Portugalidade transcende o separatismo das ilhas
Terça, 18 de Outubro de 2011
por Acabra .Net
Portugal, um país com história difundida pelos quatro cantos do mundo, volta a encontrar no seu seio sentimentos separatistas que procuram não desvirtuar o legado da “mãe da lusitanidade”. Por Liliana Cunha
Ser português. De Portugal, da península ibérica, do mais ocidente da Europa, do mundo. Relegando o interesse geográfico em detrimento do patriótico, a questão da independência dos territórios extracontinentais onde os portugueses estiveram presentes, foi sempre discutida. Contudo, esta mesma não impõe restrições colonialistas: "os Açores têm mais razões que Cabo Verde, muito mais que S. Tomé e Príncipe, e talvez melhores que Bissau para pedir independência", ressalta o antigo membro e entusiasta do diretório da Frente da Libertação dos Açores (FLA), Carlos Melo Bento. A Frente, desencadeada num contexto pós-revolucionário, em meados de abril de 1975, preconizava a independência das nove ilhas face ao continente.Não queríamos pertencer a um país que podia entrar numa ditadura de esquerda", explica o antigo ativista da Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira (FLAMA), Gil Caroto, que, em conjunto com os seus conterrâneos tentou gerar um "movimento independentista que pretendia a separação da república portuguesa". Pelo lado açoriano, Melo Bento personifica o sentimento da época: "somos portugueses da expansão, estruturalmente independentes e indomáveis. Portugal, aqui, chama-se Açores". Distinguiram-se também na prossecução dos objetivos. A FLAMA ganhou contornos violentos, chegando a desenvolver atentados bombistas. Na natureza esquerdista do golpe militar de abril viam uma grande afronta à sua ideologia maioritariamente de centro-direita: "queriam fazer aceitar a Mário Soares uma sociedade comandada pelo proletariado", lamenta Gil Caroto, que sublinha a separação do "espartilho de esquerda".
Dois arquipélagos. Dois movimentos. Com vista ao separatismo, os Açores e a Madeira tentaram demarcar-se, por altura da revolução dos cravos, da pátria lusitana invocando propósitos diferentes. "
"Os tempos são outros"
"Não é do interesse das regiões autónomas serem independentes", esclarece o professor catedrático da Faculdade de Economia do Porto (FEP), José da Silva Costa. Ao fazer uma ponte com o presente, o docente afirma que "a solução que foi encontrada para a autonomia regional é bastante favorável do ponto de vista financeiro". Beneficiando de um estatuto político-administrativo próprio, uma região autónoma tem "condições especiais no que respeita à fiscalidade", podendo "pagar impostos mais baixos", sustenta o catedrático. No entanto, avisa que, aquando das "alterações nos níveis dos impostos do continente, as ilhas também sofrem repercussões". A inviabilidade da independência não é compartilhada pelo madeirense Gil Caroto, que encontra a saída "num contexto europeu onde a Madeira poderia negociar diretamente com Bruxelas, sendo um estado comunitário". Dá como exemplo a ilha de Malta, que "vive do turismo tal como na Madeira". Mas a Madeira enfrenta a fragilidade das suas raízes -"sentimo-nos muito portugueses".
Carlos Melo Bento ainda partilha nos dias de hoje os valores que manifestava aquando do nascer do movimento: "para que deixemos, de vez, de ser estrangeiros na própria Pátria". No seu livro, Horas Amargas, o advogado insiste na necessidade dos Açores serem "diferentes" por via da "diáspora, quatro vezes maior que a população residente nas nove ilhas que nos compõem". Quanto a um ressurgir da frente de libertação "por uma questão de dialética histórica" este pensa que não é o momento: "ainda não". O parecer do diretor regional da Administração da justiça do governo regional do arquipélago madeirense, Jorge Freitas, associa-se ao do advogado açoriano: "não acredito porque os tempos são outros. Os rapazes dessa altura já são velhos de cabelo branco". Alerta, todavia, para "o rumo" de uma nova "conturbação social na sociedade portuguesa", à qual "é preciso aguardar e ver qual vai ser a consequência desta nova ‘troika’".
A dívida como coesão moral
"Temos trabalho feito e as pessoas viveram à custa disso estes anos todos", sustenta Jorge Freitas. O membro do Governo Regional da Madeira atribui "aos cortes promovidos pelo antigo governo que a ilha sofreu" a culpa "da cratera da dívida" que recentemente tem sido falada. Esta, de 1,113 milhões de euros obrigará o executivo a rever o défice orçamental dos últimos 3 anos, e tem gerado controvérsia pelo seu modo de pagamento. No parecer do economista da FEP, Silva Costa, "não se trata de entender o território nacional como mais importante que uma parte, que uma região", o problema necessita de "coesão" e o estatuto autónomo exige "poderes fiscais acompanhados de responsabilidade". Remata atestando que "a dívida tem de pelo menos em boa parte ser paga pela região".
Estabelece-se um princípio geral comum às duas regiões autónomas, o de um encargo político de relevo. "Quem está no poder, em territórios muito pequenos, tem muita influência", ressalva o ex-membro da FLA, Carlos Melo Bento. Carlos César, presidente do governo regional dos Açores está no cargo há 16 anos e o seu homólogo Alberto João Jardim há 36. "O povo é quem mais ordena", lembra Jorge Freitas, que justifica a reeleição de Alberto João com a crença dos madeirenses "no seu líder, não o quiseram mudar". Contrapondo o seu conterrâneo, Gil Caroto revela que "os madeirenses abominaram ao facto da dívida ter sido escondida", aludindo à abstenção registada na última ida às urnas. "Isto é novo", finaliza.
Sentimento de Portugalidade
"A portugalidade transcende-nos, mas é um bem demasiado precioso para a deixarmos perecer", exalta o açoriano Melo Bento, que acautela para a manutenção desse sentimento que "não subsiste se o berço inicial, o nosso retângulo, a nossa mãe da lusitanidade, não tiver consciência da gigantesca obra que os de antigamente construíram neste planeta". Pela parte madeirense, Gil Caroto, constata que "houve uma afronta ao povo da Madeira pelo governo central", e a consequência disso fez renascer a "anticentralidade". Resta o consenso na partilha de valores "de bens históricos e culturais", no entanto, este, segundo o professor José da Silva Costa "não seria impeditivo da independência".






