(N)o imaginário eclético de Paula Rego

Quarta, 14 de Dezembro de 2011

por Acabra .Net

A decorrer desde 20 de novembro a 19 de fevereiro, na Casa das Caldeiras, está a exposição “My Choice”, de Paula Rego, que já passou por Cascais e pelo Porto, Por Ana Duarte e Margarida Fidalgo Pais

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Das 68 obras expostas, encontram-se duas da autoria do falecido marido da artista, o pintor Victor Willing Foto por Olga Juskiewicz

"Escolhi apenas aquilo de que gostei. Não escolhi imagens por causa do nome do artista ou por serem consideradas historicamente relevantes". É assim que a pintora Paula Rego descreve a exposição "My Choice", agora presente na Casa das Caldeiras, onde são exibidas obras da coleção do British Council – uma organização internacional que tem como intuito promover a inovação tanto nas artes, como nas ciências e, sobretudo, na língua -, escolhidas pela própria. A exibição começou por ter lugar na Casa das Histórias, em Cascais, e depois seguiu para o Porto, para a Fundação EDP.

Já em Coimbra, a Sala do Carvão foi o "gabinete de curiosidades" escolhido para acolher as obras selecionadas por Paula Rego. E o termo "gabinete de curiosidades" não vem ao acaso. Um dos curadores da exposição em Coimbra e professor do Colégio das Artes, João Maçãs de Carvalho, afirma que "é uma sala com uma tradição de exposições muito grande, com os Encontros de Fotografia em Coimbra". Com ele está António Olaio, também curador e professor do mesmo departamento: "imaginámos logo que ali seria o sítio indicado". Também o arquiteto João Mendes Ribeiro, que traçou a reabilitação do edifício, é – curiosamente – um participante ativo na conceção da exposição. "Apesar de ser um espaço multidisciplinar, é muito importante e interessante que se inaugure a Sala do Carvão como sala de exposições, ainda para mais com uma coleção notável da escolha de Paula Rego", refere o arquiteto.

A logística desta atividade coube não só aos curadores, mas também à reitoria da Universidade de Coimbra (UC). A vice-reitora para a Cultura e Comunicação, Clara Almeida Santos, explica que era interessante ter " uma componente ligada à universidade", o que distingue a exposição em Coimbra dos outros locais. Para isso, foi feito um workshop com alunos de Arquitectura, Design e Multimédia e Estudos Artísticos da UC e uma master class com um técnico de Londres (da British Council) e com o primeiro galerista da Paula Rego, Robert McPherson.

A singularidade da exposição em Coimbra
A exposição "My Choice" tomou um novo rumo em Coimbra, diferindo bastante das montagens em Cascais e no Porto e tendo, por ideia de base, a criação de um ambiente de ligação direta entre obras e público. António Olaio explica que, juntamente com José Maçãs de Carvalho, procurou montar uma "instalação de relação entre as peças, que fosse tão ou mais importante que a sua identificação". E o resultado traduz-se num ambiente de "sala de estar" , onde a disposição das várias pinturas, fotografias e desenhos remonta a um qualquer espaço doméstico preenchido com aquilo que de melhor o British Council possui, selecionado quase instintivamente pela pintora portuguesa. Também para João Mendes Ribeiro, a opção da montagem se revela "familiar": "parece uma espécie de espaço doméstico, tal como temos as imagens, as figuras e fotografias na nossa casa". Clara Almeida Santos reitera a particularidade da montagem em Coimbra – o tal "gabinete de curiosidades": pelo facto de a Sala do Carvão ser negra, a vice-reitora salienta a atmosfera envolvente, provocada por um"sentimento purificado, onde desfilam as personagens escolhidas por Paula Rego".

Também as opções da pintora foram comentadas. João Maçãs de Carvalho considera esta exposição como "uma escolha muito mais intuitiva do que propriamente curatorial" e afirma que a artista "não se preocupou em fazer uma exposição coerente" mas sim "uma exposição que correspondesse ao seu próprio imaginário". António Olaio partilha dessa opinião e acrescenta que estamos perante "novas leituras sobre as obras, profundamente marcadas pelo seu olhar forte".

"A escolha da escolha"

A exposição é acompanhada de sessões de debate, onde vários convidados das mais diferentes áreas têm a oportunidade de escolher uma obra e discuti-la com o público. A primeira teve lugar no dia 30 de novembro, com o arquiteto João Mendes Ribeiro como convidado. A próxima realiza-se a 11 de janeiro e a última a 15 de fevereiro. Estas tertúlias pretendem fomentar o interesse que a exposição faz suscitar nas pessoas que se deslocam à Casa das Caldeiras: "é muito interessante ver o que é que motiva as nossas escolhas e leva a uma reflexão sobre isso", comenta Clara Almeida Santos, deixando ainda o convite para a participação ativa neste tipo de debates e, sem esquecer, a visita à seleção de obras de uma das mais célebres artistas portuguesas.