Ericka Huggins - Ex-Líder do Black Panther Party

"Nós pensávamos que éramos imortais, e ainda bem!"

Terça, 14 de Junho de 2011

por Acabra .Net

Ericka Huggins apresenta-se de aperto de mão leve e de postura afável. Contudo, o seu discurso, ao reavivar memórias, segue um caminho sulcado pela erosão de uma América dividida. A vida da ex-líder do Black Panther Party (BPP), organização criada em 1966 que reivindicava a igualdade de direitos, é um percurso feito de clivagens. Aos 18 filiou-se no BPP. Aos 20 perdeu o marido. Três meses depois foi presa sem provas. Tudo isto depois de aos15 anos Martin Luther King lhe ter traçado o destino. Por vezes os parêntesis não chegam. Uma entrevista feita de [risos] e [silêncios]. Por João Gaspar e Fábio Rodrigues

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"Nós pensávamos e isso era o que assustava o FBI" Foto por D.R.


Quais são as principais diferenças entre ser-se afro-americano hoje e há 50 anos atrás?

[silêncio]

Existe uma diferença...
Sim, existe uma diferença. Quando fizeram essa questão lembrei-me da minha mãe que cresceu no sul dos Estados Unidos. Era um tempo em que não podias olhar para um branco nos olhos. O meu avô que foi tratado por “boy” até morrer. Ele tinha 75 anos, não era um menino. O Klu Klux Klan estava muito activo, era necessário estar muito consciente da vida e da morte onde quer que fosses. E não era só no sul. Era também a minha realidade quando morava em Washington D.C. Existiam alguns lugares onde não podia ir. Recentemente, em 2003, um homem negro no sul estava a caminhar numa estrada e algumas pessoas apanharam-no, espancaram-no e arrastaram-no com o carro até ele morrer. São fenómenos mais isolados mas ainda ocorrem. Contudo, também quero dizer que os meus filhos e netos podem ir a qualquer escola que queiram. É um processo contínuo e é assim que a mudança se processa. Mas penso que organizações como o Black Panther Party (BPP) deixaram um plano para a mudança. Tanta gente morreu… que teve um impacto no mundo. Sei que ainda há lugares que posso ir, mas onde não sou bem-vinda. Ninguém me expulsa. Percebem o que quero dizer?  Os resíduos estão todos lá. No governo houve pessoas que não queriam o Obama no poder por o considerarem racista. Sabem o que isso é? É uma projeção mental.

Foto por João Gaspar
Ainda assim pensa que o facto de Obama ter sido eleito é um sinal de que a mentalidade mudou?

É uma mudança do pensamento baseado no medo. Diria que há 20, 10 anos ele não teria ganho. Mas devido às bases que foram alinhadas no intervalo de 50 anos que referiram, as pessoas vêem, cada vez mais, que o racismo é irracional. Não existe na ciência ou em qualquer campo racional.

Como viu o Rally do Tea Party realizado no Lincoln Memorial no 47º aniversário do discurso de Martin Luther King Jr.?

Vi da mesma forma como vi o George Wallace a levar cães polícias e canhões de água para impedir crianças de integrar escolas públicas. É medo. É medo. É medo de ver um homem negro no poder - porque o Tea Party não surgiu antes da eleição de Obama.


Pensa que foi uma falta de respeito?

Claro! A intenção era faltar ao respeito. Isso é óbvio. Acredito que alguns deles pensaram que o Obama era uma anedota. As pessoas são mais discretas acerca das suas crenças racistas mas não as abandonaram. O racismo é sistémico. Está em todas as instituições da sociedade...

Outro episódio recente teve lugar quando o rapper Common actuou na Casa Branca e algumas pessoas criticaram as suas letras...
[interrompe] As suas letras antigas...

Exato, especificamente acerca de Assata Shakur...
E a Michelle levou-o na mesma [risos].


Pensa que esse medo tornou-se tão abrangente que afecta alguns valores democráticos fundamentais como a liberdade de expressão?

Penso que tudo afeta tudo. Penso que o George Bush disse e fez tantas coisas ridículas e prejudiciais... Viram o mesmo escrutínio? O escrutínio não existia. Mas quando o Obama entra e faz algo como trazer alguém à Casa Branca... Ele leva tanta gente maravilhosa à Casa Branca, não sei se já repararam: jovens poetas e artistas. Falaram disso nas notícias? Não.


Obama está debaixo de um escrutínio mais apertado...

