados na nossa sede. Portanto não está encerrado esse processo, temos que dar um rearranjo simples àquele imóvel. Mas provavelmente, vamos pôr a funcionar nesse edifício o serviço de alojamentos, que hoje funciona no segundo andar da sede, com picos de procura muito intensos que se tornam penosos. Vamos também deslocar para ali o gabinete de aconselhamento psico-pedagógico, o GAP-SASUC, que é um serviço que tem vindo a crescer em termos de iniciativas, em termos de procura, em termos de capacidade de iniciativa. E que hoje precisa de salas para poder trabalhar com estudantes. Por esta via, de estudo detalhado unidade a unidade, estou a conseguir tomar algumas destas medidas que referi, mas não chega. Precisamos de reduzir a despesa a outros níveis: os encargos com instalações, consumos de energia, consumos de água, de gás.
E em relação à mão-de-obra?
O Governo está a decidi-lo por nós, infelizmente. Está a haver uma corrida às aposentações. Que eu considero muito negativa, da maneira em que está a correr. Está a instalar-se um certo espírito de que “vai faltar o arroz e toda a gente vai à prateleira”. O que admito venha a provocar constrangimentos. Os SASUC não são uma ilha, certamente está a acontecer em toda a Administração Pública constrangimentos de tesouraria na Segurança Social. Mas a verdade é que as medidas que o Governo tem vindo a tomar de penalização das reformas, o anúncio de que dentro de cinco anos a penalização será maior e que em vez de se aposentar com 70 por cento, já só se aposenta com 60 ou 50, está a provocar este tipo de pânico. Há trabalhadores muito valiosos, com experiência e ainda com capacidade física para aguentar mais uns anos a fazer um trabalho e a ensinar novas gerações de trabalhadores, e que estão a ser compelidos por estas políticas governamentais. Não quero dispensar pessoal neste momento, pelo contrário, tenho algumas necessidades minuciosamente detectadas. Os trabalhadores que estavam nos textos foram ocupar postos nessas unidades que estavam com necessidades detectadas. Mas infelizmente, por essa via, a nossa despesa com pessoal vai reduzir-se não por minha vontade. Está em curso em cada uma das nossas unidades a maneira de poupar despesa nesses encargos. Nalguns casos não é fácil e portanto é preciso introduzir algumas medidas de separação de consumo. Fiz uma proposta de parceria à Câmara Municipal no sentido de reduzir substancialmente as despesas com água e saneamento. Os SASUC têm contrapartidas a oferecer ao município de Coimbra e já posso colocar isto em termos públicos porque já tive essa reunião. Trata-se agora de redigir o acordo.
A que tipo de contrapartidas se refere?
O que foi abordado na reunião foi um tratamento mais favorável aos SASUC em termos de tarifário de água e saneamento, que pode corrigir aquilo que penso ser um tratamento injusto. Estamos a pagar pelo menos o triplo da indústria, estamos a pagar o escalão mais alto das Águas de Coimbra e depois a tarifa de saneamento anda associada. O município pode ainda apoiar-nos noutras coisas, designadamente nalguns transportes para algumas acções que devem ser agora quantificadas. E nós podemos oferecer ao município, aquilo em que somos bons: refeições. Temos restaurantes em vários pontos da cidade e uma capacidade instalada que nos permite oferecer refeições em muitos restaurantes a funcionários do município, com vantagem para os SASUC, não o nego. Se no preço da refeição as várias componentes já estão gastas, se conseguir aumentar o número de refeições, tenho um ganho. Tenho camas no período de Verão em residências universitárias que podem ser interessantes. No período de 27 de Julho a 20 de Agosto tenho uma capacidade de dormida que pode ser interessante. Coloquei isto também ao município. É um período que pode haver convidados do município. Isso pode-nos permitir reduzir a despesa e oferecer também vantagens ao município de Coimbra. Uma terceira medida, já do lado do aumento da receita, é recuperar o número de refeições servidas. Os restaurantes dos SASUC perderam procura nos últimos anos. É um fenómeno que me preocupa e que tem a ver com o pouco tempo dos estudantes para comer. É um problema que já não consegui resolver para o segundo semestre, mas estou a tentar falar com os directores das faculdades. Se a nossa capacidade instalada nos permite servir confortavelmente durante duas horas, das 12h às 14h, não há razão para se estar a servir refeições das 12h45 às 13h30. É mais desconfortável, há maiores tempos na fila, há um efeito dissuasor da própria fila grande que faz com que os estudantes vão comer com pior qualidade e mais à pressa noutros botequins que há pela cidade. Preocupa-me nomeadamente o problema dos estudantes da faculdade de Economia