O "sistemazito" teatral português em debate
Sexta, 25 de Junho de 2010
por Jonathan Costa
A inexistência de um estatuto do profissional do teatro e a ausência de uma rede nacional de teatros estruturada foram alguns dos problemas apontados no debate ocorrido hoje, 25, no Teatro da Cerca de São Bernardo. A sessão contou com a presença de vários directores de teatros e companhias teatrais
"É fundamental a existência destes encontros" no sentido de "chamar a atenção para a realidade do sistema teatral português e das companhias que não estão em Lisboa ou no Porto", assim como de "abrir o diálogo com os agentes do poder", salienta o director artístico o grupo "Escola da Noite", António Augusto Barros.
A falta de diálogo entre os grupos e profissionais do teatro com os "agentes do poder" abriu a discussão sob o mote "O sistema teatral português: financiamento e circulação da criação artística".
Para José Luís Ferreira, do Teatro Nacional São João (TNSJ), "as companhias e a relação destas com o Estado estão em crise". O representante do TNSJ confessa que o teatro "vive uma situação de sub-financiamento" e confronta-se com "um problema central", a indefinição da função/estatuto do teatro nacional".
"Os teatros nacionais deviam ser uma parte importante, nuclear no sistema teatral português", acrescenta José Luís Ferreira.
O sub-financiamento do TNSJ motiva "uma realidade que mais PEC ou menos PEC" não se pode evitar, " o TNSJ tem os dias contados, vai deixar de existir", defende José Luís Ferreira.
Já o director do Teatro Municipal da Guarda, Américo Rodrigues, realça que "não tem havido política cultural de apoio as artes devida e sistematizada", esta continua a ser "uma falácia do discurso politico".
O corte de 10% nos apoios financeiros concedidos ao teatro esteve também em voga no debate. O encenador Luís Miguel Cintra considera que o "corte de 10% empurra [os profissionais do teatro] contra a parede".
"O problema dos 10% tem de se juntar a outros porcentos que têm vindo a prejudicar a realidade do teatro em Portugal" e motivado uma "situação de desestruturaçao do tecido teatral", salienta o encenador Rui Madeira.
Já Júlio Cardoso, da companhia teatral Seiva Trupe, destacou a inexistência de um estatuto do profissional do teatro" como uma das principais dificuldades que o teatro português enfrenta e "aponta o dedo" ao ensino do teatro em Portugal. "Há uma grande diferença entre o professor de teatro e o mestre de teatro", realça.
A falta de "uma rede estruturada e estruturante"
José Luís Ferreira considera que a circulação da criação artística "é vital aos projectos de criação e essencial para o sistema teatral português.
O sistema teatral português é constituído por dois teatros nacionais - o Teatro Nacional Dona Maria II, em Lisboa e o TNSJ, no Porto - e pelas companhias teatrais. António Augusto Barros destaca o papel preponderante das companhias na "formação do tecido teatral português", tendo em conta que "são as companhias que têm dinamizado as suas cidades, abrindo-as a outros projectos" e contribuido para a "reabilitação de teatros, intercâmbios nacionais e internacionais e a construção de equipamentos".
Neste sentido, o director artístico da "Escola da Noite", recomenda "uma estabilização deste sector" através da "criação de um circuito teatral a nivel nacional". "É incoerente o Estado investir na criação e depois não investir num circuito do país para a difusao dessa criação", conclui.
Américo Rodrigues revela que uma rede nacional de teatros deve ser "uma rede estruturada e estruturante".
Citando o encenador português Ricardo Pais, António Augusto Barros defende que "nós realmente sentimos que estamos num sistemazito".
Contudo, "o teatro é uma casa grande que abriga muitas experiências e formas. Não podemos ter uma visão restritiva do que é o teatro e as suas fronteiras", realça o director artístico.