[interrompe] Claro, por ser um homem de raça negra. Toda esta situação acerca do seu certificado de nascimento… Arnold Schwarzenegger não nasceu nos EUA e era o governador da Califórnia. Houve comoção? Não.


O que está na raiz dessa polarização da sociedade americana?

Porque os jovens como vocês ainda não foram ouvidos. Eu sei que vocês estão a falar e espero que continuem. Sei que os jovens dos EUA estão a falar acerca de tudo isto. Mas é um paradigma velho que está a morrer. E não quer deixar-se ir. Está a agarrar-se a vida até ao último suspiro. Por quase 300 anos os EUA tiveram escravos. A propriedade de seres humanos! A guerra civil americana foi travada para a manter. É por isto que o que vocês chamam de polarização, não é verdadeiramente polarização do povo. Temos de ter em conta que o Tea Party, embora perigoso, não representa um elemento maior e funcional da sociedade. Representam sim memórias escuras e escondidas na psique americana.

Portanto, não considera que o espectro político americano está dividido em dois grandes grupos…
Há um meio... Uma espécie de esquerda e uma espécie de direita…

Mas pensa que o debate político perde profundidade por haver alguma redundância na mensagem?
Isso acontece porque os media suportam as mesmas ideias a serem transmitidas. Se os media o fizessem de forma diferente isso seria uma grande ajuda. Isso acabaria com o “sim ou não” que vocês estavam a falar – a esquerda ou direita. Os mass media trazem a maior história pública e transmitem como se fosse a única. E há todo o tipo de gente ao longo do espectro político. Os media é que projectam a direita e a esquerda como coisas finitas. Muito do que recebemos nas noticias e cliché. A pior parte é as pessoas acreditarem. Particularmente, acredito que os americanos querem tudo rápido: “Digam-me. Digam me só o que é e nada mais”. Mas a realidade não é assim... Não de todo...

Com 15 anos começou a sua vida activa ao atender a Marcha de Washington. .. Quais as razões por trás de uma consciência social tão nova?
Cresci em Washington DC [risos]. Eu vivia no fundo da colina da Casa Branca. Quando ia até à zona Norte da cidade a paisagem social mudava. Eu perguntava aos meus pais porquê. Eu não tinha idade suficiente para perceber que tinha a ver com a Capital Hill, que as pessoas ricas se localizavam à volta do centro político. Depois eu percebi que isso não era totalmente verdade. Ainda nem compreendia o conceito de raça mas sabia que tinha alguma coisa a ver com a grande massa de pessoas dos bairros que eu frequentava. Havia pobres brancos, pobres negros e era tudo. À medida que me deslocava para o Noroeste era tudo branco. As casas eram diferentes, as ruas eram limpas de forma diferente, as crianças brincavam de maneira diferente. Era só diferente. Com os meus olhos de criança não percebia porque é que as crianças do meu bairro não tinham brinquedos.


E qual a importância da sua participação na March On The Washington quando tinha 15 anos?

Teve um grande impacto em mim porque apercebi-me do que se passava. “Ohh”, pensei para mim, “a pobreza está na raiz de tudo isto”. E havia qualquer coisa acerca de ser-se castanho. Havia qualquer coisa que precisávamos de defender. Eu estava tão inspirada… Nunca tinha visto tanta gente junta em lado nenhum por uma boa razão. Talvez um concerto ou evento desportivo mas não para melhorar a humanidade. Vinham de todo o lado e em todo o tipo de veículo. Alguns até foram a pé. Eram milhares e milhares de pessoas, sobretudo negros. E o Martin Luther King foi tão... (silêncio)... ainda que estivesse a falar alto por se dirigir a tanta gente, ele foi tão pacífico e apaixonado que tocou o meu coração…


O que fez no resto do dia?

Na viagem de regresso de autocarro eu pensei sobre o que vi, ouvi e senti. Mas enquanto estava lá, fiz um voto para servir a humanidade para o resto da minha vida. No caminho para casa no autocarro ia a pensar nisso: “não posso viver a minha vida sem fazer nada em relação a isto”.

Isso levou a que com 18 anos...
[interrompe] Isso levou-me a continuar a procurar alguma coisa que eu pudesse fazer. Fui para a Universidade de Lincoln (UL) onde a organização de estudantes negros era mais forte. Também onde Stokely Carmichael e o Charles Hamilton estavam a escrever o livro Black Power. Isso despertou algo em mim. Não o livro, mas a ideia de que havia tanta boa gente a fazer estas coisas todas. Foi também no campus da UL que conheci John Huggins, que se tornou meu querido amigo e mais tarde o meu marido. Mais tarde li um artigo acerca do Huey Newton numa revista underground. Decidi deixar a universidade no meu ano de caloira, atravessar o país e juntar-me ao BPP.

