Em casa de ninguém
Quarta, 23 de Novembro de 2011
por Acabra .Net
Casas sem pessoas, pessoas sem casa; casas por requalificar e deixadas ao abandono de quem, um dia, já precisou delas. Toda uma lógica de abandono que assola a (s) cidade (s) e leva muitos dos seus intervenientes consigo, numa espiral contrária ao desenvolvimento que urge ser invertida. O fantasma do problema moderno das cidades paira sobre Coimbra. E mora nestas casas. Por Inês Amado Silva
Benilde Santos não diz a idade, mas diz que mora na casa em que se encontra há mais de 50 anos e que os seus filhos já contam mais anos que a estadia na casa. Benilde tem até idade para já ter morado no Arco da Traição, situado naquela memória a que agora se chama Velha Alta, onde, como diz, tanto gostava de ver os estudantes. Sobre a demolição que sobre ela se abateu, iniciada em 1940 para dar lugar à cidade universitária, Benilde não consegue formar uma opinião. Se, por um lado, gostava do sítio, aceita que tenha sido para benefício dos estudantes.
Ainda mora na Alta da cidade - agora, na Rua das Flores. A sua casa seria mais uma das muitas que por lá se amontoam, não fosse um azulejo que, alojado na cuidada fachada, exibe uma inscrição que a distingue: “Nesta casa, onde morou José Régio, nasceu em 10 de março de 1927 a Revista Presença” - uma homenagem da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), no mesmo dia em que eram passados 70 anos. Benilde não sabe o que aquilo significa: “na altura, fizeram obras [na fachada] e ninguém me disse nada, até tive que andar a comer fora”.
Enquanto isto, algures na rua paralela, umas mãos negras, com aliança, abanam numa janela. Pode dizer-se que está ali um problema entre mãos. É uma tira de persiana, solta, que alguém está a tentar desesperadamente reencaixar. E nem mesmo sobre todas as casas velhas, degradadas e que se mantêm erguidas apenas por suportes de ferro, casas que moram bem perto da sua, Benilde consegue formular uma opinião. “Se as pessoas têm as casas fechadas, elas é que mandam”. Até porque para tratar da sua casa, onde, por dentro, “estava tudo muito velho”, Benilde teve que pôr do seu dinheiro. Ao fundo da rua, cai, por fim, de uma altura de dois andares, o pedaço de persiana que parece não encaixar em lado algum, afinal. E com ela cai também o caixilho que a albergava.
Um plano urbano incongruente
Com a demolição de parte da Velha Alta, veio também um novo paradigma urbano para Coimbra. “Nessa altura davam casa em Celas”, lembra Benilde Santos, que, ainda assim, preferiu ficar pela mesma zona. O Bairro de Celas é só uma das construções feitas, à época, para albergar aqueles habitantes, onde ainda permanece o “bairrismo” que se levou da Alta.
Afirma o arquiteto José António Bandeirinha que “identificamos o património como aquilo que é a memória coletiva” - e talvez se justifique, assim, que aquele património seja já só uma memória. Hoje, os problemas da Alta continuam a ser patrimoniais, mas de um outro tipo. A sobrevivência vai-se fazendo pela proximidade à universidade e a Alta vai bebendo da cultura dos estudantes, mas as ruas contam a história do abandono que as casas vão vendo perpetuar-se.
Já a Baixa da cidade vive uma situação dramática, quase inversa. Desabitada e debilitada, ela é motivo de preocupação por parte de muitos e é o exemplo da problematização moderna da urbe: o abandono dos centros históricos e a fuga da população para as periferias, com todas as consequências que tal fenómeno acarreta.
Explica José António Bandeirinha que esta tendência, “fortemente acentuada nos últimos anos”, para além de levar a que as populações se fixem em zonas periféricas, “mal servidas pelas redes urbanas de mobilidade, esgotos, eletricidade ou energia”, quebra com o “protocolo urbano que é a urbanidade” e promove “o esvaziamento total dos centros”. “A verdadeira sustentabilidade está na forma como ocupamos os centros, na forma como nos aglomeramos, como gastamos menos dinheiro com densidade [populacional] ”, garante. E mais afirma não acreditar em quem hoje diz que a inversão deste processo será “natural”.
Mais que para a Baixa ou para a Alta, os números do abandono são alarmantes para Coimbra. Apesar de os dados definitivos disponíveis serem ainda os do Censos 2001, o vereador da habitação diz que no concelho de Coimbra existiam, então, cerca de sete mil 668 fogos devolutos – “creio que hoje serão muitos mais. Além disso, é muito provável que um número considerável de fogos esteja em risco de ruir”, assegura. “Há esta grande incongruência de um país com muitas casas vazias: os proprietários não cuidam dos seus bens”, lamenta Francisco Queirós. Situação mais grave verifica-se quando “algumas destas casas até nem estão vazias, estão em péssimo estado e vive lá gente”.
