Desunião dos docentes continua a marcar reestruturação dos saberes
Sábado, 26 de Junho de 2010
por João Ribeiro
A crítica aos cenários apresentados e as diferenças quanto à perspectiva a encarar a reestruturação marcaram primeiro debate temático, num Auditório da Reitoria muito longe da assistência máxima
O primeiro debate temático organizado pela Comissão da Reestruturação dos Saberes da Universidade de Coimbra (UC) teve como objectivo a resposta a duas questões, centrando-se na investigação. Por um lado, saber se se deve considerar a agregação de unidades de investigação, e, por outro, a criação de estruturas de articulação entre essas unidades.
Contudo, os intervenientes no debate focaram as suas atenções nos cenários decorrentes da primeira fase da reestruturação. O director da faculdade de Letras, Carlos André, foi o primeiro a usar da palavra e começou por criticar o diagnóstico feito na primeira fase, que a seu ver deveria ser mais concreto. “Se o diagnóstico fosse mais concreto, os cenários seriam outros com certeza”.
O director faculdade de Letras considera que “os problemas não se circunscrevem a Letras, Ciências e Economia” e mostra-se “descontente” e “desagradado” por a “Faculdade de Letras da UC ser a maior fornecedora”. “Letras aparentemente só tem coisas a mais”, ironizou, e deixa a sugestão: “por que é que o cenário não é a criação de uma Faculdade de Ciências Sociais e Humanas a partir de Letras?”.
A criação de uma faculdade de Artes, que englobe Arquitectura, Estudos Artísticos e História da Arte, é equacionada nalguns dos cenários apresentados. Carlos André sustenta que “se a UC caminhar para uma academia de artes performativas, estas não cabem na FLUC”, mas defende que “História da Arte se deve enquadrar na História e não na Arte”.
Em sintonia com o director da FLUC, Abílio Hernandez, docente da mesma faculdade, afirma haver alguns “silêncios” no documento em debate. E nomeia-os: “a Saúde e as Ciências Jurídicas”. E deixa o apelo para que se faça uma reflexão nessas áreas, pois “nenhum saber está fora do debate”.
Quanto à criação de uma unidade orgânica consignada às Artes, Hernandez defende que “não é possível dignificar as artes se não houver uma unidade autónoma”. “Quando o ensino das artes é diluído em estruturas mais vastas, estagna”.
Ainda em relação ao lugar das Artes na UC, a inclusão de Arquitectura numa unidade orgânica fora das Ciências e Tecnologias é defendida pelo actual director do Departamento de Arquitectura, António Bandeirinha. “Sentimos falta de presença administrativa, cultural e científica na Faculdade de Ciências e Tecnologias da UC”, lamenta.
Defesa de uma perspectiva de conjunto
Num outro tom, o director da faculdade de Farmácia, Amílcar Falcão, defende que “o debate tem que ser visto de cima, numa perspectiva macro”. Em resposta às intervenções anteriores, Amílcar Falcão considera que “não se devem apontar dedos sem se conhecer as situações”.
O director mostrou ainda preocupação para a coincidência entre a eleição do reitor da UC com o debate em curso e questiona: “como conjugar propostas com programas de candidatos contrários à reestruturação?”.
O presidente da comissão, João Carlos Marques, não se mostra preocupado com a situação levantada por Amílcar Falcão. “O trabalho da comissão é independente dos programas eleitorais e o Conselho Geral da UC fará do relatório o que entender, mas decerto será útil para quem quer que lá esteja ou seja reitor”, conclui.
Contrariando o rumo da discussão, a directora da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da UC (FPCEUC), Luísa Morgado, é da opinião de que talvez não haja necessidade de reformular unidades orgânicas e que a UC deveria apostar na interligação. “A reestruturar, que fiquemos com três ou quatro unidades orgânicas”, ironiza.
A sessão não contou com a presença do reitor Seabra Santos, mas o vice-reitor António Gomes Martins chamou a atenção para a metodologia que a reestruturação dos saberes deve seguir. As escolhas devem ser presididas por orientações estratégicas que a universidade deve definir, tais como a internacionalização, a relação entre ensino graduado e pós-graduado e o aumento de financiamento próprio, entre outras.
A única participação estudantil no debate, onde a Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra não se fez representar, coube a João Oliveira, da faculdade de Psicologia, que referiu a importância de “colaborações pontuais, subordinadas a temas abrangentes” para a ligação entre unidades de investigação.






