Coimbra volta a recuar no tempo
Sábado, 12 de Junho de 2010
A Feira Medieval de Coimbra, que este ano celebra o 19.º aniversário, voltou a ocupar a Sé Velha com música, personagens da Idade Média, comida, bebida e muitas tendas para os visitantes descobrirem
O dia começou cinzento, mas mesmo antes de a feira ser aberta oficialmente, já havia muitos turistas a passear pelo recinto da Sé Velha. Enquanto decorria a missa, davam-se os últimos retoques nas tendas, sem se vender nada, apesar do interesse de quem passava. As regras medievais, seguidas a preceito na Feira Medieval de Coimbra, ditam que só depois da benção se abra o comércio ao público.
Do alto das escadas da Sé Velha é proclamado o início da feira. O anúncio é selado com os trompetistas que fazem soar os primeiros sons musicais no recinto e uma salva de palmas de quem se aproximou para assistir. A partir de então o quadro ganha vida com pregões e grupos de música trajados a rigor que, com recurso a tambores, gaitas de foles, guitarras e uma espécie de flauta, criam música que tanto podia ser medieval como contemporânea, pelo ritmo rápido.
Por toda a feira, a maior parte das estruturas de madeira, cobertas com tecidos, alojam vendedores de comida, bebida e produtos agrícolas, mas não só. Chapéus de feltro, coroas de flores, jóias de prata, vassouras, desenhos com caligrafia medieval, tapetes, cobertores, sandálias de couro, botas de lã, cremes naturais, perfumes e muito mais pode ser encontrado nesta feira medieval.
Uma representação fiel
A vender um doce conventual em taças de barro está Helena Amado. Vestida com um traje religioso que lembra uma ordem monástica, a representante do Grupo de Teatro de Saltimbancos de Sobral de Ceira, participa há vários anos na Feira Medieval de Coimbra. Helena Amado explica que "para manter o rigor da feira, não existe artesanato à venda, porque na era medieval não era comum". Até mesmo a sopa feita e vendida pelo grupo de Helena segue a receita medieval: couve, grão e carne são os ingredientes que os cozinheiros deitam na panela de 50 litros.
O cuidado na recriação é visível em pormenores mais pequenos. Quem olhar com atenção apercebe-se de que produtos como, por exemplo, as batatas, que ainda não existiam na Europa na Idade Média, estão ausentes. Os embrulhos são feitos com folhas de couve ou papel pardo. Não existem sacos de plástico. Os ofícios representados também ajudam a criar um ambiente Medieval. No meio dos visitantes encontram-se tecedeiras a criar panos num tear, uma fiadeira com uma roca a trabalhar, um barbeiro e as suas fiéis perucas e postiços das mais diversas formas, o vendedor de flores que traz um burro a carregar os ramos para quem os quiser comprar, o ferreiro a dar forma às ferraduras dos cavalos e no "Tabeliam das Notas", em vez dos serviços medievais da "Loja do cidadão", os visitantes têm à venda penas que realmente escrevem.
Animação contagia visitantes
Para ajudar a transportar os turistas atrás no tempo não faltam cavaleiros que deambulam pela feira, mulheres com coroas de flores na cabeça, crianças com cestos de mantimentos que vão transportando pelo recinto, todos eles vestidos a rigor, como se a Sé Velha tivesse acabado de ser inaugurada. O leproso e a cigana vidente também estão presentes. Por um euro, porque, apesar da fidelidade à época, a moeda de troca não é o soldo, qualquer pessoa pode conhecer o futuro com laivos de humor.
Cyntia Fernandes é uma turista brasileira que visitou este ano, pela primeira vez, a Feira Medieval de Coimbra. Veio conhecer o evento a convite de uma amiga, mas afirma que "se soubesse como era vinha na mesma". Gostou "muito das barraquinhas com flores e da Caligrafia. Toda a feira está muito bem caracterizada e a música valoriza muito o evento. Até as pessoas [de fora] entram no espírito com esta animação", acrescenta, enquanto no recinto um grupo de actores encena danças medievais ao som da música tocada nos degraus da Sé Velha.
A feira prossegue até às 19h00 de hoje, 12. Mas até amanhã às 23h00 vão continuar a decorrer as actividades complementares, em frente ao Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, com o Mercado Mouro, o Acampamento Militar Medieval e o Parque Medieval, dedicado aos mais pequenos.






