Grécia

Mandem-lhes deuses porque de políticos andam os gregos fartos

Terça, 19 de Julho de 2011

por Acabra .Net

São jovens, gregos, europeus, universitários e profundamente desencantados com o futuro. Numa altura em que a crise financeira na Grécia apresenta contornos de rutura social, A CABRA ouviu quatro estudantes gregos que são o espelho do descontentamento com a classe política. Depois de aprovados os sucessivos pacotes de austeridade, os problemas parecem não ter fim à vista Por Fernando Sá Pessoa, João Ribeiro e Camilo Soldado

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Adivinha-se que o novo pacote de ajuda será posto em cima da mesa e a reestruturação da dívida é um forte cenário a considerar Foto por D.R.


A Europa está a entrar num grande quarto escuro. A Grécia vai à frente e Portugal logo a seguir, a tentar não bater onde os helénicos já bateram, sem no entanto deixar de dar as suas quedas. É esta a crise da dívida pública europeia explicada para totós. E que não se leiam estes choques como mero adereço metafórico. O último ano tem sido rico em episódios de confrontos físicos quanto baste para os lados do Olimpo.
No final de junho o país parou durante 48 horas, na sequência de uma greve geral, a quarta deste ano. Cinco mil

polícias foram destacados para conter as manifestações na capital Atenas. Número suficiente, até à entrada em cena dos manifestantes mais extremistas, apetrechados com ‘cocktails molotov’. Mais um dia no berço da Democracia.

Na origem das convulsões esteve a aprovação de mais um pacote de medidas de austeridade, indispensável para o acesso a uma ajuda da afamada troika (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia), na ordem dos 28 milhões de euros. O quadro está longe de ser animador e, pior que isso, a austeridade poderá não ficar por aqui. Nos corredores de Bruxelas e nas palavras de analistas um pouco por toda a Europa, adivinha-se que um novo pacote de ajuda será posto em cima da mesa e a própria reestruturação da dívida, antes totalmente afastada devido à consequente saída da Grécia do clube do Euro, é agora um forte cenário a considerar. Nada disto será novidade, bastando passar os olhos pelos principais títulos da imprensa, sintonizar um bloco informativo radiofónico ou assistir a alguns minutos do noticiário televisivo. Mas o que representam todos estes números, gráficos, “ratings”, projeções e estatísticas para os jovens gregos? Daqui para a frente é dada a palavra àqueles que deram as primeiras quedas no quarto escuro da zona Euro.


Jovens descrentes em relação ao futuro
 

 

Persefoni Ririka está a terminar a licenciatura em Estudos Europeus na Universidade da Macedónia, em Salónica, a segunda maior cidade da Grécia. Contactada pel’A CABRA através do Facebook, a estudante de 22 anos mostra-se insegura em relação ao próprio futuro. “Será muito difícil encontrar trabalho e provavelmente não vou conseguir viver sozinha. Mesmo continuar a estudar será complicado e não encontro uma área que me permita encontrar emprego mais tarde”, explica. Uma possível solução poderá passar pela emigração, a exemplo daquilo que alguns familiares já fizeram para os Estados Unidos da América e para a Austrália.

A quebra acentuada do consumo faz-se sentir a várias escalas. Persefoni tanto dá conta de amigos que deixaram de fumar como de pessoas que não podem continuar a ter aulas de inglês ou de preparação para os exames pan-helénicos (de acesso ao Ensino Superior).

A estudante sugere uma alternativa ao rumo tomado pelo governo grego de aceitar as condições da troika, semelhante ao caso português: “a bancarrota”. “Afinal, na nossa vida quotidiana já nos apercebemos que estamos, de facto, em bancarrota”, justifica.

Na Grécia é já difícil falar de indignados ou de jovens “à rasca”. O problema é bem mais profundo. Há, neste momento, uma descrença quase total na classe política a aflorar no discurso dos jovens gregos que não se inibem de a demonstrar. “Ver pessoas que nos mentiram e tiraram partido da situação é algo que ninguém pode tolerar”, desabafa Persefoni, ela própria participante em algumas manifestações em Salónica. A estudante não se mostra confiante nas capacidades dos responsáveis políticos em retirar o país da situação calamitosa em que se encontra. Este sentimento generalizado é o preço a pagar num país cujo governo, em 2008, encobriu um défice orçamental duas vezes superior ao que era do conhecimento público.

É também na conduta dos sucessivos responsáveis políticos que Georgia, estudante do segundo ano de doutoramento em microbiologia na Universidade Nacional Capodistriana de Atenas (UNCA), encontra a causa para a penosa situação económica e, consequentemente, social. “Os crimes económicos cometidos por quem quer que tenha tido hipótese durante as últimas duas décadas são demasiado graves e nem agora os responsáveis vão pagar por isso”, assevera. Parece que simplesmente “as pessoas aprenderam a conviver com a corrupção”.

A estudante de 25 anos revela que o próprio pai não recebeu o salário de um ano de trabalho e que o pequeno comércio do seu bairro tem vindo a fechar. “Até mesmo as lojas do centro de Atenas estão a encerrar”.
Aimilia, finalista da licenciatura em biologia na mesma universidade, foi afetada de semelhante forma quando viu a pensão de reforma do pai ser-lhe retirada. No entanto, apesar do previsível descontentamento em relação às medidas tomadas, a estudante de 22 anos não participou nas ações de protesto, por considerar “que não servirão para nada e que lhes faltam organização e propostas”.

Opinião diferente tem Minos, que trabalha no mesmo laboratório da Faculdade de Botânica da UNCA que Aimilia e Georgia, como comprovam as quatro presenças nos protestos na Praça Sintagma. No passado dia 29 de junho, a estação de metro Evangelismos, perto da praça, serviu de ponto de encontro para o grupo que o jovem de 21 anos integrava tentar cortar o trânsito “de forma pacífica”, garante. No entanto, a ação foi travada por aquilo que o estudante do terceiro ano de biologia na UNCA qualifica como “um ataque das forças policiais”. “Notei que não há respeito pelas vidas dos cidadãos nem pela sua liberdade de expressão”, lamenta.

Mais uma vez, a descrença na classe política está na base do descontentamento que, segundo o mesmo, “deixou a população face a uma dívida causada por jogos políticos”.

À exceção de Persefoni, os restantes estudantes gregos preferiram não revelar os apelidos.

Se o pai de Georgia está sem salário há um ano e o pai de Aimilia ficou sem pensão, o pai de Minos não foi poupado ao desemprego (atualmente a rondar os 15 por cento da população). “Desde então, fomos obrigados a cortar despesas: telefone e Internet”, explica. A viver em Atenas, pondera, no futuro, mudar para uma casa mais barata e partilhá-la com um colega. A emigração não está, igualmente, posta de parte, tanto para estudar como para morar.

De momento, “é verão e está uma acalmia estranha em Atenas”, observa Minos, mas “com o novo ano os problemas irão voltar e, com eles, o regresso das pessoas às ruas”. O quarto pode estar escuro, mas Minos não deixa de antecipar que “a noite é mais escura antes de amanhecer”. A referência ao último ‘blockbuster’ do Batman, “O Cavaleiro das Trevas”, talvez não seja à toa. Tudo leva a crer que salvar a Grécia da crise económica em que se encontra seja tarefa digna de um super herói.