Lote 19

Quarta, 23 de Novembro de 2011

por Acabra .Net

Microconto por Sandro William Junqueira

(Cave)

 
Uma mesa. Um bar.
Um homem. Uma mulher.
Um espelho com empregado ao fundo.
A mulher é louca ao espelho: prepara-se para a caçada: 
arranha cabelos, mascara cicatrizes, borrifa de perfume os lóbulos; descruza as pernas de renda; os lábios mudam de cor e idade.
A gordura é vício; a fealdade indecisão.
São duas e meia da manhã.
O gelo derrete nos copos.
O homem suspende. Avalia o redor.
A linguagem é imprecisa.
O vazio enche-se de copos.
As almas de vodka.
O homem cansado domestica o bigode;
sossega as sobrancelhas com saliva. 
Esquadrinha um novo ângulo numa das patilhas e diz:
-Tenho sono.
A mulher responde:
-Ainda é cedo. Nenhum amor se deita para dormir.
Dentro do espelho, as bocas mordem-se sem sinal de sangue. 
O homem levanta-se, sai. 
A mulher louca cruza novamente as pernas.
O empregado assiste a tudo, impávido e transparente, enquanto limpa com um pano o bolor dos copos.
 
(Rés-do-chão)
 
Os livros fazem fazer coisas.
Divórcios, poemas.
O amor também.
Ele gosta de livros.
Ela gosta dele. Oferece-lhe livros.
Ele lê os livros que ela lhe oferece deitado no lado esquerdo da cama.
Ela não lê, antes medita:
Para que lado se deita o amor? Por qual narina respira melhor?
Ela levanta-se do lado direito da cama e veste o robe de seda púrpura.
Prepara-se para o afecto.
Ele continua a ler: prefere a carne e o odor forte de certas frases.
Adormece com o livro aberto a fazer o cume do coração.
Com a página 63.
Ela destapa-lhe o coração, lê uma frase aleatória.
Rasga, amarfanha, mastiga, engole.  
Despe o robe de seda púrpura e veste o pijama com o cheiro a vésperas. 
Algodão impregnado de monotonia.
Os livros fazem fazer coisas.
Divórcios, poemas.
O amor também.
 
(1.º B)
 
Não há como alterar a vida. 
À janela, o velho acende o cigarro. 
Puxa a morte para dentro dos pulmões.
O hábito manso.
Bate o indicador na boca acesa e a cinza cai sobre o canteiro de rosas. Diz:  
O meu cinzeiro é o mundo.
 
(2.º A)
 
A noite cresce na cama zangada.
De costas voltadas. Ela, ele. 
Respiram a fingir: dormir é aquilo.
Olhos adúlteros interditos por pálpebras.
Corpos quietos que doem nos lençóis.
A noite como competição. 
Quem vence a maratona da insónia?
Ela finge melhor o sono. Engoliu a borboleta.
Ele respira grilos nos pulmões. 
Ela move a tíbia esquerda. A omoplata.
Ele hesita no embate da pele. 
Corpo a perdoar?
Ele roda a cabeça, tronco. Procura o hálito das abelhas.
A sua mão tenaz descobre as costelas dela. 
Ela não tem dúvidas. 
Os dedos dele: flores de penugem que vão mutilá-la. 
 
(5.º C)
 
Vejam isto:
A mulher magra, que habita no quinto andar, um apartamento com escassa mobília, inicia um choro.
O espadarte ficou salgado?
As unhas pintadas de azul não combinam com os sapatos?
Esqueceu-se de comprar o amaciador para a roupa?
O cão da vizinha perturbou-lhe o sono?
A mulher magra desconhece a razão concreta.
Sabe do que precisa.
Era o que mais faltava.
Esperar que os dias nos ofereçam uma razão concreta para um acontecimento.
A mulher magra chora.
Corridos cinco minutos o nível do pranto já chega aos rodapés.
10 centímetros.
Se a mulher magra não encontrar a razão concreta, dentro de meia hora a enchente alcançará as gavetas.
76 centímetros.
Depois os armários.
Dentro de uma hora a sirene do carro dos bombeiros ecoará por todo o bairro.
Uma inundação, alguém gritará, num rés-do-chão.
Mesmo aí, a mulher magra, não cessará.
Arregaçará a saia, subirá ao tampo da mesa.
Insistirá no choro.
Era o que mais faltava.
Esperar que os dias nos ofereçam uma razão concreta para um acontecimento.