Grécia evita bancarrota, por agora

Terça, 14 de Junho de 2011

por Acabra .Net

Os planos de austeridade não têm impedido que a ameaça de bancarrota paire sobre os países europeus. Economistas consideram que os PEC devem voltar a ser analisados. Por Vanessa Alves e Bruno Monterroso

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Muitos aspetos dos diversos planos de austeridade europeus "estão errados e, portanto, têm que ser rediscutidos", diz José Reis Foto por D.R.


Na passada sexta-feira, a troika deu “luz verde” ao pagamento “no início de julho” da quinta tranche do empréstimo negociado com a Grécia, no valor de 12 mil milhões de euros. Em contrapartida, Atenas aceitou prosseguir o programa de austeridade, bem como acelerar as privatizações, segundo o comunicado conjunto da Comissão Europeia (CE), Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI). Pouco tempo antes, dia 24 de maio, o Ministro das Finanças grego, Yorgos Papaconstantínu, admitiu que o país “entrava em bancarrota”, caso não recebesse a quinta fatia do empréstimo total de 110 mil milhões de euros, acordado com a ‘troika ‘em 2010, mas que, tal como a aprovação do PEC grego, esteve até há pouco tempo em dúvida.

Como explica o diretor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), José Reis, “um país entrar em bancarrota significa que não consegue cumprir as suas obrigações financeiras para com todos os credores, tanto aqueles que emprestaram dinheiro, quer aqueles que emprestam serviços, ou que para eles trabalham”. Muito sinteticamente, “é não ter disponibilidade de tesouraria”, acrescenta. Nesse sentido, José Reis afirma que “se essa quinta tranche não viesse era um problema sério para a Grécia, ao causar rotura de pagamentos por parte do Estado, além de uma situação de reestruturação forçada e nas piores condições da própria dívida”. O docente considera que “nessa altura, tudo estará em causa”. Para contrariar este cenário, José Reis acredita que “a melhor alternativa é, de forma mais pacífica, reorganizar as coisas, isto é, reestruturar a dívida”.


Austeridade estrangula países mais frágeis

O economista Eugénio Rosa lembra que “existem dois conceitos diferentes: a renegociação e a reestruturação da dívida”. A renegociação, defendida esta semana pela ‘chanceler’ alemã, em relação à Grécia, “está mais ligada à redução das taxas de juro e ao alongamento dos prazos”, explica. Já a reestruturação “pode incluir também a redução da própria dívida em montantes a afixar”, tendo mais efeitos negativos para os credores que “perdem uma parte do capital que emprestaram”, acrescenta.

Contudo, a CE e o BCE têm-se mantido irredutíveis acerca de qualquer uma destas possibilidades, até porque, segundo Eugénio Rosa, “uma reestruturação na Grécia teria consequências em outros países como por exemplo, Portugal”. Assim, segundo José Reis, esta questão tornar-se-ia “ incontornável na agenda” desses países. De acordo com o diretor da FEUC, muitos aspetos dos diversos planos de austeridade europeus “estão errados e, portanto, têm que ser rediscutidos”. O docente considera, assim, incorreto “presumir que economias mais frágeis tenham que aguentar, para atingir certos objetivos, uma recessão, um crescimento negativo”.

Como tal, considera que “as soluções só podem ser criadas com crescimento económico, com emprego e com medidas de intervenção, designadamente políticas sociais”. Contudo, José Reis considera que estas soluções são “ainda mais difíceis de concretizar porque há uma convicção ideológica de que essas medidas são supérfluas ou até perversas”. Nesse sentido, considera que “as economias precisam de criar riqueza e de ter mecanismos que amparem as pessoas, as empresas, as próprias entidades e organizações que existem na sociedade a desempenhar um papel ativo”.

Semelhante opinião é partilhada por Eugénio Rosa, que considera que “as medidas de austeridade estão a estrangular as economias dos países mais frágeis, fazem com que estes se estejam a afundar numa recessão tremenda”. Com essa recessão, “não têm capacidade para pagar as dívidas”, logo, “a solução passará por deixar a economia crescer”, salienta. O economista critica ainda a União Europeia, lembrando que esta consegue dinheiro a um juro de 3 por cento, que empresta a diversos países a um juro geralmente acima de 5 por cento, obtendo assim “lucro à custa da situação difícil dos outros países”, facto esse que considera “inconcebível”.