Associativismo tem ganho “nova onda de curiosidade”, observa Elísio Estanque

Quinta, 25 de Fevereiro de 2010

por Pedro Crisóstomo

A visão que o sociólogo Elísio Estanque quis deixar ontem aos estudantes de Coimbra num debate sobre “o afastamento dos jovens do associativismo” é de esperança. Mas não evitou um alerta: se a democracia é hoje “um dado adquirido”, “é preciso lutar por ela”

Debate_associativismo
Rui Claro, Eduardo Cabrita, Miguel Portugal, Elísio Estanque, Paulo Fernandes e Luís Machado (da esquerda para a direita) Foto por Cláudia Teixeira

“Está a crescer uma nova onda de curiosidade” em relação ao associativismo estudantil, depois de uma fase “mais complicada no que toca à indiferença e ao individualismo”. Foi com esta ideia que o sociólogo Elísio Estanque rematou, ontem à noite, o comentário ao afastamento dos estudantes do movimento estudantil em Coimbra, no primeiro de uma série de debates mensais ligados ao ensino superior, organizados pela Direcção-Geral da Associação Académica de Coimbra (DG/AAC) no Café Santa Cruz.

Estanque colocou a tónica do associativismo numa preocupação “de fundo”, questionando sobre “o futuro da democracia”. Hoje, diz o sociólogo, entendemo-la “como um dado adquirido”, razão suficiente para que lutemos “por ela”, defende. Para o professor da Faculdade de Economia, existe uma “atitude semelhante” na forma como a sociedade portuguesa olha para a classe política e o modo como a massa estudantil vê os dirigentes associativos das estruturas da AAC.

“É pena que exista uma sempre uma interpretação pela negativa”, quando os estudantes acusam os colegas em cargos associativos de estarem “no poleiro à procura de uma porta aberta” para serem “deputados” ou para “ganhar milhões”, concretizou. Antes de Elísio Estanque se referir com optimismo quanto ao futuro do movimento estudantil, as palavras do sociólogo do Centro de Estudos Sociais sobre a dificuldade em aproximar os estudantes foram corroboradas pelo restante painel de oradores.

Paulo Fernandes, presidente da direcção-geral no mandato de 2006/2007, concordou com este retrato e notou a dificuldade em voltar a aproximar os estudantes da AAC: “[os dirigentes associativos] dificilmente irão ter uma mudança radical” por parte da massa de estudantes capaz de dar capital humano a tanta secção” da casa.

“Não será melhor fundir secções?”

No mesmo tom, Luís Machado, antigo membro da direcção-geral e actual membro da Assembleia de Revisão Estatutária da AAC, falou da Academia coimbrã como um “microclima do que se passa no país” e daí a necessidade, segundo defende, de ser repensada a estrutura da associação académica. Sobre as 68 estruturas da AAC – 26 núcleos, 26 secções desportivas e 16 culturais – lançou a pergunta: “será que é demais, será que é de menos?”.

Rui Claro, presidente da recém reactivada Secção de Defesa dos Direitos Humanos e membro da Comissão Executiva do Conselho Cultural da AAC, foi mais longe e questionou: “não será melhor fundir secções? Mudar-lhes o nome? Atribuir-lhe um novo objecto?” A razão, justificou, reside no facto de “só cerca de metade” estar a “actuar activamente”.

A fechar a ronda de discursos, Eduardo Cabrita, membro do Conselho Desportivo da AAC, retomou o tema de abertura, ao falar em “consciência de participação democrática” e em “mobilização”. E concretizou com uma proposta que “o Conselho Desportivo faz à universidade: a criação de alguma coisa que não seja a globalização, mas a integração”. Referia-se à implementação de uma “Escola Desportiva Integrada” para crianças dos 5 aos 8 anos.

Miguel Portugal não comenta papel da Magna

À margem das comunicações de cada orador do debate, houve espaço para perguntas da plateia. Questionado sobre qual considera ser o papel das Assembleias Magnas no futuro da AAC, o presidente da direcção-geral, Miguel Portugal, a quem coube a moderação do debate, evocou o facto de se tratar de um “órgão que é estatutariamente como é” e de estar a decorrer a revisão estatutária da associação académica para “não discutir publicamente” a questão.