Em palco: "Calendário de Pedra"
Domingo, 07 de Março de 2010
por Rafaela Carvalho
Denise Stoklos encerrou ontem, 6, o ciclo "do monólogo, coisa pública" com a peça "Calendário de Pedra". Reflectir sobre a nossa própria vida deixou de ser um cliché e passa a ser uma obrigação
“Vamos acompanhar os anoiteceres e os amanheceres desta personagem para que você possa reflectir sobre o vosso próprio tempo” assim começa Denise Stoklos um peça que conta o quotidiano da actriz, o meu quotidiano e o seu quotidiano. Perante uma plateia repleta, a actriz brasileira cativou ontem, 6, os que se deslocaram ao Teatro da Cerca de São Bernardo.
Denise Stoklos esclarece logo de início que somos privilegiados por termos “pão, cama e um tecto” numa peça que faz o inventário das nossas vidas ao longos do 365 dias da nossa vida.
Neste “Calendário de Pedra” todos os anos são iguais. A nossa vida torna-se fútil e tudo o que fazemos é efémero. Os dias não passam de um conjunto de ressacas, birras, depressões, criticas e uns vagos sentimentos de felicidade. Somos mais infelizes do que satisfeitos porque nunca estamos contentes com nada e procuramos todas as desculpas para nada fazermos. “Quando estiver contente aproveite que dura pouco”, diz.
E a pergunta que devemos fazer a seguir é: “quanto do meu inconsciente controla o meu consciente?”. Quantas vezes realizamos as nossas actividades apenas por hábito?
Esta é uma peça que nos deixa ofegantes com a nossa própria vida, onde percebemos que viver cansa mas acabamos por nada fazer. A inutilidade de muito do que fazemos e da resoluções alternativas dos nossos problemas torna-se evidente.
Criamos constantemente estereótipos e estamos dispostos a comer aquilo que os iguais a nós pisaram. E descobrimos que já nada há descobrir a não ser os mistérios da própria vida. “O mundo cabe numa enciclopédia”.
Mundo esse onde só “existem três classes: a dos que têm muito, a dos que têm nada, e as do que estão devendo” e onde “uma pessoa sem se actualizar é nada, actualizada é um nada maior”.
E quando chegamos ao fim concluímos que é necessário desligar o “calendário de pedra” e viver o nosso tempo para que no primeiro dia do próximo ano nos levantemos da cama.
A lamentar apenas não poder voltar atrás em câmara lenta para pensar melhor naquilo que já fizemos.






