Era então membro do júri do Prémio Casa de Las Americas, onde me tornei amigo de Mário Benedetti e de Lincoln Silva, poeta paraguaio, que mais tarde traduzi para português. Mas sentava-se ao meu lado, manifestando uma grande simpatia, uma rapariga de meia estatura, sempre pólo e jeans, que parecia cigana. Só os olhos, muito rasgados, diziam que ela era índia. Chamava-se Marília Hurtado. Houve uma manhã em que, acometido de uma enxaqueca, com vómitos e horríveis dores de cabeça, sem que os meus medicamentos me minorassem a dor, fui nadar para a piscina de água gelada, confiando no efeito da vasoconstrição. Marília seguiu-me sem eu dar por isso. Nadou também, secou-se e quis acompanhar-me ao meu quarto. Curei-me nos braços dela, amando-a, primeiro, com muito esforço, depois em triunfo, banhado de luz e felicidade.
Enquanto permaneci em La Havana nunca mais nos largámos de mão na mão, de olhos nos olhos. Até à dor da separação.