que, não havendo serviço no ISCA, eles têm que ter tempo de chegar à Sereia e de regressar à faculdade. Há um negócio que prolifera e que me preocupa que são os bares das faculdades. Na óptica da faculdade dá receita, na óptica dos SASUC é mau. Retira mercado e provavelmente qualidade, porque a qualidade que os SASUC oferecem hoje não é oferecida num pequeno bar de uma faculdade, que naturalmente não tem as condições que nós temos em termos de garantia de segurança alimentar e análises laboratoriais e de equipamentos dos próprios funcionários. Essa é provavelmente uma das razões da quebra da procura. Outra, que estou a procurar desenvolver a discussão e a tomar já medidas que aliás já estão tomadas para Abril, é a monotonia das nossas ementas. Desenvolvi uma característica que é ouvir muito bem. E nas reuniões que fiz tenho procurado delegar competências nos dirigentes dos vários sectores dos SASUC, mas depois tento compensar essa partilha de capacidade de decisão com um contacto muito próximo com a base. Portanto, além de delegar nos chefes mantenho um contacto muito próximo com os subordinados. Nas reuniões que fiz com estudantes da direcção-geral e de várias secções também me foi transmitida alguma insatisfação. E eu quando como nas cantinas também oiço. Havia alguma monotonia explicável por razões de preços, pela facilidade e comodidade do planeamento. Quando vou adquirir géneros sei que vou adquirir para um trimestre, mas a discussão que eu lancei nos SASUC foi de, sem sacrificar a nossa capacidade de planeamento ou exigindo algum esforço mais dos nossos trabalhadores que estão nessas áreas do planeamento, e naturalmente com o acordo dos nossos técnicos nutricionistas, introduzir algumas surpresas e uma maior variedade. Diminuir os ciclos de planeamento e introduzir novos pratos. É o que vamos fazer já a partir de Abril. Estamos agora a lançar os concursos que nos permitam a partir de Abril ter uma maior variedade, ir ao encontro de algumas das sugestões que os próprios estudantes fizeram e observar essa experiência. Admito que em Abril e Maio possamos tirar conclusões muito interessantes dessas novas ementas que permitam pôr em marcha novidades gastronómicas. Isto é muito importante, porque uma coisa é nós recebermos dois milhões de refeições como foi o top dos SASUC há três anos, ou estarmos a servir menos de 1,5 milhões como em 2009. Há fenómenos que nos ultrapassam, como a partilha de apartamentos em vez do quarto alugado com capacidade de fazer refeições à noite. Notamos sobretudo uma diferença ao jantar. A relação entre o número de refeições servidas ao almoço e ao jantar é de 75/25.
Em relação ao acordo com a câmara, esta mostrou-se receptiva?
Escrevi uma carta ao Dr. Encarnação em que descrevia do meu lado o que tinha para oferecer… Depois tive uma reunião com o Dr. Oliveira Alves que é director municipal de desenvolvimento humano e social. Tenho a parceria escrita…
A sensibilidade é afirmativa?
Sim, a reunião com o Dr. Oliveira Alves foi claramente positiva, portanto estou muito esperançado que consigamos prestar serviços ao município e obter da parte do município alguma compensação.
O que tem sido feito para a articulação dos SASUC com as instituições da cidade?
Nestes dois meses procurei identificar alguns protocolos que temos com entidades. Temos um acordo que não chegou a ser fechado com O Teatrão, um acordo muito interessante com os serviços sociais do politécnico, que eu admito que possa vir a desenvolver-se. Tem a ver com a exploração da cantina do ISEC (Instituto Superior de Engenharia de Coimbra) em instalações do politécnico geridas pelos SASUC. É um exemplo de boa cooperação e que teve um papel muito importante da Associação de Estudantes do ISEC. Temos estágios de estudantes da Escola Superior de Educação (ESSE) nos SASUC. Vou propor novas parcerias com outras instituições que julgo que podem ser muito interessantes para ambas as partes.
Os inquéritos que a comunidade universitária preencheu foram proveitosos?
Foram seguramente, embora eu tenha uma objecção em relação aquele tipo de inquérito. Era demasiado “ad hominem”. Julgo que os funcionários dos SASUC não devem ser avaliados pelos consumidores e portanto o trabalhador deve ser avaliado pelo avaliador. O inquérito tal como estava construído visava demasiado o cozinheiro, o empregado, a empregada da limpeza… Quando se procura que o utilizador avalie os vários itens do seu grau de satisfação com o serviço que é prestado, é por itens e não pela pessoa A, B ou C. Tirando essa pequena correcção, os inquéritos de satisfação vão ser uma realidade durante grande parte de 2010. São extremamente úteis porque permitem discutir com os vários responsáveis o grau de satisfação.






