CITAC provoca 2011 com Divodignos
Sábado, 05 de Março de 2011
por Filipa Magalhães
Uma criação coletiva encenada por Patrick Murys, “Divodignos – Escrito no Sangue”, tem em si uma cilada estudantil, um dilema moral, o Jardim Botânico, 50 pessoas, seis atores, finalmente 2011
É na companhia vegetal da mata do Jardim Botânico que se desenrola “Divodignos – Escrito no Sangue”, uma peça em encenação pelo Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC). São cerca de duas horas de assombro que vivem a tarde, o crepúsculo e o profundo da noite, enquanto o público passa pelos caminhos ramais do Jardim. E se a partida é conhecida, a meta dificilmente se anunciava.
O drama recorda os anos de 1807 até 1828, altura em que Portugal se via ameaçado pelas tropas francesas, pela sombra inglesa e por um marasmo patente nas camadas governativas, em que, inclusive, o rei foge para o Brasil enquanto, no país, o absolutismo encabeçado por D. Miguel vingava. A temática não é estranha, lembrámo-la de “Felizmente há Luar!”. No entanto, aqui presta-se atenção a uma sociedade secreta de Coimbra, os Divodignos, de origem carbonária. Era uma sociedade composta por estudantes da universidade que aspirava ao derrube do rei D. Miguel.
Ainda pelas 18 horas entramos pelos Arcos do Jardim. Somos recebidos por um grupo de música, que nos acompanha, de tambores, flautas e gaita-de-foles, até à entrada do espetáculo. Espetáculo é uma definição pouco precisa para aquilo que se irá arquitetar pela nossa frente, dentro de instantes. Até agora, a indumentária dos que nos recebem já impõe secretismo: tanto a pequena banda que não pára de deambular pela parte aberta ao público do Jardim, como os que guardam a entrada e vendem os bilhetes envergam preto e branco, e uma capa negra, de capuz.
Atrás de nós, a gaita-de-foles parece chamar os que ainda não chegaram, em jeito de alvorada. Assim que o primeiro grupo se faz entrar, é recebido pelos mesmos encapuçados, que logo nos saúdam “boa tarde primos!”. Daí até à derradeira porta verde que abre para a mata e para a peça, o público apercebe-se que há um protocolo: são-nos entregues palavras-passe, as mesmas capas até aos cotovelos para vestirmos, um único nome, já que somos todos primos e paciência! Que temos que entrar todos juntos – atrás de nós os tambores, as flautas e a gaita-de-foles ainda estão de banda sonora.
Às tantas, as 50 pessoas do público esperado estão juntas. Para o meio alguém compara “isto mais parece uma confraria”. Antes de um dos primos anunciar o início da caminhada, já que o “céu está seguro”.
O primeiro dos setes espaços por que se espalha a peça é um curto jardim, onde estão seis círculos de terra remexida. Logo compreendemos o experimentalismo do drama, que ousa tudo: o ambiente vivo, da flora do Botânico, a ameaça de chuva, a paciência do público, ora de pé, ora sentado, ora à duas horas a absorver, a absorver. O elenco surge, quase vindo debaixo do chão, são seis atores absolutamente amadurecidos, convictos de tudo, que se remexem à frente dos nossos olhos: fingem auto-flagelo, atiram-se para o chão, provocam-nos e fazem-nos caretas. Atrás está a mesma banda, agora de tom selvagem.
Há ainda 15 outros primos, que nos ajudam, que nos encaminham, de lanterna na mão e que transmitem segurança ao público, quando aquele matagal não o consegue fazer e a noite está posta.
Sobre resistir
Dois Lentes, Mateus e Figueiredo, da Universidade de Coimbra (UC) no ano de 1828 têm a missão de receber, em Lisboa, o volvido Dom Miguel I, bem como entregar uma lista de estudantes a serem expulsos da UC, pelas suas ligações às causas liberais e ao contra-poder. A 27 de fevereiro do mesmo ano, são responsabilizados 13 dos cerca de 200 Divodignos, cujo objetivo é assassinar os dois Lentes durante a sua jornada até Lisboa.
Ao longo de todo o espetáculo, o público faz-se peça. Cada um de nós torna-se, de facto, um primo. É nesta conjugação que, numa reunião da sociedade secreta, os seis atores principais nos convidam a um dilema moral de dois gumes. Não há forma de nos evadirmos da resposta.
Esse dilema, aqui silenciado, turvou de facto o vigor do compasso revolucionário dos Divodignos, mesmo em 1828. Já a noite se estirava e viram-se três contra três, começam a lutar dentro das 50 pessoas do “público”, com gritos de escárnio e de pouca lucidez, punhos em riste, esgrimam argumentos que a nós, ao lado, nos recordam algo bem presente, esses atices de café, onde o léxico é sempre o mesmo e repete-se vezes e vezes sem conta. É o “contra-poder”, a “luta”, a “reação”, a “subserviência”, a “liberdade”, os “direitos”, a “resistência” e a “corrupção”. Tantas vezes se repete que as palavras deixam de fazer sentido e de terem, sequer, significância.
É no meio dessa disputa, em que a causa inicial está em apuros, se é que já não se perdeu, que compreendemos o porquê desta encenação para os dias de hoje. Resistir. Perguntamo-nos, às tantas, se há resistências boas e resistências más. A resposta é inequívoca e límpida: o problema são as suas cisões, a sensibilidade das suas convicções e, por fim, aqueles que assinam, por baixo do nome, “elemento de resistência” com ideias mais-que-pré-determinadas, tão concluídas como aquelas que está disposto a derrubar. A força motriz assim se quebra, ao passo que a antiga resistência é agora ramificada por três ou quatro forças, todas elas engripadas, febris, e zangadas entre elas.
“Isto é uma história entre um homem e um peixe”, disseram. Sendo certo que o peixe é animal que não se domestica, e assim vive em liberdade, fica por se saber realmente o destino do homem e, “onde está o peixe?”.
Fotos por Inês Silva






