Jornalismo, humor e morte no fim de tarde da Biblioteca Municipal
Quinta, 12 de Janeiro de 2012
por Ana Francisco
O jornalista, escritor e argumentista Rui Cardoso Martins foi o convidado de hoje, 11, das “Conversas ao fim da tarde”, na Biblioteca Municipal de Coimbra
Inconstante entre a linha que separa o humor da tragédia, o diálogo das “Conversas ao fim da tarde” de hoje, 11, abordou a obra literária de Rui Cardoso Martins, numa estreita ligação com a sua vida íntima. O ciclo de encontros, que se realiza na segunda quarta-feira de cada mês, tem por objetivo dar azo a conversas informais, partindo da experiência de vida de personalidades convidadas ligadas às mais diversas áreas.
As recordações da infância de Rui Cardoso Martins constituíram a inspiração para o seu livro “E se eu gostasse muito de morrer”. As mortes que presenciou, encaradas durante muito tempo como “normais”, surgem posteriormente como mote de uma obra que procura abordar o mistério por detrás delas. “Que tipo de terra é esta em que até o coveiro se mata?”, evoca, relatando um daqueles episódios. Em “Deixem passar o homem invisível”, uma espécie de epopeia dos subterrâneos de Lisboa – quando um invisual (ou invisível) cai num cano de esgoto - insurge-se contra a dificuldade que as pessoas têm em usar as palavras. Para o autor, “o cego é a pessoa que não vê”, oferecendo ao leitor uma perspetiva otimista perante as adversidades da vida. Confrontado com a associação do tema da obra ao “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago, o autor explicou que a sua intenção foi a de fazer exatamente o oposto: fugir à tendência de transformar a cegueira num debate político, abordando-a como doença e azar que é, sem tenção de camuflar a realidade.
Aquele que foi um dos jornalistas fundadores do “Público” (mantém a crónica “A Nuvem de Calças”, na revista “Pública”) cobriu o cerco de Sarajevo e Mostar, na Guerra da Bósnia e as primeiras eleições livres na África do Sul. Cansado, deixou o jornalismo. Acredita ter tido sorte em ter estado num jornal em que lhe era permitido escrever livremente.
A escrita literária veio “por arrastamento”, associada ao humor, permitindo-lhe “aprofundar assuntos sérios de uma forma falsamente ligeira”. Foi co-criador do programa “Contra Informação”, sendo argumentista fundador e sócio das Produções Fictícias. Escreveu para a “Conversa da Treta” e para o “Inimigo Público”. Foi também co-autor da série “Sociedade Anónima” da RTP e autor do argumento da longa-metragem “Zona J”. “A arte tem uma espécie de consciência do que vai acontecer depois” - o autor recorda momentos do “Contra Informação” em que, por meio do humor, foram antecipadas possibilidades que se vieram a verificar de facto.






