O desporto a partir dos sessenta e cinco

Terça, 14 de Fevereiro de 2012

por Acabra .Net

Entre dentes que falham nos sorrisos de alguns, bigodes brancos e olhos polidos, há lugar para animação. Nos centros de dia que promovem atividades físicas aos idosos, multiplicam-se as estratégias de cativo dos utentes. Por Fernando Sá Pessoa

Desporto
A ginástica funcional que decorre nos centros de dia pretende melhorar os movimentos do quotidiano, contribuindo para a independência do idoso. Foto por D.R.

Não se admire quem assistir a uma aula na Cáritas Diocesana de Coimbra se ouvir o “tiro liro”, ou se vinte pessoas entoarem ordem para “pôr aqui o seu pezinho”. Não mais é do que dar música a pessoas que, fruto da idade, precisam dela para se motivarem. Iolanda Fernandes, professora no centro de dia da Cáritas, explica a sua fórmula, em que a parte humana adquire uma dimensão muito grande. No centro de dia Rainha Santa Isabel da Santa Casa da Misericórdia, a professora congratula-se: “começámos com sete pessoas e hoje temos vinte e quatro”. Às vezes, explica, “é preciso ir buscar os alunos à tasca. Mas veem”.

É ali, numa sala a meias com uma outra de fisioterapia, na Cáritas, que decorrem, semanalmente, duas sessões de desporto para pessoas da terceira idade. Com um espelho de vidro e rugas pela frente, não mais do que 20 metros quadrados servem a Iolanda e a cada um dos seus alunos para esticarem braços e pernas, prolongamentos da vitalidade no tempo. “São pessoas mais velhas e teimosas”, admite, mas a atitude tem de ser positiva. Pôr de castigo o utente por causa de uma conversa que não acaba, ou por um cantarolar que não obedece aos pedidos de moderação, tem que ser algo feito de forma especial. “Com as crianças mandamos um berro e elas calam-se. Aqui, manda-se de castigo. Mas a rir”, entende.

Fustigada pelos onze dias em que esteve em coma e durante os quais perdeu o marido, na sequência de um acidente de viação, a utente da Cáritas Maria da Graça Fernandes mostra a importância do fator mental. “Por causa do acidente, não consigo esticar o braço esquerdo. Mas este posso”, rejubila o olhar, acompanhado do respetivo movimento. Acima de tudo, explica Iolanda, procura-se proporcionar “satisfação com a vida”.

“Prevenção, controlo e tratamento de doenças”
A ginástica funcional que decorre nos centros de dia pretende melhorar os movimentos do quotidiano, contribuindo para a independência do idoso. “Prevenção, controlo e tratamento de doenças” são, para Iolanda, os três pilares em que assenta este tipo de dispêndio de exercício programado. O objetivo, nas palavras de Iolanda, passa por “aumentar a resistência cárdio-vascular, a flexibilidade, a agilidade e diminuir o tempo de reação”, com exercícios que envolvem a força e a tonificação muscular. Halteres e bolas medicinais não são só para jovens. Com um grau de dificuldade progressivo, explica a professora que esses instrumentos podem ser usados para a prevenção de problemas relacionados com a diabetes e com a hipertensão. “Primeiro a resistência, depois a força e, mais tarde, o equilíbrio”, concretiza, realçando que se procura fazer determinados exercícios que acompanhem, de forma geral, as variadas maleitas que importunam quem chega ao pós sessenta e cinco.

Profissão semelhante tem Noelie Sangiovo, função que desempenha no Ateneu de Coimbra, e para quem é necessário atender às “limitações de cada um”. Com a normalidade do hábito que faz o monge, afirma a professora formada na Universidade de Santa Catarina, no Brasil, que uma prótese de perna lhe faz “mudar o plano do exercício”.

Papel de coesão e integração social
Numa abordagem sociológica, Rui Machado Gomes, professor da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra, afirma que, pese embora o desporto ser “passaporte para a saúde”, existe uma inconsistência de estudos que mostra não “haver prova científica de que o exercício físico tenha contribuído para o aumento da esperança média de vida”. No entanto, outros dados apontam para “relações epidemiológicas entre atividade física e a menor prevalência de certo tipo de doenças”. O exercício poderá também ser encarado de outro modo. Se a imagem de um homem de cabelos grisalhos a dançar poderá não ser bem aceite, o professor explica que a arte performativa pode ser “usada como meio terapêutico”, pelo que, neste âmbito, ela poderá desempenhar um papel importantíssimo “na coesão e na integração social” neste ciclo da vida.

No que respeita às condições sociais do desporto em geral, Rui Gomes defende a ideia de que, de há um tempo a esta parte, os estados sociais se têm vindo a afastar da responsabilidade nessa área, “remetendo para o cidadão individual a responsabilidade de assumir essa gestão através dos seus estilos de vida”. Noelie Sangiovo confere a tal facto contornos pejorativos, sublinhando a falta de valor que se dá ao exercício físico em idades avançadas. Por vezes, refere, poder-se-ia investir mais em “projetos que promovam a prevenção de doenças, do que com o tratamento dessas, muitas das quais sem cura”.