Apesar do otimismo, Primavera Árabe passível de subversão
Terça, 18 de Outubro de 2011
por Acabra .Net
Em torno de expectativas de democratização, a sombra do radicalismo paira sobre os países da Primavera Árabe, um termo otimista que pode, na verdade, ser um pouco mais complexo e dúbio do que parece. Aproveitamento da religião também pode ser condicionante. Por Joana de Castro e Maria Garrido
"A radicalização, a violência e a guerra são sempre uma possibilidade nos processos de transição e de democratização, no Médio Oriente ou em qualquer outra região". Quem o diz é o doutorando em Ciências Políticas e Relações Internacionais, Carlos Gaspar, referindo-se à possibilidade de uma radicalização nos países da apelidada Primavera Árabe, por parte das forças de libertação. Contudo esta própria designação é questionada por Carlos Gaspar: "forças de libertação é um termo equívoco", considerando que a Primavera Árabe "não é um movimento violento".
Também José Goulão, especialista em política internacional e questões do Médio Oriente, sublinha que "as radicalizações são sempre possíveis quando não se resolvem os problemas sociais". O mesmo acredita que se levantam ainda "muitas expectativas em relação à Primavera Árabe", uma vez que "não há qualquer relação, a não ser de génese" entre os vários países.
A radicalização depende, em parte, dos processos eleitorais, na forma como se irão processar, no resultado e na aceitação dos mesmos, explica a especialista em geopolítica do Médio Oriente, Ana Santos Pinto. A mesma afirma que não se pode "falar em movimentos de transição política e muito menos em democracias". No entanto, sublinha que "não significa que não exista uma maior participação das populações nos atos eleitorais, e que estes não cumpram aquilo que são as exigências mínimas de atos participados". Assim, entende também que "as democracias não são feitas de eleições, mas de muito mais que isso".
O dúbio conceito de democracia
"Não é claro que todas as forças que se opõem e que querem derrubar o poder instalado mais ou menos ditatorial queiram uma democracia do tipo daquela que veio a ser reivindicada mais tarde pelos europeus de leste", comenta o investigador do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI), Bernardo Pires de Lima. O mesmo refere que o conceito de Primavera Árabe não será aplicável, pois é "demasiado otimista para refletir a complexidade das realidades internas desta região", face ao sucedido na Europa de Leste, onde o conceito de democracia "vingou". Pires de Lima chama no entanto a atenção para o facto de o conceito de democracia como o ocidente o concebe, poder não ser compreendido da mesma forma pelo oriente ou, pelo menos, não em todos os países: "eu acredito que haja movimentos seculares, ou não, que queiram instituir um estado de direito pluralista com liberdades extensas e eleições livres". Nesse sentido, o investigador acredita que "há certamente muitas intenções democráticas e princípios que são princípios universais e não exclusivos do ocidente. Mas há outros movimentos que não têm uma conceção das democracias como nós a temos".
Corroborando estas afirmações, José Goulão remete para o erróneo facto de se considerar que movimentos contra um regime ditatorial "são movimentos democráticos, de acordo com os nossos parâmetros". "Haverá, no entanto, movimentos dentro destes países que têm conceções e valorizam aquilo que nós valorizamos e haverá outros que não, que se aproveitam da convulsão para chegar ao poder", acrescenta.
Tendo em conta a importância do fator religioso como base destas sociedades, não será difícil entender o Corão como a "forma como cada um dos indivíduos vivem e se organizam, sejam eles moderados, sejam eles radicais", refere Ana Santos Pinto. A especialista lembra ainda com isto, que o Corão "faz parte da ordem política", não significando tal facto "uma inevitabilidade na radicalização".
Fator religião
Carlos Gaspar menciona que a religião "é decisiva em todos os países onde as religiões monoteístas são dominantes" e que entende ser "importante definir primeiro quais são as questões que podem separar as correntes mais reacionárias". Para tal, o também investigador do IPRI distingue as que defendem a sharia (código de leis do islamismo) e a submissão das mulheres, das correntes modernizadoras "que defendem uma ordem política e jurídica secular, a igualdade de direitos cívicos e políticos entre homens e mulheres, a proteção das minorias, nomeadamente as minorias religiosas, como os coptas (comunidade cristã) no Egito, e uma abertura económica".
Como modelo a seguir, Bernardo Pires de Lima aponta para o modelo turco, uma vez "que este é uma espécie de democratização islâmica, com respeito pelas tradições mas assente no estado de direito".
"Há quem queira aproveitar-se do fator religioso para tirar os seus benefícios, através de sociedades onde ainda há muito obscurantismo associado à religião", assevera José Goulão. Considerando que a religião "tem um peso", o especialista defende que "grandes potências mundiais usam a religião e a sua força para atingir os seus objetivos". Como exemplo, dá o caso do Kosovo e da Bósnia-Hersegórvina que "não foi mais do que uma aliança entre a Organização do Tratado Atlântico Norte (NATO) e grupos islâmicos que noutras situações são considerados terroristas".
Afirmando ser preciso "estranhar as simplificações" do conceito de Primavera Árabe, umas vez que estas "não ajudam a explicar a complexidade das coisas", Bernardo Pires de Lima remata: "em vez de termos uma Primavera Árabe, podemos ter um inferno árabe - ter movimentos absolutamente radicais e permeáveis ao radicalismo islâmico, a redes terroristas, ao crime organizado, a uma espécie de medievalismo".
Com João Paulo Ferreira






