Democracia 2.0

Terça, 18 de Outubro de 2011

por Acabra .Net

Por Miguel Cardina, investigador do CES

Noventa e nove por cento. É com recurso a esta percentagem que os acampados de Wall Street se têm apresentado à sociedade norte-americana. Eles estão ali, diante do grande símbolo do poder da finança, para protestar em nome da imensa maioria que tem sido vítima da crise económica e financeira. No fundo, questionam o poder dominante enquanto privilégio de uns poucos para usufruto deles próprios. E lançam à democracia o desafio da sua regeneração. Por contágio, um enorme e maleável "99%" passava de mãos no 15 de Outubro lisboeta, replicando a mesmo ideia. Que num outro cartaz se explicitava assim: no mundo actual "a história do Robin dos Bosques está ao contrário".

É certo que existem diferenças substanciais nos protestos que têm ultimamente ocorrido. Na Tunísia, no Egipto e na Líbia as manifestações recentes contribuíram para mudar a paisagem política e instaurar regimes democráticos em países com um longo lastro ditatorial. No Chile, são os estudantes que tomam a dianteira, agitando bandeiras que ultrapassam o estrito domínio da educação. Nos Estados Unidos da América, o alvo principal é a finança. Na Europa, os revoltosos gregos, os indignados madrilenos ou a "geração à rasca" portuguesa afrontam um conjunto de medidas de austeridade que - legitimadas pela opaca e mal explicada "crise das dívidas" - ameaçam redesenhar a sociedade e o Estado.

No entanto, é possível encontrar pontos comuns neste novo panorama reivindicativo. O primeiro diz respeito à forte presença da juventude. Ela corresponde a um traço habitual nas contestações de natureza mais sistémica e faz eco, neste momento, da crescente precarização das relações laborais que atinge com particular veemência os mais jovens. O segundo aspecto concerne à crítica das elites políticas (apontando o dedo ao despotismo, à corrupção ou às privatizações) e económicas (contestando as desigualdades ou questionando o modo como esta crise financeira tem sido paga com o rendimento dos cidadãos). Por fim, todos estes movimentos – ainda que nem todas as suas componentes sejam imunes a um discurso populista que aduba terreno para o crescimento da extrema-direita – valorizam a democracia como algo que não se confina às instituições representativas.

De acordo como o antropólogo Alain Bertho, estamos diante de uma nova vaga contestatária, evidente no aumento da quantidade de motins. Em Agosto de 2011 eles já tinham ultrapassado o número registado em 2010, que por sua vez tinha assistido a mais do dobro das revoltas registadas em 2009. Como se mencionou acima, elas tanto correspondem a situações nacionais específicas como dão conta de características mais vastas. No fundo, a indignação generalizada que tem descido às ruas tem diante de si um desafio gigantesco: como pode a imensa maioria reinventar a democracia?