Investimento das secções no EUC não vale como argumento
Quarta, 09 de Novembro de 2011
por Acabra .Net
A decisão sobre o princípio de “utilizador-pagador” do estádio universitário de Coimbra continua a motivar discordâncias entre todos. Apesar do dinheiro que as secções desportivas usaram para a manutenção do mesmo, a medida vai avançar. Por Fernando Sá Pessoa
Em carta enviada à reitoria por Eduardo Melo, presidente da direção-geral Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) e do Conselho Desportivo (CD/AAC), são usados como argumentos os investimentos feitos pelas secções desportivas. “Cerca de 600 mil euros”, pode ler-se, é o valor que foi por elas gasto, só nos últimos cinco anos, na manutenção do estádio. Instado a comentar a decisão da Fundação Cultural da Universidade de Coimbra (FCUC), o membro do CD/AAC, Miguel Franco, não tem pudor em afirmar a postura contra a decisão tomada, que o seu organismo faz questão de manter. E lança mesmo a dúvida se “o estádio ficará a ganhar com isto”. Na referida carta, esta posição é fundamentada com a “ausência de apoio pela UC para o desporto universitário”, pelo que a decisão da FCUC é considerada “incompreensível”.
Não obstante o posicionamento do CD/AAC, é mostrada disponibilidade para ouvir a outra parte, pelo que é um Eduardo Melo compreensível aquele que diz entender “as necessidades de investimento” no estádio, ciente das “dificuldades financeiras” que a Universidade de Coimbra atravessa.
A coordenadora do pelouro do desporto da DG/AAC, Filipa Godinho, aproveita para deixar, também ela, a sua deixa na contenda. Este princípio não se pauta, para a dirigente associativa, por princípios de “justiça”, dado os valores que já foram pagos pelas secções para que o estádio se pudesse manter aberto. “Se ele, neste momento, tem condições que permitem a prática desportiva, é porque as secções têm lá estado”.
A vice-reitora para a Cultura da UC, Clara Almeida Santos, atual responsável pela FCUC, prefere dizer, no entanto, que o documento que vão propor “tem por base a efetiva utilização dos espaços, tem em consideração as especificidades das secções e a singularidade do desporto universitário”. Defende, por isso, “o trabalho em conjunto” e põe de parte eventuais “disputas”.
Manter o Estádio Universitário em funcionamento
Otimista, Clara Almeida Santos, principal rosto desta resolução, avança que a situação que até aqui se vivia era “insustentável e sem paralelo”, apontando o dedo à exclusividade deste caso relativamente ao resto do país. Responsável pela FCUC, a vice-reitora considera que não estão em causa os investimentos realizados anteriormente, mas sim o trabalho em conjunto entre a FCUC e as secções desportivas que deverá ser feito daqui para a frente, sustentando que a intenção é desenvolver um esforço para “benefício das mesmas”. Admite mesmo que “talvez se possam operar algumas melhorias no estádio”, em resposta a opiniões que visam a falta de qualidade das atuais infraestruturas e a possibilidade de esta taxa não se vir a traduzir em benefícios materiais.
Falta de diálogo e de informação
A respeito de uma suposta ausência de conversações, a vice-reitora defende-se, retorquindo que só ainda não houve reunião com as secções desportivas “por indisponibilidade de agenda do presidente da DG/AAC”, primeiramente e, numa fase posterior, por a própria ter-se ausentado do país.
Sobre a convocação de Eduardo Melo para a reunião onde foi votado o princípio “utilizador-pagador”, Miguel Franco lamenta que ela tenha sido feita apenas com uma hora de antecedência. E queixa-se ainda este membro do CD/AAC que nenhuma das outras partes foi ouvida, pelo que, na sua opinião, ocorreu uma “decisão unilateral”. No entanto, convidada a comentar a demissão de Miguel Portugal e de Jaime Carvalho do CD/AAC, assim como as declarações públicas destes sobre a falta de consulta prévia, Clara Almeida Santos assegura que esses “elementos foram auscultados exploratoriamente” e que Eduardo Melo também teve direito de voto.
Jaime Carvalho, taxativo, mantém-se firme, ao afirmar que “tudo depende da forma como as coisas forem feitas”. “Não foram ouvidas todas as partes”, garante.
“Querem pôr a AAC fora do Estádio Universitário?”
O presidente da secção de Ténis, Eduardo Cabrita, vai mais longe nas declarações que faz. Para o também membro da comissão de gestão do estádio universitário, as recentes declarações da vice-reitora, que dão conta da possibilidade de o estádio fechar caso as secções não cedam, são, ironiza, “engraçadas”. Numa alusão ao desporto a que está ligado, Cabrita diz que no ténis, muitas vezes, “é o adversário que provoca o erro”. Deixa, por isso, o alerta, ao temer “que tudo isto acabe numa grande salsada”. E diz ainda que é preciso perguntar: “quem é que está a ganhar com isto?”.
Lançando duras farpas à forma como as coisas estão a ser conduzidas, sublinha várias vezes o até agora quase total desconhecimento sobre aquilo que se está a passar, e aproveita para lembrar que, “dentro do estádio, não existe só a AAC, há outras entidades que a utilizam, como a Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física”.
Para começar no início do próximo ano civil
Já sobre o timing em que a decisão foi tomada, o dirigente desportivo adianta que os membros da fundação cultural “não foram, provavelmente, esclarecidos sobre o que é a realidade desportiva”. “Não é lógico”, completa Eduardo Cabrita, “que, num setor desportivo que funciona de agosto a jullho, virem propor alterações para as quais não estão preparados”. Miguel Franco lamenta que, até agora, ninguém fora da FCUC “tenha a mínima noção dos valores em causa”, mas lembra que “o que está decidido formalmente é o princípio utilizador-pagador entrar em vigor a partir de janeiro”.






