Em palco: "Vulcão"
Quarta, 03 de Março de 2010
por Rafaela Carvalho
Custódia Gallego deu vida ontem,2, a uma personagem que levou a esgotada sala do TCSB numa viagem entre angústia, loucura e amor
A partir de hoje sim, Valete será feliz. Porque, enquanto navega numa angústia na qual diz que não sentir o chão e não sentir os pés “é tudo a mesma coisa”, a personagem interpretada por Custódia Gallego conta-nos como se libertou da trela e das algemas que ainda hoje, inconscientemente, a prendem.
“As coisas grandes fazem-se fazendo coisas pequenas” afirma Valete, e é isso que tenta fazer: remediar cada ponto da vida ignóbil que lhe pesa sobre as costas. Para isso será preciso matar os cães que uivam no exterior das quatro paredes a que parece estar confinada e libertar os segredos escondidos no interior do pinguim de peluche que herdou do filho que lhe roubaram.
Vulcão é um monólogo onde uma mulher solitária encontra em si a melhor forma de chorar as árvores que preenchiam o bosque a que chamava vida e que foram cortadas pela intempérie da fúria alheia.
O dramaturgo Abel Neves criou uma história que mostra como o amor pode matar numa casa de três inquilinos. Uma criança que nasceu cega, rejeitada toda a vida pelo pai, roubada da mãe e vendida para tráfico de órgãos. Samuel, um homem que mata cães depois de os fazer passar fome, viola a mulher e acaba por morrer na própria baba. E ela, Valete, a mulher que começa a dissertar, perante o vazio, sobre tudo o que perdeu.
“Uma pessoa antes de se perder, já se perdeu” diz Valete a certa altura citando o filho que gostava de trazer a lua no bolso. É esta mulher perdida e confusa num mundo que não é preto nem branco, mas sim cinzento como a roupa que traz agarrada ao corpo, que dá corpo a uma história violenta onde as palavras devem ser ditas de forma tão cruel como a realidade que exprimem.
“Vulcão”, encenado por João Grosso e exibido ontem, 2, no Teatro da Cerca de São Bernardo (TCSB), foi a primeira peça de teatro do ciclo “do monólogo, coisa pública” integrado na XII Semana Cultural da Universidade de Coimbra. Até Sábado, 6, o TCSB e o Teatro Académico de Gil Vicente acolhem mais quatro monólogos sempre às 21h30.
“Podem ver. Se quiserem, claro!” como nos dizia Valete algures na sua loucura angustiada.