Essa revista foi a primeira experiência com o partido?
A primeira experiencia foi com essa revista. O artigo sobre o Huey Newton falava da forma como ele foi preso por matar um polícia. Que havia algo errado com a forma como ele tinha sido tratado. Falava que ele tinha começado uma organização, que o Newton chamou de BPP. Eu pensei: ´´É isto!” (silêncio). Não sei porque pensei ou como soube mas soube.

E qual foi a primeira coisa que fez dentro do partido?
Eu e o John conduzimos ate L.A. Quando encontrámos a sede e disseram-nos: “Conseguem atender telefones, falar em nome do partido, lavar pratos ou ir para a educaçao política?” “Sim conseguimos fazer tudo isso” “Okay são membros do BPP”.

Nao muito tempo depois o seu marido foi...
[interrompe] Foi assassinado no campus da Universidade de Califórnia.

Ficou mãe solteira com 20 anos. Como é que isso influenciou a sua carreira ativista?
De uma grande forma. Levaria horas a explicar tudo mas é suficiente dizer que… (silêncio) se eu não tivesse uma filha bebé, ela tinha 3 semanas quando ele foi assassinado, eu desfazer-me-ia. Eu desfiz-me. Foi muito doloroso. Ele era o meu amigo mais querido e o meu marido simultaneamente. Mas lembro-me de pensar o quão importante era concentrar a minha atençao na vida que queria para ela e crianças como ela. E continuei porque senti que se o FBI podia escapar impune à morte do John Huggins e do Bunchy Carter [o outro membro assassinado], então eu queria ser uma das pessoas a falar disso. E foi o que fiz. Aliás, foi por isso que fui presa.

Foi acusada de assassinato, conspiração e rapto. De onde partiu a acusação?
Havia um informador do FBI a viver entre nós. Ele tornou-se testemunha do Estado no julgamento. Tentou incriminar-me a mim e ao Bobby Seal [membro do BPP].

Na altura houve muitas manifestações de apoio...
A professora que organizou o colóquio no CES, a Isabel [Caldeira], contou-me agora que esteve numa delas. Isso não é qualquer coisa? As pessoas vieram de todo o lado. E os estudantes de Yale! Oh meu deus! Eu acredito que eles foram parte da razão para que eu e o Bobby fôssemos libertos. Descobrimos mais tarde que a polícia de New Haven sabia que o homem ia ser morto mas não fizeram nada para evitar porque estavam a tentar matar o BPP.

Como é que uma mulher inocente se sente na prisão sabendo que esta inocente?
Foram 14 meses à espera de julgamento. A escolha do júri demorou três meses porque as pessoas eram muito parciais. New England, onde se realizou o julgamento, era muito conservadora. O nosso advogado, Charles Garry, teve que utilizar uma nova forma de questionamento para mostrar quais eram as visões deles acerca de raça, mulheres e lutas de libertação. Charles Gary era um mestre nesse aspecto. Querem que vos conte uma história engraçada?


Por favor…

O Charlie estava a entrevistar um agricultor de Bridgeport, no estado de Connenicut, vamos chamar-lhe Mr Johnson, não me recordo do nome dele. A meio da entrevista, o Charlie pergunta: “então e o que pensa do BPP?”. O Mr Johnson ficou muito reflexivo e diz: “Bem eu penso que eles são tão bons como qualquer outro grupo de motards” (risos). O pobre do Mr Johson não sabia o que se passava. Mas era assim, uma fatia... foram três meses magníficos. Foi como ver um espectáculo sobre o povo americano. Toda a gente que vinha para a cadeira era uma fatia de vida. Finalmente acabámos reuniu-se um júri não muito imparcial. Contudo, na deliberação havia duas pessoas que continuavam a suspender a decisão do júri. Ao que uma das mulheres pegou numa cadeira e ameaçou: “se não os libertas levas com esta cadeira!”. O segurança teve de intervir. Quando voltaram da segunda vez sem deliberação, o juiz disse: “acabou” (silêncio). Mas o meu tempo na prisão e as acusações contra mim assassinato... Eu conhecia o homem que foi morto. Eu culpei-me por isso durante muitos anos. Pensava: eu podia ter conseguido evitar. Porque é que não evitei? Continuava a esquecer-me de que havia forças superiores a mim a actuar. E depois fiquei separada da minha filha durante dois anos. E isso afectou-me de um modo terrível. Até porque eu não a abandonei, mas abandonei. Eu não estava lá. O seu pai também não estava lá. Foi então que eu aprendi a meditar para manter a sanidade dentro da prisão. Eu tive a oportunidade de explorar quase todos os aspectos de humanidade e da minha relação com ela. E valorizo a minha experiência na prisão por isso. Especialmente quando eu estava na solitária, reflectindo sobre a minha vida, até porque eu apenas tinha tempo, nada mais.


