É bom ter poesia
Quinta, 09 de Fevereiro de 2012
por Catarina Gomes
Todos os meses um grupo de sócios da Associação Nacional de Apoio ao Idoso (ANAI) trazem amigos e conhecidos ao Recordatório da Rainha Santa Isabel em Santa Clara para ler e discutir poesia. As Tertúlias Aedo estão abertas ao público em geral
Ao entrar no espaço do bar do pouco afamado recordatório, vêm-se dispersas várias mesas de quatro lugares. O ambiente é intimista, rodeado de velas e arte. Nem todos os presentes fazem parte da Associação. “Os amigos vêm com os amigos”. O tema desta sessão é “Libido”, por isso os poemas lidos são “à vontade do freguês”. A uma mesa junto à pequena lareira, um grupo de senhoras conversa. Ouve-se um “Traga-me um chazinho”.
A sessão começa. “Alguns faltaram por gripe”, informa Manuel Dias da Silva, um dos fundadores da tertúlia. “Piegas”, ouve-se dizer, “São uns piegas”. E depois dos risos começam as leituras. Todos os poemas lidos são arquivados para que no décimo ano de existência da tertúlia seja possível fazer a sua publicação.
As tertúlias servem também, além da celebração de artistas queridos, como Eugénio de Andrade e Pessoa, para divulgação de artistas menos conhecidos. Aqui a poesia é motivo de estudo. Sabe-se do que se fala, muitos sabem ainda de quem se fala, tendo conhecido intimamente os autores. Poemas são comparados. Lê-se “O amor é” de Camões, precedido de outros de gente anónima cujos versos não parecem tão incógnitos. “Ninguém cria nada. Os poetas imitam-se uns aos outros”, observa Manuel Dias.
As folhas circulam pela sala à medida que chega a vez de participar. Lê-se Manoel de Barros (“O Menino que carregava água na peneira”), Emanuel Félix (“As Raparigas lá de casa”), Ana Luisa Amaral (“Testamento”) e Sophia, como lhe chamam apenas. Os “sim senhor” e os “muito bonito” substituem as palmas, desnecessárias ao ambiente tão íntimo.
O antigo professor da Faculdade de Letras, criador da instituição e Presidente da ANAI, José Ribeiro Ferreira, justifica a criação da tertúlia: “achamos que é bom ter poesia. A poesia impõe-se por si mesma, não é preciso dizer muito mais. É nela que estão as mensagens”. Em relação ao local escolhido explica que quando o visitaram e viram o espaço pensaram: “Olha que maravilha”. O presidente explica que, “para além de ser um sítio calmo, tem acesso para o Mosteiro de Santa Clara, que pode receber muita gente”.
O grupo estará presente na inauguração da rua Camilo Pessanha, poeta, a convite da Câmara Municipal de Coimbra com a qual colabora, à semelhança da Casa Miguel Torga. A próxima sessão da Tertúlia terá lugar no dia mundial da poesia, 21 de março. As sessões estão abertas a qualquer um que desejar assistir e juntar-se ao grupo, para ler e discutir ou apenas para ouvir e guardar.






