O clássico que se mantém actual

Domingo, 27 de Junho de 2010

por Inês Silva

Após a exibição de George Dandin, o bar do Teatro da Cerca recebeu uma conversa informal com a equipa artística da Companhia de Teatro do Algarve. Houve ainda espaço para participação e discussão com o público

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A equipa da ACTA e o encenador Luís Vicente estiveram à conversa com o público Foto por Maria Eduarda Eloy

No penúltimo dia em que o Teatro da Cerca de São Bernardo (TCSB) acolheu o Festival das Companhias, foi “George Dandin”, adaptação do texto de Molière pela A Companhia de Teatro do Algarve (ACTA), que trouxe a palco uma controversa temática. Após o espectáculo, foi a vez de o espaço do bar acolher uma conversa com a equipa artística da peça, onde a controvérsia continuou.

Na origem do debate está o facto de George Dandin não ser, como superficialmente pode aparentar, apenas uma comédia de costumes. Como explica o encenador, Luís Vicente, este texto foi escrito “mais de um século antes da revolução francesa” e, no entanto, antecipa-a. Segundo o encenador, “há um apelo ideológico claro leninista-marxista” neste texto, o que levou Marx a estudá-lo e a fazer-lhe alusão “em concreto na referência à aliança de classes”, explicita o encenador.

“Achei este texto muito interesssante, porque através de de uma estratégia narrativa muito simples fala de problemas bem mais complexos”, explica Luís Vicente. O encenador referiu ainda que este é um “espectáculo simples”, destacando “o texto e seus aspectos e a plástica do espectáculo”.
O protagonista, Mário Spencer, conta que, na sua opinião, “há uma personagem que é elevada no espectáculo: o proletariado”. Quanto ao conceito plástico do espectáculo, o encenador explicou que a sua inspiração surgiu quando viu“um documentário sobre os novos-ricos do Soweto”. Mário Spencer, reforçou ainda que a ACTA apostou muito “na contemporaneidade, mesmo a nível dos figurinos”.

Sobre algumas opiniões divergentes que terão surgido na plateia quanto aos limites da adaptação do texto, Luís Vicente responde que “isto não é um trabalho com rigor histórico. É para falar de problemas actuais”. Uma conversa informal na qual houve espaço para a opinião e para uma melhor compreensão do texto clássico que, afinal, se mantém tão actual. “É um discurso espantoso”, rematou o encenador.