Esse tempo na solitária, obrigou-a a abraçar essa meditação e mesmo yoga?

Sim. Eu estava tão triste: o John ser morto e depois dobrem a isso à minha filha ter sido retirada de mim por eu estar na prisão. Eu sabia que não aguentava se não fizesse algo que acalmasse a minha mente e o meu corpo. O Huey, quando eu saí, disse-me que fazia o mesmo quando era atirado para o buraco, que é pior que a solitária: é um quarto com um buraco para mijar e cagar. Ele disse que apenas meditava, foi assim que conseguiu aguentar.


E a violência que está ligada ao BPP, como os violentos confrontos com a polícia, nunca se sentiu insegura, ameaçada?

Sim. Sempre. Sempre me senti ameaçada. Quando vejo um polícia no retrovisor, o meu corpo tem essa memória de estar sempre sob vigilância e sob ataque. O Hoover era um homem demente, louco.


Nunca pensou em abandonar o partido?

Não. Deu-me vontade de lutar mais. Eu soube que era aquilo que eu deveria fazer da minha vida. Sim… [silêncio prolongado]
Alguns críticos acusaram o BPP de ser um Klu Klux Klan invertido.
Isso lembra-me de chamarem-me o Obama de racista.


Também acha que são os media que forçam essa opinião?
As imagens mostradas são de forças paramilitares, de homens pretos de casacos de cabedal negro e algumas vezes com armas, sempre descarregadas, mas pronto. O que é que o público branco vai pensar? E o que é que o público negro vai pensar? A comunidade afro-americana ao ver aqueles negros armados sentia-se orgulhosa porque viam uma reviravolta.


Era o uso do direito de ter posse de arma…

Exactamente! Era usual um polícia entrar com arma apontada a ti, arrombar a porta e ameaçar matar toda a gente na casa baseado na busca de um assaltante. Eles faziam isso. Assim, sem mais nem menos. Era como a filosofia das plantações: os mestres, os capatazes e os escravos. As comunidades tinham esse sentido de plantação colonial, onde a polícia era similar aos capatazes nas plantações.


O BPP acabou em 1982. O que é que este partido deu à América? É mais igual agora?

Não digo que seja mais igual, mas acho que o partido deu uma nova visão crítica. Mudou a língua. Mudou o termo. Power to the people. Isso é um termo do BPP.


Poder para toda a gente…

Sim. Significa, que as pessoas que não tivessem poder - poder para elas. Porque as pessoas no poder não abdicavam dele, e quanto mais protestávamos sobre isso, e defendíamos isso, cada vez mais o poder nos tentava esmagar. O Hoover disse um dia que o BPP era a maior ameaça à segurança nacional dos EUA. “Come on Jay! What?” Isso mostra o medo em que ele vivia. E também acho que ele tinha um fraquinho pelo Huey, mas isso é outra história (risos). Eles não sabiam o que fazer connosco. Eles não sabiam o que nós significávamos. Se aparecêssemos agora, denominavam-nos como terroristas. Não como um Klu Klux Klan. Porque estávamos a falar de mudar o sistema: “oh-oh, isso significa uma melhor redistribuição da riqueza”. Ao ler os memorandos do FBI apercebi-me de que eles nos queriam matar. Queriam abalar a nossa sanidade. E depois também disseram que nós não podíamos fazer isto só por nós, que teríamos influências comunistas da Rússia, China e Cuba. Claro, nós não podíamos pensar por nós próprios porque éramos negros. Nós pensávamos e isso é que os assustava!


Nunca houve um contacto com a Rússia ou a China ou a Cuba?

Não. Nós éramos amigos de pessoas em Cuba, o Huey esteve exilado em Cuba, e também éramos amigos da República Popular Chinesa, o Huey e outros foram lá. O Huey conheceu Ho Chi Minh e mandou-lhe uma carta a dizer que mandava pessoas do BPP para lutar ao lado dos vietcongs. Mas nós não éramos um partido comunista. Apenas acreditávamos em movimentos dos povos em todo o mundo.


