Fio a fio, vai-se fazendo a tradição

Quarta, 14 de Dezembro de 2011

por Acabra .Net

Distantes do centro urbano de Coimbra, há pessoas que lutam para manter vivas tradições seculares. É esse o caso das tecedeiras de Almalanguês que, através da técnica única da tecelagem que exercem, constituem o maior centro de tecelagem manual da Europa. Por Ana Morais e Inês Amado Silva

Tecelagem
A tecedeira Lurdes Ferreira de Almalaguês mostra grande mestria no manuseamento do tear Foto por Ana Morais

Almalaguês será, muito provavelmente, um nome desconhecido de muitos habitantes de Coimbra. A localidade, situada a uns escassos 12 quilómetros da cidade, algo deslocada do eixo urbano e de difícil acesso para os que não conhecerem os percursos mais rurais, parece remetida para um outro tempo. Um tempo do qual se herdaram as tradições que distinguem a aldeia e que o próprio nome deixa antever. "Começar a falar da tecelagem de Almalaguês", explica o presidente da junta, Victor Costa, "obriga-nos a recuar à colonização árabe da Península Ibérica". O facto de a zona ser marcadamente rural e de pouca emigração contribuiu para que as pessoas "se tenham fechado em si próprias", como verifica o presidente: Almalaguês tornou-se, "ao longo do último século, uma aldeia muito isolada de Coimbra".

Desvantagem? O que é certo é que a tradição da tecelagem, ponto de maior interesse da aldeia, "mantém rigorosamente aquilo que conhecemos dos teares árabes e falar do tecer almalaguês é falar do que os árabes introduziram na península", explica Victor Costa. A tradição faz parte do dia-a-dia destas gentes, que continuam hoje a tecer conforme o modelo árabe, ao contrário do que aconteceu noutras regiões. Em tempos, a tradição terá sido bem mais acentuada – o tear servia não só para tecer, mas era lá também que os rapazes iam namorar as raparigas, que cantavam enquanto teciam.

Os mais velhos recordam aqueles tempos com alguma nostalgia, porque associados a este tipo de artesanato está uma cultura popular muito singular. O fundador da Sede e Museu Etnográfico e Folclórico "As Tecedeiras de Almalaguês", Joaquim Isidoro, conta que, antigamente, "tinha uma tia que tinha mais de 30 mulheres a trabalhar para ela todos os dias, porque ia à feira de Montemor de 15 em 15 dias". Recorda também a semeadura de linho que se estendia até Penacova - "tínhamos um lagar para fabricar o linho, mas foi morrendo, morrendo", lamenta.

Maior centro manual de tecelagem da Europa
Tão singular como a cultura em torno desta arte é a especificidade de técnicas e materiais. "O tecido feito no tear de Almalaguês é diferente do tecido de outros tipos de tear", garante a presidente da Associação Herança do Passado, Emília Pereira, para explicar que a técnica utilizada na freguesia é única no país. Maria de Lurdes Ferreira, de 64 anos, faz parte da direção d’ "As Tecedeiras de Almalaguês" e também ela é tecedeira. Enquanto demonstra trabalho no tear domina eximiamente um rol infinito de termos desconhecidos de quem não exerce esta arte: cabestilhos, tempereiros e lançadeiras, por exemplo, são objetos indispensáveis ao trabalho no tear.

Victor Costa revela que, em toda a freguesia, se encontram 127 teares ativos, considerando ativo aquele que tenha uma tecelã a trabalhar pelo menos duas vezes por semana. Este número contribui para que Almalaguês possa ser considerado o maior centro manual de tecelagem da Europa. Victor Costa salvaguarda ainda que "foi a medo que não se afirmou ser o maior centro manual do mundo" devido ao desconhecimento total da concentração de teares ativos nos países orientais.

São várias as ameaças que esta tradição enfrenta nestes dias: se, por um lado, uma delas parece vir do Oriente, como acredita Lurdes Ferreira, no entanto, a maior parece surgir no seio da própria localidade. Desde o 25 de Abril que se vem verificando "uma quebra enorme" da produção: com a melhoria das acessibilidades e da qualidade de ensino origina-se uma espécie de "êxodo das senhoras", como diz Victor Costa. "Nos últimos anos, tem sido uma necessidade imperiosa recuperar e reavivar a tecelagem", alerta o presidente, perante a ameaça do desinteresse das novas gerações.

Cristina Fachada é um exemplo raro no panorama atual da atividade: tem 44 anos, está a tecer há 32 e diz nunca ter procurado outra profissão "porque era isto que gostava de fazer". Antes de trabalhar por conta própria, trabalhou também em oficinas, mas quis poder ser mais criativa. Hoje, diz ter já "outro tipo de publicidade", inclusive um site onde divulga o seu trabalho, tentando "atalhar por outros caminhos": "é mais prático para os mais jovens", revela. No entanto, a tecedeira vaticina um futuro pouco risonho para a atividade: "para cima dos 25/30 anos, essas moças ainda sabem todas, mas para os 20 já não". "Neste momento", lamenta Cristina Fachada, "as casas têm o tear na mesma, mas não está a funcionar e os jovens não aprendem". A tecedeira afirma a sua vontade de continuar, mas não esconde a descrença: "depois da minha geração, acho que [a tradição] vai desaparecer".

Países nórdicos são uma possibilidade de mercado
Também Emília Pereira comenta este facto, e considera que o negócio não foge ao panorama atual e "está em crise". Ainda assim, a artesã sublinha a necessidade de se repensar o comércio da tecelagem de Almalaguês, mostrando a preocupação de se insistir na aprendizagem da técnica pelas gerações vindouras. É nessa linha que atua a Associação Herança do Passado, que se apresenta como "um local de formação", com a sucessiva realização de ateliers e workshops. Victor Costa conta até que a junta organizou uma formação com uma professora vinda de Lisboa que "não foi muito bem recebida pelas tecedeiras", pois consideraram a situação como "uma afronta".

Neste momento, todos concordam que o produto terá que se adaptar ao mercado. Emília Pereira afirma que os produtos ganham um contorno mais visível nas feiras e exposições de artesanato, e afirma que "é preciso ir ao encontro dos clientes", posição que Cristina Fachada reitera. Victor Costa antevê que o negócio ganhe um "futuro a nível internacional, nomeadamente nos países nórdicos", e Emília Pereira vai mais longe, assegurando que "a tecelagem de Almalaguês se adapta a tudo, portanto tudo podemos fazer". E sugere ainda: "dêem-nos as ideias que nós fazemos".