"Coimbra vale mais do que uma passagem de um dia"
Terça, 13 de Julho de 2010
Pode ler aqui a versão alargada da entrevista ao presidente da empresa municipal de Turismo de Coimbra, Luís Alcoforado, publicada na edição 217 do Jornal A Cabra
Luís Alcoforado, presidente do Turismo de Coimbra, explica a oferta turística, as especificidades culturais da cidade universitária e o trabalho feito no âmbito da promoção de Coimbra nos mercados estrangeiros.
O que destaca na oferta turística da cidade?
Agora está um pouco na moda falarmos de tangível e intangível. A cidade tem um conjunto de roteiros com estas duas dimensões que podem interessar todo o tipo de pessoas que nos visitam.
Desde logo naturalmente o património. Se quiséssemos fazer, quase como no computador, uma pesquisa pelo património construído e pelo interesse que tem do ponto de vista arquitectónico e do ponto de vista artístico, naturalmente temos o Mosteiro de Celas, o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, a universidade e a Biblioteca Joanina, o edifício do Machado de Castro, a Sé Velha e Santa Clara-a-Velha. A cidade muralhada só por si já justifica uma visita. Há um conjunto muito alargado de património que vale pela qualidade arquitectónica e das obras de arte que guardam. E todo este património já é suficiente para que as pessoas possam visitar Coimbra. Se a isto juntarmos depois toda a alta e a baixa, que são ainda do ponto de vista de organização urbana muito medievais, ainda alarga mais o nível de interesse turístico.
Depois podíamos ter um roteiro de turismo religioso e aqui incluiríamos Santo António dos Olivais. Podia ser feita alguma sinergia com o Memorial da Irmã Lúcia e o Mosteiro das Carmelitas.
Também podemos juntar um conjunto de outras coisas. Coimbra começa a ter um espólio de arquitectura contemporânea, que começa a ser muito importante como motivo de visita de estudo e de interesse. Talvez o primeiro edifício com estas referências claramente contemporâneas seja o liceu José Falcão. Mas há também as obras dos grandes arquitectos portugueses: Siza Vieira com o Pavilhão de Portugal no Parque Verde, Gonçalo Byrne com vários contributos; a Casa das Caldeiras de José Mendes Ribeiro. Há uma intenção já discutida com algumas pessoas de começar a agregar esta oferta num roteiro específico, que possa criar vontade nas pessoas de se constituir com uma certa unidade e com uma certa identidade que valha a pena visitar.
Temos ainda toda aquela dimensão que normalmente relacionamos com o intangível. Tão importante como trazer as pessoas a Coimbra é criar-lhes motivos para que elas se emocionem e para que possam sentir-se felizes aqui. Se pensarmos, por exemplo, nos grandes escritores portugueses que passaram por aqui, vemos que estamos num sítio muito interessante. No campo da literatura temos a Casa da Escrita, central no neo-realismo português; a casa onde viveu Eça de Queirós, enquanto estudante de Coimbra; a Torre de Anto onde viveu primeiro o António Nobre e, depois, Edmundo Bettencourt com toda a importância que teve para a geração da presença e também para o surrealismo português na poesia; e na Portagem, o sítio onde Miguel Torga teve o consultório e que pode ser complementado pela visita à residência do escritor na zona dos Olivais.
Na música acontece o mesmo: na cidade podemos cruzar-nos com espaços onde algumas das pessoas mais importantes da música portuguesa como Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Edmundo Bettencourt tocaram, cantaram, viveram.
É um pouco disto tudo que podemos puxar em Coimbra.
Quando irá abrir a Casa da Escrita?
A Casa da Escrita está praticamente pronta. Os acabamentos demoram sempre um pouco mais de tempo. Mas pelo tempo previsível da obra, estará praticamente em conclusão e este ano poderá estar aberta.
Os roteiros que sugeriu vão ser incluídos no sítio Web do Turismo de Coimbra?
Nós estamos numa fase de estruturar os roteiros. A ideia é avançar um pouco, disponibilizando em formatos digitais estes roteiros de que estivemos a falar. Uma coisa que nos preocupou foi fazer um guia de Coimbra, que não havia e neste momento já temos um guia com informação muito detalhada organizado por zonas da cidade em quatro línguas. A partir daqui nós facilmente podemos fazer todos os roteiros que quisermos. Temos a informação toda, temos fotografias e agora é só termos imaginação para organizar os roteiros.
Tendo em conta toda essa oferta, como é que uma pessoa que esteja noutro país e que não conheça Coimbra a pode ficar a conhecer?
A divulgação é uma aposta e é-o dentro daquilo que obviamente são os recursos disponíveis para a fazer. Desde logo passando por ter informação atractiva na Internet, dispor de uma página oficial do Turismo de Coimbra que, em quatro línguas possa disponibilizar todas as informações. Depois, nos mercados de maior proximidade, é possível irmos às feiras a Espanha, a França, à Bélgica, ao Norte da Europa no próximo ano, e ao Brasil, que é um mercado que se está a revelar muito importante. Onde não podemos estar fisicamente presentes e promover o contacto, a ideia tem sido recorrer a publicações da especialidade e generalistas que possam levar esta ideia de Coimbra um pouco mais longe.
