No espelho do ginásio, reflexos de músculos e egos

Quarta, 23 de Novembro de 2011

por Acabra .Net

Entre as pessoas que vão ao ginásio, cresce o número daqueles que querem crescer. E crescem-lhes músculos, braços, peito e pernas. Nestas coisas, há sempre quem não se importe de dar a cara, não fosse esta uma questão de estética. O ferro a levantar auto-estimas. Por Fernando Sá Pessoa e Fábio Santos

Trinta
"O excesso de exercício físico e a apatia perante os mesmos são filhos da mesma cultura". Foto por Ana Filipa Silva

“Põe mais cinco”, ouve-se junto à estrutura metálica que serve para exercitar os ombros. O rapaz, que o diz ao colega, alterna o “puxa e relaxa” das manetas com suspiros de esforço. Recusa, por enquanto, falar. O objetivo primeiro é o conforto do espelho, quando este inflama reflexos de músculos e egos. Nos tempos que correm, como diz Tiago Gonçalves, instrutor no Nelson Gym, em Coimbra, “a imagem é uma mais-valia para tudo”. E, confessando-se praticante deste tipo de exercício, admite que, com o passar do tempo, se “torna num vício”.

Rui Faria, um dos fundadores da secção de halterofilismo da Associação Académica de Coimbra, autointitula-se, sem pejo, como “maluquinho dos pesos”. “Hei de vir de bengala”, diz, risonho, sobre o prazer que afirma ter quando faz musculação.

Olhar sociológico

A atração pelas barras de ferro, árvores carregadas de metal, também é estudada pela perspetiva sociológica. O professor catedrático na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (FCDEF), Rui Adelino Gomes, tem particular interesse, não fosse esta área objeto das suas investigações.

São “noções contraditórias”, observa. A atividade física, que se supõe ser típica das formas tradicionais de lazer, acaba por se transformar, não raras vezes, em excessivas cargas de peso para o corpo, próximas do desporto de alta competição. “Afastamo-nos, pois, de uma noção de bem-estar e saúde”, explica o professor, “aproximando o sujeito de uma ascese, ao invés de o aproximar do prazer”.

Praticante assíduo de musculação, Rui Faria diz ser “impensável” ir ao ginásio apenas duas vezes por semana. Refletindo sobre o assunto, admite que deveria, a certa altura, enveredar por um “regime de manutenção”. Porém, não é essa a realidade espelhada nas suas palavras: “gosto de ir todos os dias e de carregar um pouco mais”.

As razões são compreensíveis para o mais incauto observador. Os valores das sociedades contemporâneas legitimam, com normalidade, esta conduta de atividade física. Vivemos num tempo de “narcisismo social”, pelo que algum exagero “não pode ser considerado como comportamento desviante”, afirma Rui Adelino Gomes. “O excesso de exercício físico – vigorexia – e a apatia perante o mesmo são filhos da mesma cultura”, sintetiza o mesmo.

Falta de informação

Vem de há muito, dos tempos da Grécia Antiga, o culto do corpo. E, com o avançar do tempo, avançam os métodos. “Nós não descansamos antes de virmos treinar e, muitas vezes, nem temos a possibilidade de comer corretamente”, argumenta Joaquim Carvalho, trabalhador na indústria farmacêutica e praticante de musculação.

Sobre as doses diárias de suplementos alimentares que faz, esclarece que as “drogas ergogénicas que, ao contrário dos esteroides, não fazem mal, tomam-se antes e depois do treino”.

O problema, muitas vezes, é a desinformação. Por ser muita, o senso comum pode dar origem a sentenças de olhos vendados. Entre as proteínas e os esteroides anabolizantes, o caminho pode parecer curto. Todavia, diz quem sabe, são coisas diferentes, e as consequências distintas. Porque não apressar o alcance ao corpo perfeito, se nisso não houver perigos?

Os riscos dos esteroides

A dependência do ginásio é assumida por Joaquim, para quem o amor pelo ferro tem uma vintena de anos. Rodado nestas andanças, o quadragenário não deixa de alertar para os perigos de esteroides anabolizantes, que admite já ter ingerido: “podemos adquirir problemas ao nível hepático, renal, testicular, calvície, etc”. Contudo, recorda: “tornou-se viciante porque o meu ego obrigou a isso”. No fundo, há uma espécie de troca de estabilidade emocional, que reconhece ficar melindrada, por uma melhor aparência ou maior desempenho muscular. É fácil cair na tentação do aumento do corpo.

No entanto, é necessário saber destrinçar as coisas. Nem tudo o que parece é, e vermos um indivíduo robusto e definido, na rua, não é significa passar por alguém sem cérebro, por maiores que sejam os braços. As proteínas, garante Rui Faria, “não fazem mal”, desde que bem ingeridas. Quanto à toma de esteroides, prefere lembrar que “a última decisão é sempre da pessoa em causa”. Joaquim é mais taxativo: “não os aconselho”.