(Cave)
Uma mesa. Um bar.
Um homem. Uma mulher.
Um espelho com empregado ao fundo.
A mulher é louca ao espelho: prepara-se para a caçada:
arranha cabelos, mascara cicatrizes, borrifa de perfume os lóbulos; descruza as pernas de renda; os lábios mudam de cor e idade.
A gordura é vício; a fealdade indecisão.
São duas e meia da manhã.
O gelo derrete nos copos.
O homem suspende. Avalia o redor.
A linguagem é imprecisa.
O vazio enche-se de copos.
As almas de vodka.
O homem cansado domestica o bigode;
sossega as sobrancelhas com saliva.
Esquadrinha um novo ângulo numa das patilhas e diz:
-Tenho sono.
A mulher responde:
-Ainda é cedo. Nenhum amor se deita para dormir.
Dentro do espelho, as bocas mordem-se sem sinal de sangue.
O homem levanta-se, sai.
A mulher louca cruza novamente as pernas.
O empregado assiste a tudo, impávido e transparente, enquanto limpa com um pano o bolor dos copos.
(Rés-do-chão)
Os livros fazem fazer coisas.
Divórcios, poemas.
O amor também.
Ele gosta de livros.
Ela gosta dele. Oferece-lhe livros.
Ele lê os livros que ela lhe oferece deitado no lado esquerdo da cama.
Ela não lê, antes medita:
Para que lado se deita o amor? Por qual narina respira melhor?
Ela levanta-se do lado direito da cama e veste o robe de seda púrpura.
Prepara-se para o afecto.
Ele continua a ler: prefere a carne e o odor forte de certas frases.
Adormece com o livro aberto a fazer o cume do coração.
Com a página 63.
Ela destapa-lhe o coração, lê uma frase aleatória.
Rasga, amarfanha, mastiga, engole.
Despe o robe de seda púrpura e veste o pijama com o cheiro a vésperas.
Algodão impregnado de monotonia.
Os livros fazem fazer coisas.
Divórcios, poemas.
O amor também.
(1.º B)
Não há como alterar a vida.
À janela, o velho acende o cigarro.
Puxa a morte para dentro dos pulmões.
O hábito manso.
Bate o indicador na boca acesa e a cinza cai sobre o canteiro de rosas. Diz:
O meu cinzeiro é o mundo.
(2.º A)
A noite cresce na cama zangada.
De costas voltadas. Ela, ele.
Respiram a fingir: dormir é aquilo.
Olhos adúlteros interditos por pálpebras.
Corpos quietos que doem nos lençóis.
A noite como competição.
Quem vence a maratona da insónia?
Ela finge melhor o sono. Engoliu a borboleta.
Ele respira grilos nos pulmões.
Ela move a tíbia esquerda. A omoplata.
Ele hesita no embate da pele.
Corpo a perdoar?
Ele roda a cabeça, tronco. Procura o hálito das abelhas.
A sua mão tenaz descobre as costelas dela.
Ela não tem dúvidas.
Os dedos dele: flores de penugem que vão mutilá-la.
(5.º C)
Vejam isto:
A mulher magra, que habita no quinto andar, um apartamento com escassa mobília, inicia um choro.
O espadarte ficou salgado?
As unhas pintadas de azul não combinam com os sapatos?
Esqueceu-se de comprar o amaciador para a roupa?
O cão da vizinha perturbou-lhe o sono?
A mulher magra desconhece a razão concreta.
Sabe do que precisa.
Era o que mais faltava.
Esperar que os dias nos ofereçam uma razão concreta para um acontecimento.
A mulher magra chora.
Corridos cinco minutos o nível do pranto já chega aos rodapés.
10 centímetros.
Se a mulher magra não encontrar a razão concreta, dentro de meia hora a enchente alcançará as gavetas.
76 centímetros.
Depois os armários.
Dentro de uma hora a sirene do carro dos bombeiros ecoará por todo o bairro.
Uma inundação, alguém gritará, num rés-do-chão.
Mesmo aí, a mulher magra, não cessará.
Arregaçará a saia, subirá ao tampo da mesa.
Insistirá no choro.
Era o que mais faltava.
Esperar que os dias nos ofereçam uma razão concreta para um acontecimento.