Prioridade: reabilitar os centros urbanos
Apesar de reconhecer que o problema se espalha “um pouco por todo o lado”, José António Bandeirinha é da opinião de que, em Coimbra, “com especial cuidado, o problema da habitação não está isolado do problema da cidade”. Os números falam por si: são quase três mil os edifícios construídos até 1919 e quase quatro mil entre esse ano e 1945. Só na Baixa da cidade, são perto de oito mil os fogos vazios e cerca de 180 os prédios muito degradados. “Quando estão em risco de ruir, a Câmara vai intervindo”, explica Francisco Queirós, uma vez que no domínio do parque habitacional privado as competências da CMC ficam reduzidas, e “só quando os inquilinos vêm queixar-se de condições de vida que não existem, e aí podemos obrigar a fazer obras coercivas”.
Ironicamente, um dos mercados diretamente relacionados com esta decadência é o da construção, que “agora abrandou, porque está em crise”, constata Francisco Queirós. Para o vereador, basta dar uma volta pela cidade para saber que, neste momento, “há muita casa nova vazia - sendo que nos loteamentos mais caros, nem tanto”. “É um pouco estranho este mercado imobiliário”, analisa, porque “a verdade é que se continua a construir, sendo que também não se veem grandes alterações a nível dos preços”. O mesmo se verifica nas situações de arrendamento: numa cidade em que 12 776 fogos se encontram arrendados ou subarrendados, grande parte deles por população estudantil, continuam a verificar-se “as rendas mais caras, pelo menos no centro do país”, assevera o vereador” – “não é por acaso que a população de Coimbra, nestes Censos, poderá baixar ligeiramente”, garante.
“A cidade está com problemas gravíssimos neste momento, porque apesar de se falar muito em sustentabilidade física dos edifícios, a verdadeira sustentabilidade vê-se na maneira como reabilitamos espaços e num plano territorial”, garante Bandeirinha. Assim, medidas políticas acentuadas de negociação das condições do mercado habitacional e de incentivo fiscal para quem queira habitar os centros revelam-se, aos olhos do arquiteto, essenciais para evitar um cenário de transformação, que parece aproximar-se: “será difícil que a cidade possa aguentar e manter-se como estrutura urbana que é e que sempre foi, há mais de dois mil anos”.
Soluções modernas para a Baixa
Na génese de uma possível solução está a Coimbra Viva – Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU), criada em 2007 com o intuito de intervir prioritariamente na Baixa. O presidente do conselho de administração da SRU, João Paulo Craveiro, declara que a prioridade é, neste momento, a recolha de financiamento para o Fundo de Investimento Imobiliário e a adesão de novos proprietários dos edifícios. O engenheiro explica que as alterações na lei da reabilitação urbana obrigaram a “refazer todo um trabalho”, e que os projetos em curso para as áreas de reabilitação que vão agora ser definidas – “desde a Rua da Sofia até ao rio e desde a Portagem até ao Arnado, grosso modo” – deverão estar prontos nos meses de fevereiro ou março.
“Estamos a fazer o tipo de reabilitação que vá chamar moradores novos para a Baixa”, afirma João Paulo Craveiro. Além disso, como a reabilitação da Baixa de Coimbra não pode dissociar-se de uma renovação do comércio, o engenheiro afirma “estar-se a falar com cadeias internacionais para que venham e estabeleçam os seus próprios pontos de venda, lojas novas nessa área”, aplicando o conceito de “lojas âncora, que só por si garantam um afluxo de clientes muito grande para as lojas à volta”.
Reabilitação como potencialidade
“Vivemos num país onde há muitas casas vazias e muita gente sem casa”, observa Francisco Queirós. O também responsável pela habitação social vê, na reabilitação da cidade, uma solução para o problema da falta de habitações da CMC, salientando ainda que a reabilitação, “numa cidade que se está a candidatar a património da humanidade, só faz sentido”, porque “a conseguir sê-lo, vai atrair muito mais turistas”. E ressalva ainda que “o património não é apenas os edifícios classificados, ou os monumentos: é a cidade em si que tem pessoas em prédios e em casas e tem cultura, e é preciso cuidar de tudo isso”.
Entretanto, os inúmeros gatos vadios, os ratos, os lixos, os vidros partidos, os escombros acumulados e a arte de rua continuam a ser rastos visíveis de uma cidade cuja memória e o que dela resta pedem mais cuidado.
Benilde Santos, que é originalmente do Lorvão, confessa sempre ter gostado da cidade. Em frente da sua casa está agora alojado um hostel, bom exemplo dinamizador da zona. “Antes, moravam aqui estudantes, e juntavam-se muitos num quarto porque a renda era de 20 escudos”. Benilde conhece os estudantes, tem estima por muitos dos que são seus vizinhos. Conta que, quando a casa em frente sofreu obras para se transformar num hostel, um deles voltou à sua velha residência e pediu para entrar. Quem estava nas obras terá questionado a sua intenção.






