Excesso de antibióticos põe em risco a saúde pública

Terça, 17 de Abril de 2012

por Acabra .Net

Apesar da maior incidência de bactérias resistentes em ambiente hospitalar, a investigação da Universidade de Coimbra pretende analisar como estas se propagam pelas águas ou animais. Por Filipe Furtado

Uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra (UC) está a estudar as estruturas genéticas envolvidas na disseminação da resistência das bactérias aos antibióticos. O estudo incide no ADN que suporta os genes de resistência, transferidos de uma bactéria para outra.

O grupo de trabalho multidisciplinar, constituído por farmacêuticos, biólogos, técnicos de saúde pública e veterinários, estuda bactérias de origem hospitalar e ambiental. O trabalho analisa a virulência e a resistência de bactérias como a Klebsiella sp., Salmonella sp., ou até a Acinetobacter sp. e a Escherichia coli, com novas estirpes multirresistentes identificadas.

A coordenadora de pesquisas, Gabriela Jorge da Silva, realça a importância da investigação “para a compreensão do impacto na saúde pública da resistência aos antibióticos”. Tratar estas infeções tem um custo elevado: mais consultas médicas, prolongamento da hospitalização do doente, utilização de antibióticos caros e de uso restrito, acrescenta a investigadora, que enfatiza a “necessidade urgente de racionalização do uso dos antibióticos”.

A docente da Faculdade de Farmácia da UC (FFUC) alerta para as noções de resistência e de virulência que, mesmo sem uma relação direta, podem estabelecer-se na mesma estrutura genética. “Pode estar a selecionar-se bactérias resistentes e simultaneamente virulentas. Isso tem aparecido, mas felizmente não são muitas bactérias”, aponta.

“A maior percentagem de infeções por bactérias resistentes aos antibióticos ocorre ao nível hospitalar”, onde há doentes imunodeprimidos, pessoas submetidas a cirurgias e uso de antibióticos deste largo espectro bacteriano, que cobrem uma série de bactérias. O objetivo é também perceber “até que ponto as bactérias podem sair através de esgotos, das águas ou animais”, destaca Gabriela Jorge da Silva.

A resistência de bactérias aos antibióticos resulta da inativação do próprio, através de enzimas; pode ocorrer por uma diminuição da entrada do antibiótico na célula da bactéria, um bombeamento do antibiótico para o exterior ou até a alteração dos alvos do antibiótico, não permitindo a fixação na estrutura da bactéria.

As muitas resistências existentes resultam do uso “excessivo e inadequado dos antibióticos”, reitera Gabriela Jorge da Silva. Atenuar as resistências das bactérias implica conhecer as populações bacterianas mais comuns em cada hospital, para administrar os antibióticos correspondentes. É possível “fazer uma reciclagem de antibióticos”, isto é, após um certo período de tempo, substituí-los por outros. Segundo a investigadora, “não é cem por cento eficaz”, mas pode diminuir a taxa de incidência. A prevenção passa, também, por “dizer às pessoas que os antibióticos não são para tomar de qualquer forma”.

O combate à infeção por bactérias multirresistentes complica o cenário clínico e, em certos casos, os “médicos não têm alternativas”. São então utilizados antibióticos de uso restrito, não disponíveis para a comunidade, de largo espectro bacteriológico, que causam mais resistências. A outra hipótese é “associar dois ou três antibióticos e tentar que a pessoa reaja”, mas depende do sistema imunitário de cada um. Em última instância, a pessoa pode morrer ou ficar com sequelas graves.