CO2 possível de se reutilizar

Quinta, 15 de Dezembro de 2011

por Acabra .Net

De um gás que provoca efeito de estufa, a Universidade de Coimbra está a criar mecanismos de conversão em compostos aproveitáveis pelas empresas. O ambiente agradece. Por Paulo Sérgio Santos

Os dados são claros. De acordo com os últimos relatórios da Agência Europeia do Ambiente (EEA) e a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA), a quantidade de dióxido de carbono (CO2) emitida para a atmosfera é já superior à esperada para o biénio 2011-2012. Importa, portanto, sequestrar aquele que é um dos principais gases responsáveis pelo efeito de estufa. Abílio Sobral, investigador no Laboratório de Química Orgânica, do Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), esclarece que há várias formas de reter o dióxido de carbono que é libertado: “basta plantar árvores ou privilegiar o crescimento de algas”. No entanto, estes são processos muito lentos e, nos últimos anos, “têm-se usado materiais multiporosos inorgânicos para que o processo de sequestro de CO2 seja condensado logo no emissor, evitando-se a emissão atmosférica”.

Todavia, não é só em retenção de dióxido de carbono que se pensa no Departamento de Química. “Projetos de captação de CO2 já existem. O que se está aqui a falar é de converter CO2”, continua Abílio Sobral, concluindo que “a base do estudo é a transformação do dióxido de carbono”.

Há já quinze anos que as porfirinas, presentes no grupo hemo (encontrado em proteínas como a hemoglobina) e na clorofila, são utilizadas em química medicinal. O investigador da UC confirma que “há um trabalho enormíssimo feito com esse tipo de moléculas, dado que são compostos fundamentais na chamada terapia fotodinâmica do cancro, que é uma metodologia não invasiva de tratamento”. Em anos recentes, têm-se descoberto importantes novas aplicações para estas moléculas, como demonstra o docente ao referir que as porfirinas, no estado sólido, “formam estruturas tridimensionais multiporosas”. Abílio Sobral refere ainda que é “a vantagem de terem canais dentro das estruturas cristalinas e a relação área-superfície em termos de volume que faz com que ganhem importância no domínio da química ambiental”. No fundo, “são compostos que podem ser depositados sobre polímeros, tintas, esponjas ou espumas”, explica.

Binómio oferta/procura


Atualmente, ninguém fica indiferente à problemática da emissão de gases com efeito de estufa, sendo o CO2 o mais conhecido pelo público em geral. Abílio Sobral entende que “este é um momento muito propício, devido à relação entre a oferta e a procura”. O investigador considera que, quando há uma grande procura aos produtos que podem ser gerados a partir da transformação do dióxido de carbono, “existem enormes oportunidades de negócio”. Compostos como o metanol, o formaldeído e o ácido fórmico são os resultados esperados da transformação do CO2 e que, segundo o investigador, “estão entre os materiais mais consumidos pela indústria química. O metanol é um importante combustível e solvente industrial, enquanto o formaldeído e o ácido fórmico são agentes de preparação de polímeros e materiais resinosos”.

Perceber a lógica desta ideia é relativamente simples. “É como ter lixo no quintal e alguém pagar para se dar autorização para levarem o lixo. Por exemplo, uma empresa produz 50 toneladas de CO2 por dia e consegue converter, dessas 50, 40 em metanol”, aclara o investigador. Aqui entra a poupança económica subjacente: “se essa mesma empresa consumir 40 toneladas de metanol por dia, deixa de necessitar de ser compradora deste produto. E, ao mesmo tempo, paga menos taxas e impostos sobre a emissão de dióxido de carbono porque, obviamente, deixa de o emitir”, explica Abílio Sobral.

Balanço otimista do projeto

Num projeto estabelecido temporalmente para três anos, o investigador não deixa de fazer um percurso positivo. “Para o primeiro ano, que está a decorrer, tínhamos planeado o início dos estudos e a verificação da capacidade de aprovisionamento de CO2”, objetivos esses que foram cumpridos na totalidade. Outro dos pontos cruciais era a abertura de bolsas de investigação, “essenciais para o emprego jovem e científico” sendo que, neste momento, Abílio Sobral conta com uma equipa, entre investigadores e bolseiros, que já ascende a 15 pessoas. Toda a universidade sai a ganhar, confirma Abílio Sobral: “foi adquirido um espetrómetro de massa, aparelho que permite identificar os diferentes átomos que compõem uma substância, em carência no Departamento, e que também estava previsto no projeto”. O investigador garante ainda que os próximos dois anos apresentam desafios igualmente aliciantes: “o projeto da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) já está delineado e há que o seguir. Mas é no terceiro ano que surgirá a parte mais forte do projeto, com as experiências de transformação de CO2 nos compostos, como é o caso do metanol, e igualmente com os testes no terreno, com os parceiros industriais”.