Em Palco: “3Fonseca”

Quarta, 23 de Junho de 2010

por João Ribeiro

O dia inaugural do IV Festival das Companhias contou com a última peça da trilogia “1José 2Rubem 3Fonseca” perante uma sala razoavelmente composta

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Num palco despojado de elementos decorativos, a palavra assume preponderância Foto por D.R.

Um grupo de oito pessoas numa típica reunião de auto-ajuda. Cada uma com os seus dramas pessoais e as suas dificuldades, evidentes para o público, ocultas para os próprios. Mas o desenrolar do encontro mostra, na verdade, um orientador tão ou mais perturbado que os seus ditos “doentes”.

Pequenas incoerências como esta que o escritor brasileiro José Rubem Fonseca é mestre em retratar. Foi a partir de um conjunto de contos do autor que a Escola da Noite, em co-produção com a Companhia de Teatro de Braga, adaptou para o palco em três espectáculos.

“3 Fonseca”, que marca o primeiro dia do IV Festival das Companhias, é o último da trilogia e vive, em grande parte, do monólogo. Há em toda a peça um poder enorme da palavra e uma assunção do actor como personagem, mas também como contador de histórias.

E que histórias são essas? Desde o pobre que planeou toda a sua vida com o objectivo de assassinar um rico, até ao rico que tem uma compulsão em atropelar pessoas aleatoriamente, Rubem Fonseca presenteia-nos com um retrato amargo, mas verdadeiro das sociedades modernas, dominadas pela violência nas suas mais diversas vertentes. São histórias que, apesar de tudo, não podem ficar arredadas da vida, “esse espaço de rotina cinzenta entre a vida e a morte”, como a certa altura dizem.

A “teatralidade intrínseca” de Rubem Fonseca
Do programa da jornada inaugural do festival, contou ainda com uma conversa entre encenador, actores e público, em que António Augusto Barros começou por revelar que a ideia para fazer “1José 2Rubem 3Fonseca” surgiu quando, no Brasil, lhe foi oferecido “Feliz Ano Novo”, “obra que chegou a ser proibida”.

Augusto Barros viu que “havia naqueles contos uma teatralidade intrínseca” que decidiu explorar. “Partimos de um conjunto de 30 contos porque era minha preocupação que os actores lessem a obra”, explica.

A opção pela manutenção do português do Brasil como forma de expressão dos actores tem, para o encenador, razão de ser, porque “nalguns casos ficava ridícula a adaptação e noutros perdia a piada, o sabor”. Ainda assim, “ninguém quis falar português do Brasil com sotaque, mas sim brincar com expressões brasileiras”, observa Barros.

Quanto ao conteúdo da obra de Rubem Fonseca, o director artístico da Escola da Noite encara-o como um “precursor” no tratamento da violência como questão central.