Mas o BPP ainda está presente na sociedade?
Sim. Na história americana, na psique americana e no povo americano. Por exemplo, lembro-me de uma das antigas alunas da nossa escola de Oakland, fundada pelo BPP, que afirmou que foi aquela escola que lhe mostrou o tão bom que é ser uma pessoa negra. Porque ela não soube isso até chegar àquela escola. Por um lado é triste, porque esteve que estar no 4º ano para reconhecer que havia algo de bom em ser-se negro. E recentemente há um interesse sobre o BPP.


Mesmo estando o BPP extinto, o Programa de 10 pontos continua a ter uma aplicação na sociedade contemporânea?

As coisas que nós queríamos - o fim da brutalidade da polícia, melhores condições de habitação, educação que nos mostra a realidade acerca do mundo, liberdade de justiça e expressão - isso são coisas que ainda são precisas no mundo. Nós precisamos de lá chegar e ainda não chegámos. Não quero dizer nós, BPP, ou nós, o povo negro, ou nós, América, mas sim o mundo. É preciso levantarmo-nos, protestarmos e falarmos. Arriscarmos. Eu cheguei ao ponto em que arrisquei tanto que já não me sentia ameaçada. Nós pensávamos que éramos imortais, e ainda bem que pensávamos que não sabíamos que iríamos morrer, mesmo que pessoas à nossa volta morressem, mas continuávamos a arriscar, porque era o que tínhamos que fazer.


O 5º ponto do programa é sobre a educação. Qual a especificidade deste ponto para se ter focado nele no debate organizado pelo Centro de Estudos Sociais?
O 5º ponto é importante porque quando uma pessoa percebe a sua verdadeira natureza, para além da sua identidade como uma pessoa portuguesa, ou americana, quando se apercebe que nasceu com inteligência e com capacidade de usá-la para lutar, isso é poderoso. Nós podemos criar uma comunidade de mudança que não aceite aturar merdas, mentiras e opressão. Nós não estamos aqui para acatar aquelas ideias capitalistas de ter uma carreira, um carro e 2,5 filhos. Foi a educação que fez com que o Bobby e o Huey se sentassem e escrevessem o programa de 10 pontos em Outubro de 1966. O Bobby estava fodido porque o Malcom X tinha acabado de morrer e ele não acreditava nisso. Ele apenas estava louco e disse ao Huey: “temos que fazer alguma coisa! Eu não posso continuar a atirar a treta destas pedras!”. O huey respondeu: “nós devemos começar uma organização”. Então sentaram-se numa pequena mesa, no edifício da associação de estudantes, e com um pequeno pedaço papel escreveram o programa. E o resto é História.


Vários artistas da soul e do funk, durante os anos 60 e 70, associaram-se ao movimento de direitos civis. A música teve um papel fundamental?

Sempre que criávamos eventos para angariar fundos, inúmeros músicos apareciam para nos ajudar. E nós também tínhamos um grande impacto nas suas letras.


Como por exemplo em Gil Scott Heron, que morreu dia 27 de Maio e que se inspirava nos ensinamentos de Malcom X…

Sim! Eu estive no mesmo palco que Gil Scott Heron, ele estava a cantar Revolution Will Not Be Telivisied, acho eu, e eu li a minha poesia e cruzámo-nos no microfone. Eu lembrei-me desse momento quando ele morreu, porque quando nos cruzámos no palco tivemos um grande abraço em frente ao microfone. Era assim. Nessa altura, quando tínhamos esse movimento, nada era separado de nada. E assim era Gil Scott. E assim eram muitos  outros.


Gil disse que a revolução não seria televisionada. Pode ser tweetted?

(risos) Sim, o twitter pode ajudar. De cada vez que virmos algo de errado a acontecer, podemos fazer um tweet sobre isso. E ligamos as pessoas. Qualquer coisa pode ser usada para unir toda a gente. A Internet não precisa de ser apenas para escrever um artigo, ou conectar com amigos e entes queridos ou encontrar um namorado ou namorada. Pode ser uma organização de movimentos. É preciso haver uma rede de pessoas conectadas, ligadas aqui (mão no peito) e aqui (mão na cabeça). Contudo os meus alunos contam-me que se sentem separados, fracturados, isolados. E todos eles estão conectados electronicamente e digitalmente. Mas eles sentem, eles desejam algo similar aos anos 60 e 70. Eu consigo perceber isso…