O Turismo de Coimbra trabalha em articulação com agências de viagens?
Nós procuramos, como é evidente. O mais importante é tentar demonstrar que Coimbra vale um pouco mais do que uma passagem de um dia e que vale a permanência de mais algum tempo das pessoas.
Muitas das pessoas que vêm em viagem não vêm exclusivamente a Coimbra e muitas das vezes estão cá pouco tempo. Como é que seria possível alterar esta situação?
Este turismo de grupos existe em qualquer sítio do mundo. É preciso tentar sensibilizar as pessoas e as agências de viagens de que vale a pena que as pessoas fiquem aqui mais que um dia. Nós tínhamos em 2004, uma média de permanência de um turista em Coimbra de um dia em meio e o objectivo seria subir a média desta permanência para dois dias. Mas este turismo existe em todas as grandes cidades e não deixa de ser importante. Agora, temos que o complementar e em Coimbra temos essa possibilidade com o turismo de congressos, que é um turismo que nos interessa muito.
Pode-se considerar que Coimbra é uma cidade de visitas sazonais?
Temos um problema claro de sazonalidade. Os hotéis de Coimbra estão em ‘overbooking’ de Maio a Outubro e depois estão um pouco mais libertos a seguir, dizendo eles que têm uma média de ocupação de 60 por cento, que já não é nada de desprezar.
Mas, no último ano, tivemos dois dados interessantes. Manteve-se mais ou menos o número médio de turistas que visitaram Coimbra, apesar da crise, se bem que muito à custa dos turistas espanhóis que aumentaram substancialmente, enquanto outras nacionalidades desceram. Contudo, os turistas espanhóis diminuíram na época alta e aumentaram na época baixa. O que significa que talvez esta aposta no país vizinho possa contribuir para equilibrar um pouco mais o efeito de sazonalidade há muito tempo detectado.
Por outro lado, vamos ter brevemente um instrumento que nos vai ajudar muito a combater esta sazonalidade porque vamos ter um espaço para grandes congressos, eventos científicos, exposições e espectáculos no Convento de São Francisco.
Qual é o perfil do turista que visita Coimbra?
Coimbra interessa mais as pessoas com interesses culturais um pouco mais vincados, tirando o caso do Portugal dos Pequenitos, que é um caso com especificidades muito próprias e que só por si já justifica toda a importância de um determinado perfil de pessoas: as famílias e as crianças.
Regra geral, a primeira razão para vir a esta cidade é por causa da sua universidade. A segunda razão é pela música de Coimbra que não deixa de constituir para nós também um motivo de reflexão, no sentido de podermos ter uma oferta ao longo do ano de que as pessoas possam usufruir. Com estas duas primeiras razões a serem apontadas e sabendo nós que a canção de Coimbra não é propriamente uma canção de tops e de hits ficamos também com alguma informação sobre o tipo de turista que nos procura.
A propósito da canção de Coimbra, há alguns turistas que têm dificuldade em encontrar na cidade sítios onde ouvir este tipo de música. São as pessoas que não sabem procurar os locais ou a informação não está disponível na cidade?
Se calhar as duas coisas, como acontece sempre. Mas vamos tentar emendar isso este Verão. Nós vamos ter um programa de animação que vai ser apresentado brevemente e também vamos fazer a divulgação em folhetos com quatro línguas para os hotéis. O objectivo dos folhetos é explicar o que é a canção de Coimbra em 12 linhas - o que foi um desafio – e onde pode ser ouvida. Nos anos anteriores, usámos a estratégia de fazer pequenas serenatas no início da noite num largo da cidade onde as pessoas praticamente chocavam. E, se é verdade que aparecia muita gente, continuava a haver pessoas que não sabiam que essas coisas aconteciam e também há a questão dos turistas, que estão nos hotéis mais afastados do centro, não saírem à noite. Vamos tentar tirá-los do hotel com esta informação especializada, tentando obviamente também valorizar espaços que ao longo do Verão oferecem canção de Coimbra às pessoas.
A cidade pode ser considerada barata para os turistas?
No quadro das cidades portuguesas Coimbra está longe de ser uma cidade cara, mesmo a nível de restaurantes. É um sítio onde se dorme em hotéis de qualidade acima da média, muitas vezes a preços muito aceitáveis. Parece-me que os preços praticados pela indústria hoteleira da cidade são muito aceitáveis.
Qual foi o envolvimento do Turismo de Coimbra na adopção do Tuk-Tuk pela cidade?
Conversámos sobre isso e contribuímos para o trajecto que o Tuk-Tuk vai fazer. Coimbra tem alguns problemas de acesso para alguns públicos e nós não conseguimos facilmente ter transportes públicos em todos os locais de interesse histórico e patrimonial da cidade. Termos esta complementaridade de ofertas do ponto de vista de transportes pareceu-nos interessante, podendo ser completadas por outras iniciativas que ajudem a transportar as pessoas, principalmente aquelas que têm mais dificuldade.






