Coimbra 1111 – um elo entre a cidade e o teatro

Terça, 03 de Maio de 2011

por Acabra .Net

Teatrão promove peça dinâmica nas ruas da cidade, aberta a improvisos e a reflexões acerca do estado atual de Coimbra, com participação ativa do público. Por Catarina Gomes e Ana Morais

Coimbra_1111
O projeto de teatro comunitário conta com mais de 100 participantes Foto por Carlota Rebelo

É com base em utopias e na história contrafactual que o Teatrão, companhia de teatro profissional de Coimbra, está a desenvolver uma peça a ser representada nas ruas da Baixa conimbricense, a tempo da comemoração dos 900 anos da cidade.

“Coimbra 1111” é um projeto criado por um dos núcleos do Teatrão, “Teatro e Comunidade”, que tem as suas raízes no teatro popular improvisado e que se inspira na ‘commedia dell'arte’. Esta peça surgiu na sequência do projeto anterior, “Peregrinações”, realizado em Montemor-o-Velho, e que, segundo a diretora artística do Teatrão, Isabel Craveiro, se revelou “um sucesso”. À semelhança do que aconteceu com este último projeto, a estrutura da peça foi pensada para poder ser realizada noutros anos e se tornar num chamariz para trazer pessoas à cidade.

“Nós não pretendemos passar a versão oficial [da história da cidade]. Nós pretendemos partir da versão oficial para criar outra possível e que até nos interesse mais”, explica a também encenadora. Um dos grandes objetivos é, portanto, a celebração e reconquista da cidade pelas pessoas de hoje, pelo público: “o espetáculo vai ao encontro das pessoas e vai contribuir para a animação de uma parte da cidade deprimida”, realça a Isabel Craveiro.

O exército árabe desembarca no rio Mondego para assaltar a cidade muralhada. Uma companhia de atores miseráveis, expulsos da cidade por terem composto um arremedilho  -género de teatro baseado em imitações de figuras públicas - demasiado atrevido, oferece ajuda aos mouros a troco de comida e dinheiro. Assim começa esta viagem, que parte da beira-rio, ao cair do dia, e que termina na Sé Velha, já de noite. O público participa ativamente na narrativa, assim como os comerciantes da baixa e os estudantes das repúblicas. Dão um cariz comunitário ao projeto que conta com mais de 100 participantes, verdadeiras “operações de guerra”, nas palavras da diretora.
 
Redescobre-se Coimbra, não só ruas e monumentos mas também a sua simbologia. A Coimbra romântica, das serenatas e de Inês de Castro e a Coimbra contestatária, palco de luta política e estudantil. A redescoberta envolve a celebração de um compromisso dos habitantes para com a cidade, num fórum de discussão de ideias que se transformará num arraial. Segundo a diretora e encenadora “há muito de político no projeto”, sendo um ponto de partida para uma reflexão sobre a atualidade por parte da assistência, com o Teatrão a querer “um compromisso do público em relação à cidade”. “ Os artistas não se podem desvincular da sua visão crítica do mundo”, assevera Isabel Craveiro e acrescenta: “achamos que o país e as comunidades precisam de se organizar. Mas é preciso arranjar algum estímulo para reunir as pessoas e pô-las a falar umas com as outras”.

O projeto começou a ser pensado há 8 meses e ainda está a ser organizado. “Os ensaios são planificados para que, a partir dessas ideias, as improvisações aconteçam”, revela Isabel Craveiro. Não há guião fixo, apenas uma sinopse ainda em fase de construção.

Este espetáculo dinâmico, que conta com uma multipolaridade de registos das várias companhias de teatro amador envolvidas, prevê ser uma grande operação do ponto de vista logístico, uma vez que é a peça que se adapta ao cenário natural e não o contrário. A estreia será dia 23 de junho e há a possibilidade de se repetir o espetáculo nos próximos anos.