O teatro a encenar a cidade
Terça, 28 de Junho de 2011
por Acabra .Net
“Coimbra 1111”, estreada a 23 pel’O Teatrão, volta dia 4 de julho. Este projeto une profissionais e amadores, sem esquecer o papel fulcral do público no seu decorrer. Um convite à população para (re)conhecer e (re)descobrir a cidade de Coimbra. Por Ana Duarte e Ana Morais
Conquista. Substantivo feminino. Obtenção do alheio por meio de luta ou esforço contrariado. Em “Coimbra 1111”, o esforço não foi contrariado, de todo. A luta, essa, foi a via escolhida para a conquista da cidade, ao unir pessoas do ontem, do hoje e do amanhã. Da Beira Rio à Sé Velha, percorreram-se as ruelas da Baixa.
O elo entre a cidade e o teatro consuma-se junto à sé, num ambiente de profunda união entre atores – amadores e profissionais – e a população. O que se pretende é a reconquista de Coimbra atual pelos habitantes de hoje. Coimbrinha, um dos personagens, assinala esse elo com um típico: “ficam unidos, no bem e no mal”. E é aqui que o amor assume um papel decisivo. Este amor é atípico: junta culturas, religiões, gerações e cores diferentes.
Mas voltemos ao início. Ao entardecer, enquanto os gestos e falas menos graciosas de Coimbrinha e Coimbrão iam fazendo surgir algumas gargalhadas no coletivo, um grupo de árabes desembarcava na margem do Mondego e preparava-se para capturar os malfadados atores. Contudo, a sua mestria consegue ludibriar os mouros e leva-os à descoberta dos encantos que Coimbra tem para oferecer.
Mesmo depois dos ensaios, a diretora artística da companhia O Teatrão, Isabel Craveiro, apresenta indicações constantes. Na estreia, os atores ainda ouvem Isabel, sempre atenta aos pormenores. Para além da diretora, vários foram os membros d’O Teatrão que trataram da logística da peça. Foi necessário orientar o público e organizar o percurso de maneira a que o espetáculo pudesse decorrer sem contratempos. A interação entre a audiência e os atores foi permanente e por várias vezes os próprios elementos da peça comunicaram diretamente com o público.
Música intemporal
Ao longo de todo o percurso, a música esteve presente: quer pelas vozes dos pequenos “Rouxinóis do Mondego”, quer pelo grupo dos gaiteiros “Rebimbo'malho”. A direção musical esteve a cargo de Manuel Pires da Rocha, diretor do Conservatório de Coimbra, que também acompanhou o percurso com o seu violino. A escolha musical, explica Pires da Rocha, recai sobre o género popular: “é uma música que atravessa os tempos”, reforçando a ideia de avanços e recuos durante todo o espetáculo.
Em ambiente taberneiro, na Praça do Comércio, atores e árabes reconciliam-se. Depois, seguem para a antiga Porta de Belcouce. Neste quadro interpõem-se vários tempos e figuras: veem-se visigodos, uma rainha sueva e enfermeiras do Serviço Nacional de Saúde. Na sua essência, este conjunto de personagens constitui outra companhia de atores indigentes, mas que afinal se revelam nossos contemporâneos. Entretanto, Branca, outra personagem, dá à luz uma criança. A paternidade é, supostamente, desconhecida e gera confusão. A pergunta que se ouvia pela audiência era óbvia: “mas afinal, quem é o pai da criança?”. Para além da impaciência do público, os personagens reclamam a origem da semente, enquanto Branca escapa entre as pessoas.
Na reta final, há um momento de tensão. Por pouco a “praça não fica manchada de sangue”, ouve-se. O capitão árabe, também exige saber de quem é o filho, nem que para isso seja preciso decapitar alguém. No entanto, o simbolismo irrompe: o parto pretende dramatizar o nascimento (reconquista) da cidade de Coimbra. O elenco vai surgindo de vários pontos estratégicos que convergem na Sé Velha, unindo-se numa só missão: poupar a cidade.
Teatro em comunidade
“Coimbra 1111” é uma peça que destaca a importância de elementos da sociedade conimbricense, que alguns tendem a esquecer. Comerciantes da Baixa, repúblicos e habitantes locais contribuíram de forma ativa para a construção de um evento que, nas palavras do presidente da Câmara Municipal de Coimbra, João Barbosa de Melo, “pretende mostrar como isto era há 900 anos”. É, ainda, de ressalvar o esforço das companhias de teatro amador – Grupo “O Celeiro”, Teatro Amador de Ribeira de Frades, Teatro Amador de Sobral de Ceira, o Grupo de Teatro Amador de São Silvestre -, da Associação Cultural “Arte à parte” de pais e alunos das classes do Teatrão. A camaradagem e boa-disposição verificadas nos ensaios não passaram despercebidas ao longo da peça. E, apesar de levarem algumas cábulas, isso não tirou mérito àqueles que se dedicam ao teatro por curiosidade e por alguma carolice. A parceria entre O Teatrão e os grupos amadores é a simbiose onde profissionais e amadores se confundem numa massa homogénea.
Não há conquista sem comemoração. E “Coimbra 1111” não foi exceção: a conquista da cidade culminou num grande arraial, onde todos (mas mesmo todos!) dançaram, cantaram, sorriram e até se emocionaram. Isabel Craveiro não conseguiu esconder as lágrimas e reiterou que o projeto “superou todas as expetativas - as pessoas perceberam o que tentámos fazer. É uma alegria ver que se continuam a juntar para participar em projetos como este”. É possível afirmar que o teatro foi o principal responsável pela reconquista atual da cidade, reinventando o conhecimento que a maior parte pensa ser suficiente. No espetáculo, que também é festa, vê-se um mediador entre a cidade e a história. É ele o teatro - parte integrante e integradora de Coimbra.
Com Catarina Gomes






