Imortalizar, teimosia de uma mente
Quarta, 14 de Dezembro de 2011
por Acabra .Net
"Forever Yours" e "Senhor dos Aflitos" - CAV - até 26 de fevereiro. Por João Valadão
Entramos no Pátio da Inquisição, viramos à esquerda para o Centro de Artes Visuais (CAV) e subimos ao primeiro piso. Oito atos em oito fotografias, interpretados por um homem e uma mulher, sucedem-se nos recantos das paredes. A exposição Forever Yours, da autoria de Pedro Medeiros, inclui-se na obra fotográfica que este tem vindo a fazer no projeto de Paulo Furtado, The Legendary Tigerman. A obra foi criada para acompanhar o álbum Masquerade, mas apresenta-se aqui de forma autónoma para permitir uma leitura descontextualizada do mesmo.
O conjunto de imagens encenadas têm por base a taxidermia humana - a paragem do tempo embate no espetador. As oito fotografias representam um ritual alegórico na qual o cadáver da mulher sofre várias operações, para no final se apresentar como uma peça de museu.
A exposição remete também para o caráter da sexualidade, um voyeurismo que "surge em todo o rito de enfatização escultórica e erotização do corpo feminino", nas palavras do autor. Surge então o desejo de preservar o corpo, guardar para sempre um ideal de beleza, imortalizar a paixão. É uma obsessão inconsciente que faz lembrar o psicótico Norman Bates, do universo cinematográfico de Hitchcock.
A fotografia, aqui, apresenta-se num paralelismo com a taxidermia, com o fim comum de tornar algo eterno, de ir além da morte.
No rés-do-chão do CAV, em conjunto com a exposição de Pedro Medeiros, encontramos O Senhor dos Aflitos. É uma mostra realizada a partir de um espólio de uma tipografia centenária da cidade do Porto. Na parede, o relógio marcou a hora de saída e nela o trabalhador deixou as luvas penduradas. Releva-se o percurso decadente de uma empresa, agora reduzida a um único trabalhador, onde noutros tempos mais de uma centena de pessoas lá ganhavam a vida. A vida diária deste homem, intercalada com diversos momentos monótonos, é mostrada ao visitante através do vídeo China. O trabalho, ainda manual, é intercalado com pausas repletas de melancolia. Essa paralisia realça-se com o som ambiente de uma bengala que bate imparavelmente no chão. Pelos corredores, espalha-se o material de trabalho tipográfico, desatualizado pelo tempo. Material inútil, vendido a sucateiros para prolongar um pouco mais a vida da tipografia. Noutra parte da exposição surgem fotografias, criminosos comuns, acompanhados de citações de um jornal popular do século XIX e desenhos simples que apelam à súplica ou ao castigo.
Um fracasso económico generalizado - o abatimento que se deu nas classes mais baixas da sociedade e a decadência urbana em que caiu o país e a cidade do Porto, em específico, é como fica o retrato que Pedro Medeiros nos deixa em O Senhor dos Aflitos.






