O Beijo

Quinta, 20 de Outubro de 2011

por Acabra .Net

Microconto por Luís Caminha

Obeijo
Chove imenso. Ainda é noite. Tenho medo. Foto por Ana Granado

 

Nem pestanejava; mesmo quando calmei a procura e me caiu um estrondo na cara, o gritinho no lugar do morto não soprou o seu lugar de esfinge.

A estrada corria-lhe silenciosa sob o artifício das mãos enquanto ao espelho da pala eu examinava se ardia.

Entretanto era Coimbra e a cem metros do fim um semáforo fechava. Olhei-a de lado, pesei quietude, concluí aquiescência, ajeitei-me para outro ensaio.

Já o carro arrancava, já eu dormia para não ter medo. Tentei despertar-lhe a boca. Sem resultado: não creio que tivesse havido beijo. A sua cabeça inclinou-se leve, é um facto, mas para que a avenida não fugisse; e o talvez respirado e húmido da viagem não indiciava luta nem abandono.

Voltei a encostar-me como se costuma, fixando o pára-brisas com perseverança, a dos mortos, a dela. No vaivém das escovas chovia como quando somos tristes.

Segundo estrondo, de novo sem arma. Largou-me à frente da porta, simpática como nunca, sorrindo, «adeus, até amanhã».
 

Uma semana depois, dentro do carro o silêncio continuava maior.

Imóveis. Carnudos. Procurei. Estrondo.

Chovia e já estávamos parados no semáforo triste. Foi, então, que percebi: os beijos não se roubam, negoceiam-se. Assim, arranquei o braço direito antes de sair e pu-lo no banco traseiro, «Guardas-mo?».
 

O braço faz falta mas eu quero muito encontrar o beijo. Além disso, há dias deu-se um pequeno desenvolvimento: ajudou-me a enganchar o cinto de segurança e até roçou a mão na minha.

Virei-me para o banco traseiro a espreitar se trazia o braço. Não, talvez estivesse na mala; portanto, só procurei o beijo ao pressentimento do semáforo.

Novo estrondo.

Chovia e eu era maneta. À despedida, pensei que não estava a dar o máximo. Por isso, arranquei a perna esquerda. «Guardas-ma?»

Chovia muito, estava triste como nunca, tinha pena de ainda não ter encontrado o beijo. Encostei-me à parede e fiquei a ver o carro afastar-se: parecia menos vermelho do que habitualmente, talvez por a chuva cair com muita força sobre o tejadilho.

Saltitei.
 

Ontem estive todo o dia à espera. Telefonei-lhe várias vezes mas só me responde uma voz a dizer que o número não está atribuído.

Que bom, ela ter subido comigo há duas semanas, antes de eu lhe ter entregado a outra perna.

Há pouco, faltou-me bexiga para mais uma gota. Apesar de já não ser tão difícil como a princípio, ainda custa muito arrastar-me até ao quarto de banho e sentar-me na sanita.

Daqui a pouco, deveria ir trabalhar. Mas ainda preciso de uns dias de repouso. Desconfio, também, que é mais fácil encontrar o beijo se ficar em casa, à espera de que ela mo venha entregar.

Chove imenso.

Ainda é noite.

Tenho medo.